Pela primeira vez, furto de celular passou a superar o roubo, quando há ameaça ou agressão

Pela primeira vez, furto de celular passou a superar o roubo, quando há ameaça ou agressão

Fonte: Bandeira



O país registrou, em 2025, 792.284 ocorrências de roubo ou furto de celulares, que totalizaram 830.890 aparelhos subtraídos, segundo os dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23).

O número resulta em média equivalente a 95 celulares por hora, uma queda de 7,7% frente a 2024 e de 25% em relação ao pico da série histórica, registrado em 2019.

O levantamento também destaca que, pela primeira vez desde que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) começou a medir este crime, o furto passou a superar o roubo como o principal modo de usurpação de celulares no Brasil.

Em 2025, os roubos recuaram 18,6% e os furtos ficaram estáveis (leve alta de 0,9%).

Hoje, 6 em cada 10 celulares subtraídos no país são resultado de furto, e os quatro restantes de roubo.

O furto ocorre quando alguém subtrai um bem sem qualquer tipo de agressão, contato hostil ou intimidação à vítima.

Já o roubo acontece quando há o emprego de força física, agressão ou ameaça.

Os microdados nacionais analisados pelo FBSP mostram que roubos e furtos têm comportamentos e determinações distintas.

O roubo é predominantemente urbano e noturno, 77,2% deles ocorrem em vias públicas e 4 em cada 10 acontecem entre 18h e 23h, com pico às 20h.

Já o furto se espalha por horários diurnos, com picos entre 10h e 12h e 17h e 20h, e por locais de grande circulação.

Estabelecimentos comerciais respondem por 15% deste tipo de ocorrência e o transporte público por 6,1%.

A queda dos roubos ocorreu em 26 das 27 unidades da federação, com exceção do Rio de Janeiro, onde o roubo de celular cresceu 19,4%, único caso em que a modalidade ganhou terreno no país.

Somando roubos e furtos, apenas dois Estados saíram do padrão nacional de baixa, o Rio de Janeiro (alta de 22,7%) e a Paraíba (21,1%).

As reduções mais expressivas foram em Rio Grande do Norte (-22,1%), Mato Grosso (-20,6%), Goiás (-19,6%), Amazonas (-19,2%) e Espírito Santo (-18,2%).


“Esse é um crime que os Estados têm se empenhado em combater.

A ocorrência é desigual entre os Estados, mas existe uma tentativa de resolver.

É um crime que gera uma sensação de pânico muito grande e afeta a população de todas as camadas”, avalia Samira Bueno, diretora executiva do FBSP.


Segundo a especialista, os crimes patrimoniais, que tradicionalmente tinham como alvo pessoas de classe média e classe média alta, passaram a atingir todos os segmentos econômicos a partir do advento do roubo de celulares.

SP é principal polo desse mercado ilícito

O problema segue concentrado nas grandes capitais.

A cidade de São Paulo, que concentra 5,6% da população do país, registrou 20% de todos os roubos e furtos de celular de 2025, número que sobe para cerca de 32% quando se considera o Estado, principal polo desse mercado ilícito.

Considerando a taxa de roubos e furtos a cada 100 mil habitantes, o ranking das cidades é liderado por São Luís (MA), seguida por Belém (PA) e São Paulo (SP); Salvador (BA), Lauro de Freitas (BA), Porto Velho (RO), Manaus (AM) e Olinda (PE) completam o topo, todas com taxas superiores a mil ocorrências por 100 mil habitantes.

Das 20 cidades mais afetadas do país, 14 são capitais e as demais estão em suas regiões metropolitanas.

O Anuário oferece hipóteses para explicar por que o roubo caiu, enquanto o furto resiste, e também aponta para uma transformação econômica do crime.

Primeiramente, há um cálculo de risco por parte dos criminosos.

O roubo é mais suscetível a câmeras, ação policial e reação de terceiros, o que eleva o custo relativo do delito.

Programa Celular Seguro

Aliado a isso, houve o lançamento do Programa Celular Seguro, iniciativa do Ministério da Justiça que já reúne mais de 3 milhões de aparelhos cadastrados e tornou a monetização do aparelho roubado (via acesso a aplicativos bancários) muito mais difícil.

Como o roubo tipicamente envolve entregar o celular desbloqueado sob ameaça, o aplicativo do governo mitigou o retorno econômico desta prática.


“Se está mais difícil acessar esses celulares, então para que se arriscar? A pessoa prefere furtar então.

Essa pode ser uma possibilidade, mas temos que acompanhar outras dinâmicas.

O roubo de celular é uma porta de entrada para golpes, mas temos que olhar para a hipótese do custo dos aparelhos no mercado paralelo, se o valor tem oscilado.

A gente sabe que parte dos aparelhos subtraídos é rapidamente revendida”, diz Samira Bueno.

Recursos que dificultam desbloqueio e reutilização

O anuário destaca a queda no valor de revenda dos aparelhos, à medida que Apple e Samsung passaram a incorporar recursos como o Stolen Device Protection e o Theft Detection Lock, que dificultam desbloqueio e reutilização.

Estudo de longo prazo com criminosos na Austrália mostrou que a proporção que dizia roubar eletrônicos para revenda caiu de 33%, em 2002, para 11%, em 2018.

O FBSP pondera que este movimento já pode estar em curso no Brasil.

Por último, é possível traçar um elo entre o aumento dos registros de receptação (alta de 3,3% em 2025) com a queda geral dos roubos de celular.

Em 11 das 25 UFs onde roubos e furtos caíram, a receptação subiu.

Segundo o Anuário, isso pode indicar que o esforço investigativo se voltou para o mercado receptor e não apenas para o ato do roubo, o que acaba por diminuir essa prática.

A interpretação do FBSP se apoia na abordagem de redução de mercado, do criminologista britânico Mike Sutton, que traz a hipótese de que se a receptação fica mais custosa, o incentivo econômico para subtrair se enfraquece na base da cadeia.