'Pela metade', com Richard Gadd (de 'Bebê Rena'), é brutal, brilhante e imperdível. Saiba por que razões

 

Fonte: Bandeira



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As glórias de “Bebê Rena” — entre elas, um Emmy — não amansaram a fúria criativa de Richard Gadd. “Pela metade”, do escritor e ator escocês, chegou à HBO Max para provar isso. É uma produção sombria, brilhante e corajosa. Gadd volta a pisar com força em nervos expostos. São seis episódios difíceis de assistir, mas imperdíveis. Ainda estamos em maio, e já dá para afirmar que essa é uma das melhores séries do ano.

O enredo começa nos dias de hoje. Dois homens estão sozinhos num celeiro e se encaram em sinal de briga. Niall (Jamie Bell) usa um traje de casamento escocês. Ruben (Gadd), sem camisa, faz mil ameaças e fecha os punhos como um boxeador prestes a atacar. A ação recua 30 anos para mostrar o passado comum que levou a dupla até aquele momento.

Nessa outra cronologia, Niall tem 15 anos (Mitchell Robertson) e está na escola. É um ótimo aluno e sofre bullying. O líder do assédio debocha de Niall, dizendo que a mãe dele, Lori (Neve McIntosh), é casada com outra mulher, Maura (Marianne McIvor). O ambiente cruel e tóxico parece ainda mais irrespirável em contraste com o desamparo do adolescente. Ninguém o protege, nem o professor.

O medo aumenta quando ele descobre que o filho de 17 anos da parceira de sua mãe foi liberado de uma instituição para jovens infratores e vai morar com eles. Os garotos terão de dividir o quarto. Dividir não é bem a palavra. Ruben (Stuart Campbell) chega dominando o território. Ele joga as coisas de Niall no lixo e redecora tudo. Parece uma dicotomia entre o bem e o mal. Porém, nada em “Pela metade” se resume a dualismo e essa não é uma situação opondo um sujeito dominador e outro, obediente e servil. Esse roteiro é multidimensional e cheio de solavancos.

Richard Gadd/Pela Metade

Divulgação

Os meninos se tornam próximos e se dizem irmãos “de outro coração”. Ruben, fortão, se apresenta como protetor de Niall na escola e as perseguições param. Um caldo de sentimentos — nem sempre compatíveis entre si — une os dois: tirania, submissão, ódio, medo, admiração, necessidade de aceitação e por aí vai.

Niall (Jamie Bell)/Pela Metade

HBO

Cada um tem um papel na dramaturgia familiar. Lori e Maura atuam para cristalizar as dinâmicas doentias. Qualquer movimento para quebrar esse ciclo ruim é interrompido pelas duas. Até que os comportamentos viciados se consolidam e viram um padrão emocional. A relação simbiótica e neurótica dos rapazes atravessa a vida de ambos. Não vou dar spoiler: “Pela metade” é cheia de surpresas e elas são fundamentais para garantir a força dos questionamentos que Gadd propõe. Assistindo a ela, lembrei muito das obras de Edouard Louis sobre sua infância, e também de “Triste tigre”, de Neige Sinno, outro relato autobiográfico doloroso. A série vai longe e explora o que pode acontecer com pessoas que foram aterrorizadas muito cedo, quando ainda estavam formando a própria identidade. No mínimo, elas têm grande intimidade com a violência. Não perca.