Pedro Turra: advogado leva 'bronca' de desembargadores por dizer que piloto foi preso 'por ser branco'
O presidente da 2ª Turma Criminal do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT), o desembargador Josaphá Francisco dos Santos, e o relator, desembargador Diaulas Ribeiro, repreenderam o advogado do piloto Pedro Turra por dizer, numa entrevista, que o cliente havia sido preso "por ser branco e de classe média" — dias depois, Eder Fior pediu desculpas pela declaração. No julgamento novo habeas corpus pedido pela defesa do piloto, que acabou negado nesta quinta-feira, os magistrados criticaram a fala do advogado e defenderam a lisura do trabalho do tribunal.
Numa entrevista ao Metrópoles, Eder Fior afirmou que a imposição de medidas cautelares, como a tornozeleira eletrônica, seriam suficientes para seu cliente e atribuiu a detenção a uma suposta perseguição das autoridades. Josaphá Francisco dos Santos rebateu a declaração como "lamentável".
— Com todo respeito à entrevista, é uma total desinformação e desconhecimento do tribunal. É lamentável, porque, quem reside no Distrito Federal, sabe da persistência e da lisura desse Tribunal de Justiça — afirmou o presidente da Corte.
Após a repercussão da declaração, Eder Fior se retratou. Ele escreveu nas redes sociais que a fala havia sido "descontextualizada" e explicou que se referia ao que chamou de "seletividade do sistema e da cobertura pública", e não a vítimas ou quaisquer grupos vulneráveis.
No julgamento do habeas corpus, o relator Diaulas Ribeiro rebateu o pedido de desculpas.
— O ilustre advogado deu uma entrevista e disse que este tribunal só prendeu este rapaz porque ele é branco e rico. Se ele fosse preto e pobre, estaria solto. Eu decido, com a minha consciência, com os meus mais de 40 anos de vida jurídica neste tribunal. Não tenho nenhuma razão para ficar debatendo esse tipo de acusação. Depois, a minha assessoria passou um pedido de desculpas dele, mas não é daquela forma que se ofende, e não é daquela forma que se pede desculpas — destacou.
Pedro Turra denunciado
O Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) pediu que Pedro Turra seja condenado a pagar ao menos R$ 400 mil para a família do adolescente agredido em 23 de janeiro, em Vicente Pires (DF), em reparação por danos morais. Ao GLOBO, o advogado da família de Rodrigo Castanheira disse que o valor pedido pelo MP está aquém da capacidade financeira do piloto. "Conta de boteco para ele", disse.
O jovem morreu após ficar 16 dias internado em estado gravíssimo. A acusação ofereceu denúncia contra o suspeito por homicídio doloso qualificado e argumentou que o piloto agiu de forma "livre e consciente".
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Na denúncia, o MP destacou que o caso foi cometido por motivo fútil: "uma discussão banal iniciada por um cuspe desferido pelo denunciado". Para a acusação, Pedro Turra assumiu o risco de matar o adolescente de 16 anos ao desferir "reiterados socos" na vítima. Laudo de exame de corpo de delito aponta que as lesões foram a causa da morte.
A vítima foi agredida por Turra durante uma briga na porta de um condomínio. Ela sofreu um traumatismo craniano severo ao bater a cabeça contra um carro durante as agressões. O suspeito permanece preso preventivamente. A Justiça agora deverá analisar se recebe a denúncia, o que tornaria réu, e se o piloto será julgado pelo Tribunal do Júri.
Investigação
A investigação sobre a agressão que resultou na morte do adolescente ganhou novos contornos nos últimos dias. A Polícia Civil já havia concluído que a versão inicial de que a briga teria começado por causa de um chiclete não se sustentava.
A defesa da vítima disse que a agressão teria sido premeditada e motivada por ciúmes envolvendo a ex-namorada de outro piloto, amigo próximo de Pedro Turra. Segundo essa versão, o grupo teria ido ao local com a intenção de provocar a briga.
O advogado Albert Halex, que representa a família do adolescente, afirma que há indícios de que os envolvidos chegaram juntos à festa e que a vítima teria sido chamada para fora pouco antes da agressão. Um áudio apreendido pela polícia, segundo a defesa, indicaria a intenção de “honrar” um combinado, reforçando a tese de emboscada. A defesa de Pedro Turra não se manifestou sobre essas alegações.
Advogado de Turra pede desculpas
O advogado de Turra pediu desculpas por dizer que o cliente estaria preso "por ser branco e de classe média". Em entrevistas à imprensa, Eder Fior afirmou que a imposição de medidas cautelares, como a tornozeleira eletrônica, seriam suficientes e atribuiu a detenção a uma suposta perseguição das autoridades.
— Então, Pedro está preso por ser um jovem, branco, posicionado na sociedade como de classe média, piloto de carro esportivo. Entendemos que a prisão é a medida mais extrema e que só deve ser adotada em casos extremos — afirmou. — Nós estamos falando de uma pessoa com 19 anos de idade, que poderia estar com tornozeleira eletrônica, que poderia estar com prisão domiciliar, que poderia ter uma série de medidas cautelares ali estabelecidas (...) de uma série de situações que não fossem essa medida extrema. O que acontece com essa prisão é uma resposta social.
Em post no Instagram, após a repercussão da declaração, Eder Fior afirmou lamentar "sinceramente" que a fala tenha sido "descontextualizada". Ele disse compreender a sensibilidade do tema e reforçou que a crítica se dirigiu ao que chamou de "seletividade do sistema e da cobertura pública", e não a vítimas ou quaisquer grupos vulneráveis.
"Respeitosamente, peço desculpas se a forma como me expressei deixou margem para outras interpretações, inclusive a que está sendo feita agora. O que eu pretendia dizer é que o enorme inflamar da opinião pública neste caso se deu, em grande medida, em razão da classe social envolvida — algo que, infelizmente, não costuma acontecer com inúmeros casos igualmente graves que ocorrem todos os dias com pessoas pobres da periferia, sem a mesma repercussão ou indignação coletiva", disse ele.
Delegado chorou em entrevista coletiva
Pelas redes sociais, Fior criticou o delegado responsável pela apuração do caso por chorar durante uma entrevista coletiva. O advogado afirmou que não viu Pablo Aguiar chorar "com outros crimes" e atribuiu a detenção à comoção social decorrente da investigação.
"A autoridade policial deve atuar com imparcialidade, estrita legalidade e respeito aos direitos fundamentais do investigado. Exorbitar sua função, agir com abuso, coação ou prejulgamento compromete a lisura do inquérito. O delegado não é acusador, é garantidor da legalidade da fase investigatória. É isso!!!", escreveu o advogado, em post nos stories do Instagram.
Pelas redes sociais, o advogado Eder Fior disse que o delegado, "calado, é um poeta", numa referência às declarações do investigador durante entrevista coletiva. Ele criticou uma suposta "espetacularização" do caso. Na ocasião, Pablo Aguiar, da 38ª Delegacia de Polícia (Vicente Pires), afirmou que Pedro Arthur é um “sociopata sem condições de conviver em sociedade”.
Segundo o delegado, a prisão preventiva era necessária diante da gravidade do caso e do comportamento reiterado do investigado. Aguiar pontua que as investigações traçaram um modus operandi do piloto nas brigas.
— Frequentemente, ele se associa a amigos, possivelmente, para obter apoio durante os confrontos — afirmou o delegado.
Outras investigações
Com a repercussão do caso, a Polícia Civil passou a apurar outros episódios envolvendo Pedro Arthur. Ele já é investigado por quatro denúncias, sendo três agressões anteriores e uma tentativa de oferecer bebida alcoólica a uma adolescente menor de idade. Duas dessas ocorrências só foram registradas após a divulgação do caso mais recente.
A defesa do piloto classificou o episódio como um “desentendimento banal” e afirmou que não houve intenção de provocar o desfecho violento. Em nota, a família de Pedro declarou solidariedade à vítima e disse que ele manifestou arrependimento perante a autoridade policial.
Já a Fórmula Delta anunciou o desligamento do piloto do quadro da temporada 2026 e afirmou que repudia qualquer tipo de violência. A organização disse ainda que aguarda os desdobramentos judiciais para adotar outras medidas, se necessário.
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