Pedido de autógrafos, isolamento e ar de superioridade: os detalhes da chegada de Deolane a penitenciária em SP
A chegada da advogada Deolane Bezerra, de 38 anos, à Penitenciária Feminina de Tupi Paulista provocou alvoroço entre as detentas da unidade prisional na manhã desta sexta-feira. Segundo apurou a coluna, várias presas tentaram se aproximar da influenciadora para pedir autógrafos e conversar com ela. O contato, no entanto, foi impedido pela direção do presídio porque Deolane foi encaminhada imediatamente para a chamada cela de inclusão, setor destinado à adaptação de novas internas.
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Nesse espaço, considerado uma espécie de período inicial de triagem, as presas permanecem isoladas da convivência coletiva até que a administração penitenciária avalie questões de segurança, comportamento e adaptação à rotina carcerária. As presas chamam a cela de inclusão de “pote”. O período nele pode variar entre dez e 30 dias, dependendo das condições da unidade e da avaliação interna da direção. Durante essa fase, Deolane não poderá receber visitas de familiares, apenas de advogados.
Após deixar o “pote”, a influenciadora será incorporada à rotina normal da penitenciária e passará a conviver diretamente com as demais detentas. Ela deverá ficar em uma cela coletiva dividida com outras quatro a seis mulheres, a maioria condenada por tráfico de drogas. Também terá direito a duas horas diárias de banho de sol, período em que poderá circular pela unidade e manter contato com outras internas. Visitas, só no fim de semana.
Em Tupi Paulista, ainda de acordo com fontes da penitenciária, Deolane foi recebida com simpatia por parte da população carcerária. Entre as detentas, prevalece a percepção de que ela teria sido “levada para o crime por homens”, narrativa comum entre mulheres presas por envolvimento indireto com organizações criminosas ou parceiros investigados. Algumas internas chegaram a comentar que admiravam a influenciadora antes mesmo da prisão.
Segundo os relatos obtidos pela coluna, Deolane também deverá receber proteção informal das presas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) dentro da unidade. No sistema penitenciário paulista, mulheres apontadas como integrantes ou associadas à facção costumam ser acolhidas e protegidas pelas próprias detentas vinculadas ao grupo criminoso, o que reduz significativamente riscos de hostilidade ou conflitos internos.
Ao entrar na unidade, Deolane passou pelos protocolos padrões de inclusão. Os objetos pessoais foram recolhidos, catalogados e armazenados em sacos plásticos identificados no setor de guarda de pertences. Em seguida, ela recebeu o uniforme obrigatório da penitenciária composto por calça cáqui e camiseta branca, utilizado pelas demais detentas da unidade.
Funcionários de Tupi ouvidos pela coluna afirmaram que Deolane não demonstrava abatimento emocional. Diferentemente de outras presas recém-chegadas, ela não chorou nem aparentava desespero. Pelo contrário: segundo os relatos, manteve postura segura durante todo o procedimento de inclusão e chegou a demonstrar empatia em algumas conversas com internas e servidoras.
A relação com as funcionárias da penitenciária, porém, teria sido marcada por certa postura de superioridade. Foi descrito à coluna que Deolane tratou agentes penitenciárias e servidoras com arrogância discreta, embora sem episódios de grosseria ou descontrole. Em alguns momentos, ainda segundo os relatos, teria adotado comportamento semelhante ao de uma celebridade acostumada à exposição pública.
A Penitenciária Feminina de Tupi Paulista é a única unidade feminina da Coordenadoria de Execução Penal da Região Oeste do Estado de São Paulo. Inaugurada em 2011, ela opera com regimes fechado, semiaberto e provisório.
Apesar da estrutura voltada ao público feminino, a unidade enfrenta problemas crônicos de superlotação. Dados oficiais da Secretaria da Administração Penitenciária mostram que o presídio possui capacidade para 714 detentas, mas atualmente abriga 873 mulheres. O excedente representa uma superlotação de aproximadamente 22,2% acima do limite previsto. O Anexo de Progressão Penitenciária também opera acima da capacidade.
Operação Vérnix
Deolane foi presa durante a Operação Vérnix, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil para investigar um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. Segundo as investigações, uma transportadora sediada no interior paulista ligada à influenciadora teria sido usada como empresa de fachada para movimentar recursos da facção criminosa.
A investigação aponta que Deolane, que acumula mais de 21 milhões de seguidores no Instagram, ocuparia posição estratégica no chamado “núcleo financeiro” do esquema. A polícia sustenta que empresas ligadas à influenciadora teriam sido utilizadas para dar aparência de legalidade a recursos oriundos do PCC. Os investigadores afirmam ter identificado depósitos fracionados considerados suspeitos, além de movimentações financeiras incompatíveis com os serviços declarados oficialmente. A defesa da advogada nega qualquer envolvimento dela com atividades ilícitas.
Segundo o inquérito, a relação de Deolane com integrantes da facção ia além de contatos indiretos. A investigação afirma que a influenciadora mantinha vínculo estreito com Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado pelas autoridades como líder máximo do PCC. De acordo com a Polícia Civil, Deolane e Paloma chegaram a morar próximas no mesmo bairro, em São Paulo.
Os investigadores afirmam ainda que os papéis das duas eram complementares dentro da engrenagem financeira investigada. Enquanto Paloma seria responsável por transmitir ordens da cúpula da facção e intermediar a divisão de recursos, Deolane emprestaria sua estrutura empresarial e sua “aparente respeitabilidade social” para integrar o dinheiro ilícito ao mercado formal.
Nas redes sociais, a influenciadora costumava ostentar uma rotina marcada por artigos de luxo, carros importados, bolsas de grife, imóveis milionários e até um jatinho particular adquirido no fim de 2025. Entre os bens apreendidos pela Polícia Civil durante a operação, o que mais chamou atenção foi um Cadillac Escalade avaliado em mais de R$ 2 milhões. O SUV, que não é vendido oficialmente no Brasil e precisa ser importado dos Estados Unidos, era tratado pela própria influenciadora como símbolo de poder e ostentação. Em vídeos publicados no Instagram antes da prisão, ela descreveu o modelo como um “carro de gangster” e disse ter se apaixonado pelo veículo após alugá-lo durante uma viagem internacional.
O automóvel integra uma coleção de carros de luxo que inclui ainda modelos da Mercedes-AMG, Range Rover e Jeep Limited. Além dos veículos, Deolane também exibia bolsas de marcas como Hermès, Chanel, Louis Vuitton e Prada, além de afirmar ser proprietária de mais de 12 imóveis no Brasil e no exterior.
