Pedro Almodóvar: 'Nas filmagens, me sinto como um pintor'; cineasta vai disputar Palma de Ouro em Cannes

 

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Vermelho, azul, amarelo… Seu estilo é marcado por uma paleta de tons intensos. O diretor espanhol Pedro Almodóvar afirma que, durante as filmagens, se sente como “um pintor” e que as cores são “um elemento essencial” em seus filmes.

O autor de obras emblemáticas como "Tudo sobre minha mãe" e "Volver" detalhou neste sábado alguns aspectos de sua filmografia, em uma conversa com estudantes diante de uma sala lotada de um cinema em Paris.

Poucos dias após o anúncio de que seu novo filme, “Amarga navidad”, vai disputar a Palma de Ouro no próximo Festival de Cannes, o cineasta celebrou que, desde o início da carreira, o cinema é para ele “uma grande festa”.

“Quando estou filmando, me sinto como um pintor, como um artista plástico”, disse o diretor, de 76 anos, durante o encontro, realizado no contexto de uma retrospectiva integral dedicada a ele pelo Centro Pompidou até 26 de maio.

“De certo modo, estou pintando com elementos tridimensionais”, acrescentou. “As cores, para mim, são um elemento essencial na hora de narrar um filme.”

Almodóvar atribui esse entusiasmo por cores vibrantes aos primeiros filmes que viu, em technicolor.

Segundo ele, isso também pode ser uma reação ao fato de sua mãe ter sido obrigada a usar luto durante sua infância e até depois dos seus 20 anos — inclusive enquanto estava grávida dele.

Almodóvar junto ao cartaz da mostra em sua homenagem no Pompidou: 'Nos meus filmes há muitos seres, muitos personagens que acompanham outros em momentos de dor'

Stephane de Sakutin / AFP

“A explosão de cores nos meus filmes é a resposta que minha mãe gerou a uma tradição tão brutal quanto condenar as pessoas a se vestirem de preto quase a vida inteira”, disse, em referência ao costume, já extinto em sua região natal, de usar roupas escuras devido ao luto.

O resultado são essas tonalidades intensas que o ajudam a retratar “personagens barrocos e excessivos” que habitam suas histórias, como Leo Macías (Marisa Paredes) em "A flor do meu segredo" ou Raimunda (Penélope Cruz) em “Volver”.

'Acompanhar'

Almodóvar, que já dirigiu cerca de trinta filmes, falou sobre a “fascinação” que sente pelos atores.

“Entre todas as opções narrativas que uma imagem oferece em um filme, eu sempre escolho o ator”, afirmou o diretor, que já trabalhou com Carmen Maura, Antonio Banderas, Victoria Abril, Javier Bardem e, mais recentemente, com Tilda Swinton e Julianne Moore.

“O ator é quem carrega a mensagem. São os olhos dos atores que você vê, o rosto dos atores, os corpos dos atores”, insistiu.

Almodóvar também comentou as histórias dolorosas e traumáticas que permeiam sua filmografia.

“Nos meus filmes há muitos seres, muitos personagens que acompanham outros em momentos de dor. Há ocasiões em que acompanhar é o máximo que você pode fazer por alguém”, disse, citando como exemplo "O quarto ao lado", no qual duas amigas — uma delas muito doente — voltam a viver juntas.

“Não saberia contar uma história sobre pessoas absolutamente felizes”, concluiu.