Pedreira da família de presidente do PL-RJ vende material para obras contratadas por Douglas Ruas no governo do Rio
Uma pedreira que está em nome de familiares do deputado Altineu Côrtes, presidente regional do PL no Rio, forneceu material para produção de asfalto em obras da secretaria estadual de Cidades em São Gonçalo (RJ), quando a pasta era comandada por Douglas Ruas (PL), hoje presidente da Assembleia Legislativa (Alerj) e pré-candidato ao governo apadrinhado pelo parlamentar.
Alcolumbre após derrota de Messias no Senado: 'Não tenho que esperar nada do governo'
Agressão em hospital de Brasília: técnica de radiologia pede afastamento após acusar Magno Malta
Entre fevereiro e agosto do ano passado, a pedreira Santa Edwiges vendeu o que é conhecido no setor como “agregados minerais” para três obras de pavimentação da construtora FP Vieira em São Gonçalo, reduto de Altineu e Ruas. Agregados minerais são componentes como brita, pedra e areia, que são misturados a outras substâncias para fazer o asfalto.
Editoria de Arte
A Santa Edwiges está no nome de dois irmãos do deputado — Marcelo e Angela Coutinho — e do seu filho, Altineu Paesler Coutinho.
As obras contratadas pela secretaria chefiada por Ruas preveem asfaltamento e drenagem em ruas dos bairros de Bom Retiro e Sacramento, e implementação de um corredor de ônibus entre os bairros Neves e Guaxindiba. Procurado, o presidente da Alerj afirmou que cabe ao governo estadual somente fiscalizar a entrega final da pavimentação e que não interfere na escolha de fornecedores.
Levantamento do GLOBO em processos administrativos do governo estadual identificou que o material vendido pela Santa Edwiges abasteceu pelo menos cinco etapas dessas obras, que tiveram custo de R$ 4,9 milhões em revestimento asfáltico.
Não há informações públicas disponíveis sobre quanto a empresa da família de Altineu recebeu por essas obras, uma vez que os contratos foram entre duas empresas privadas. Mas segundo engenheiros consultados pelo GLOBO, os agregados minerais, como os vendidos pela pedreira, costumam representar até 15% do custo do revestimento asfáltico. No total, as obras tocadas pela FP Vieira têm custo total de R$ 644,5 milhões.
‘Clientes privados’
Procurado, Altineu afirmou que a pedreira de sua família “não participa de licitações públicas” e apenas “fornece para clientes privados, sempre buscando o menor preço”. A Mineração Santa Edwiges disse que “disputa com várias outras pedreiras” da região e vende para “várias empresas”, e não diretamente para órgãos públicos. “No nosso setor os fornecimentos são feitos por quem tem o material disponível e o menor preço”, informou a Santa Edwiges em nota.
Sobre o fornecimento da pedreira de parentes de Altineu para obras da Secretaria de Cidades, Ruas afirmou que “o poder público não interfere na escolha de fornecedores de sua contratada, que é de responsabilidade da empresa contratada”, disse em nota.
No ano passado, uma revista especializada apontou a Santa Edwiges como a 15ª maior produtora de agregados minerais do país. Em 2025, a empresa informou à Agência Nacional de Mineração (ANM) que sua operação movimentou R$ 51 milhões.
Ao GLOBO, a FP Vieira disse que costuma adquirir agregados minerais da Santa Edwiges e de uma outra pedreira também localizada em São Gonçalo, por serem as mais próximas da sua usina de asfalto. Segundo a construtora, as compras de brita não são feitas para contratos específicos.
“O fato de a pedreira citada pertencer à família de um deputado não influencia, positiva ou negativamente, a utilização de sua brita. Usamos os recursos disponíveis, prevalecendo sempre a melhor técnica, dentro da economicidade prevista”, informou a empresa.
As obras da Secretaria de Cidades em São Gonçalo ajudaram a alavancar a reeleição do prefeito Capitão Nelson (PL), pai de Douglas Ruas. Os recursos para pavimentação também ajudaram a promover a imagem de Ruas pelo estado antes das eleições ao governo neste ano. Em viagens recentes pelo interior, nas quais tem feito encontros com prefeitos, Ruas vem lembrando investimentos em pavimentação da secretaria de Cidades e prometido novas obras.
Orçamento secreto
A pedreira da família de Altineu fica às margens da Estrada de Ipiíba, em São Gonçalo. No governo Bolsonaro, o Ministério do Desenvolvimento Regional enviou R$ 15 milhões para pavimentar a estrada, com uma emenda do orçamento secreto direcionada por Altineu. O valor foi destinado à prefeitura de São Gonçalo, que contratou um consórcio formado pela empresa Infratech Engenharia para tocar as obras. Como mostrou O GLOBO em fevereiro, a FP Vieira e a Infratech já foram contratadas para outras obras no município com emendas destinadas por Altineu.
“É sempre bom a gente colocar os recursos e efetivar os pagamentos. (...) As coisas estão andando e muita coisa boa está por vir”, disse Altineu no início de 2023, nas redes sociais, quando a última parcela dessa obra foi liberada.
A família do deputado também é dona de uma propriedade rural, a Fazenda Santa Edwiges, que fica a cerca de dez minutos da pedreira de mesmo nome. Em 2024, a fazenda sediou um evento com o ex-presidente Jair Bolsonaro e dezenas de parlamentares do PL e de partidos aliados. Um trecho de cerca de 500 metros da Estrada de São Tomé, na altura do acesso à fazenda, recebeu obras de pavimentação no ano passado.
Os recursos , desta vez, não vieram de emendas de Altineu. A verba partiu da Secretaria estadual de Cidades, comandada à época por Douglas Ruas, dentro de um mutirão de asfaltamento em dezenas de vias no bairro Santa Izabel. A empresa contratada para esta obra também foi a FP Vieira Engenharia.
Em nota, Ruas disse que as obras no entorno da fazenda Santa Edwiges “foram definidas com base em critérios técnicos de engenharia, considerando as demandas locais” e a necessidade de atender diferentes vias da região.
Já Altineu afirmou que a pavimentação da Estrada de Ipiíba “era um sonho antigo da região”, e que não beneficia apenas a pedreira de sua família.
— É uma via importante que contempla milhares de pessoas, e onde há mais de uma pedreira —afirmou.
