'PCC, o salve geral': equipamento 'queimado' da PM impediu apuração sobre mortes após ataques de 2026, mostra podcast
Os atentados do Primeiro Comando da Capital (PCC) que pararam São Paulo em maio de 2006 desencadearam uma violenta reação com participação de policiais: nos dias seguintes, enquanto os ataques da facção perdiam força, o número de vítimas civis chegou a 505. O Ministério Público (MP-SP) pediu judicialmente para verificar todos os acesso feitos ao Centro de Operações da Polícia Militar de São Paulo (Copom) naquele período. A intenção era apurar se agentes pesquisaram informações sobre as vítimas antes da matança, o que poderia indicar que a polícia escolheu alvos com base em antecedentes criminais.
Ouça o podcast: PCC, O Salve geral está disponível no spotify
PCC, O Salve Geral: O GLOBO e CBN lançam podcast sobre atentados de maio de 2006
O pedido não foi atendido devido a um suposto defeito no equipamento do Copom, segundo o procurador de Justiça Márcio Sérgio Christino, então promotor do Grupo de Atuação Especial de Controle Externo da Atividade Policial (Gecep, atual Gaesp), do MP-SP. De acordo com a Promotoria, a PM informou na época que o computador do Copom teria "queimado" e as informações teriam sido perdidas.
— Pegamos o mandado, fomos lá buscar os dados e o que aconteceu? O computador do Copom pifou. Todos os dados foram perdidos. E não tinha nenhum backup disso. Aí pedimos para o fabricante ir lá olhar. E o cara que fabricou o sistema falou assim: ‘ah, queimou, não tem como saber’. Eu falei: ‘mas queimou como?’. ‘Eles não colocaram a tomada não sei onde’ — afirmou Christino.
O episódio está detalhado no podcast PCC: O Salve Geral, uma produção do jornal O GLOBO com a rádio CBN, lançado na quinta-feira (7). Ao longo de dez meses, a reportagem procurou mais de 50 fontes, realizou mais de 20 entrevistas e acessou mais de 15 mil páginas de documentos para reconstituir aqueles dias de horror em São Paulo. E para compreender como uma facção nascida em presídios para reivindicar direitos básicos, como colchão e papel higiênico, tornou-se um grupo criminoso transnacional. O resultado será publicado em cinco episódios, sempre às quintas-feiras, nos sites dos dois veículos e nos principais tocadores. Os dois primeiros já estão disponíveis.
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Em resposta ao plano de transferir líderes para uma prisão mais rigorosa, o PCC desencadeou uma série de ataques a ônibus e prédios públicos, impôs um toque de recolher velado à população, matou integrantes das forças de segurança e aterrorizou o estado de São Paulo. No dia 15 de maio de 2006, a maior metrópole da América Latina silenciou. O revide da polícia, nos dias seguintes, ocorreu em um crescente. A guerra deixou o total de 564 mortos — 59 agentes públicos e 505 civis.
A suspeita de que civis, muitos deles inocentes, estavam sendo assassinados em uma retaliação da polícia cresceu com a escalada de mortes. A PM alegou, na época, que as mortes eram decorrentes de confrontos policiais. Segundo Christino, ao pedir os acessos ao Copom, o Ministério Público queria entender se a PM estava checando as informações de suspeitos antes de executá-los. Caso isso ficasse comprovado, cairia o argumento do confronto policial. Em maio de 2006, o governador de São Paulo era Cláudio Lembo, sucessor de Geraldo Alckmin, que havia saído do governo para concorrer às eleições presidenciais.
Execuções sumárias
Anos após a tragédia, um estudo do Laboratório de Análise da Violência (LAV), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, analisou as mortes e contestou a versão do confronto policial. Ao cruzar dados do sistema de saúde (Datasus) com boletins de ocorrência e laudos necroscópicos, a pesquisa revelou que o número de mortos por arma de fogo naquele maio foi entre três e quatro vezes superior ao esperado para o período.
— Parte dessas mortes não aconteceram na tentativa da polícia de se defender dos ataques, o que seria obviamente necessário. Mas em um momento posterior, em que os ataques contra policiais já eram menores — afirma o sociólogo Ignácio Cano, professor da UERJ.
A análise das vítimas ajudou a desconstruir a imagem de que o Estado enfrentava um exército de criminosos. O estudo concluiu que apenas 6% das vítimas fatais tinham antecedentes criminais. O perfil dos civis mortos em maio de 2006, segundo o estudo, era o mesmo da vítima predominante de homicídio no Brasil: homens (96%), jovens (80% com menos de 36 anos) e de baixa renda.
O indício mais contundente de execução sumária veio da análise detalhada dos laudos de necropsia. A pesquisa descobriu que a polícia disparou uma média de quase cinco tiros por vítima, um número excessivamente alto para situações de combate real. Além disso, 60% das vítimas foram atingidas na cabeça, sendo que 27% receberam disparos na região posterior do crânio (nuca), o que sugere que estavam indefesas ou rendidas.
— A presença de disparos a queima-roupa, com queimaduras, esfumaçamento, tatuagem, esses são os indicadores mais claros de que houve execução nesse cenário. Há alguns casos excepcionais, mas quando a polícia entra em confronto, normalmente não entra em confronto a curta distância, até para se proteger — disse Cano.
