'PCC, o Salve Geral': do áudio vazado às 564 mortes, podcast do GLOBO e da CBN destrincha ataques de 2006 e avanço da facção
A maior crise da História do Brasil na área da segurança pública teve como estopim uma transação financeira realizada dentro da Câmara dos Deputados, na capital federal. Naquele ano de 2006, por apenas R$ 200, um técnico de som vendeu a advogados do Primeiro Comando da Capital (PCC) o áudio de uma sessão secreta da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Tráfico de Armas. O gesto acabou por revelar o plano do governo de São Paulo de transferir integrantes da facção para um presídio de segurança máxima no interior do estado.
PCC, O Salve Geral: O GLOBO e CBN lançam podcast sobre atentados de maio de 2006
Em resposta à intenção de levar a cúpula da facção para um regime mais rigoroso, o PCC desencadeou uma série de ataques a ônibus e prédios públicos, impôs um toque de recolher velado à população, matou membros das forças de segurança e aterrorizou o estado de São Paulo por uma semana. Em 15 de maio de 2006, a maior metrópole da América Latina silenciou. O revide da polícia, nos dias seguintes, ocorreu em um crescente. A guerra deixou o total de 564 mortos — 59 agentes públicos e 505 civis.
Os bastidores dos atentados de maio de 2006 e a expansão da facção ao longo das últimas duas últimas décadas norteiam o podcast “PCC: o Salve Geral”, fruto de uma parceria do GLOBO com a rádio CBN. Por dez meses, a reportagem procurou mais de 50 fontes, realizou dezenas de entrevistas e acessou mais de 15 mil páginas de documentos para reconstituir aqueles dias de horror em São Paulo. Além disso, a produção destrincha como uma organização nascida em presídios para reivindicar direitos básicos, como colchão e papel higiênico, tornou-se uma quadrilha transnacional, com cerca de 40 mil homens em suas fileiras, espalhados por 28 países e responsáveis por um faturamento anual de R$ 12 bilhões.
A série contará com cinco episódios, publicados às quintas-feiras nos sites dos dois veículos e nos principais tocadores. O ponto de partida é justamente a negociação costurada nos corredores do Congresso.
— Realmente vazou. Dois delegados estiveram na CPI das Armas e pediram para falar em uma audiência reservada. Desculpe a observação: como se tivesse alguma coisa reservada no Congresso ou na Câmara. Pedir para guardar sigilo para político é algo bastante delicado — lembra o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco) do Ministério Público paulista, apontado como o principal investigador do PCC no país e jurado de morte em diferentes ocasiões pela quadrilha.
‘Tranca-dura’
As investigações concluíram que a venda das informações da CPI contribuiu para a antecipação dos atentados. Em 2006, ano de eleição presidencial, o PCC planejava realizar ataques às vésperas do pleito para desgastar a candidatura de Geraldo Alckmin, governador do estado que se afastaria para concorrer ao Planalto. Então no PSDB, Alckmin tinha sido o responsável anos antes pela criação do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), a chamada “tranca-dura” do sistema prisional.
A comercialização ilegal do áudio foi apenas o estopim da crise. O técnico de som Arthur Vinicius Silva, em depoimento à própria CPI, admitiu ter cedido dois CDs com a gravação da sessão aos advogados Maria Cristina de Souza Rachado e Sérgio Wesley da Cunha, que se apresentaram como defensores dos chefes da facção. Na época, a deputados do colegiado, ambos negaram participação na transação.
Nos áudios, os delegados Godofredo Bittencourt e Ruy Ferraz Fontes, então do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), citavam abertamente o plano de transferir para presídios de segurança máxima os principais líderes da quadrilha, diante da possibilidade de uma megarrebelião. A informação foi repassada à cúpula do PCC pelos advogados no dia seguinte, por celular.
Naquele momento, chefes da facção encarcerados em cadeias estaduais vinham travando um cabo de guerra com a Secretaria estadual da Administração Penitenciária (SAP). A média de rebeliões, de 2001 a 2005, era de cerca de dez ao ano. Em 2006, a pasta já havia contabilizado 40 motins só de janeiro a abril, numa escalada que alarmou as autoridades.
— Eles escalaram o conflito com a secretaria. Foram dando um passo à frente para ver se conseguiam regalias. Ia ter Copa do Mundo, então pediram a compra de televisores, que depois eles próprios adquiriram e mandaram entregar. Estavam testando o poder que possuíam no presídio — narrou Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo, na última entrevista antes de ser brutalmente assassinado pelo PCC, em 15 de setembro de 2025.
O governo paulista havia permitido que faccionados recebessem, em dois lotes, 26 televisores de 14 polegadas nas celas na Penitenciária de Avaré, a 262 quilômetros da capital. Não era proibido ter TV em presídios, mas nenhum dos aparelhos contava com nota fiscal que comprovasse a origem e todos foram enviados por um só remetente, via Correios, em um momento no qual a facção já faturava alto com o tráfico de drogas.
A SAP planejava ainda trocar a cor dos uniformes de bege para amarelo, mais fácil de enxergar no caso de uma possível fuga. Os detentos reclamaram, porque o estado só fornecia um traje por pessoa, e ficava sob responsabilidade da família comprar mais ou confeccionar outras peças. Os presos argumentaram que era difícil encontrar tecido amarelo, e o governo, mais uma vez, cedeu.
Diante da escalada de conflitos e da informação vazada na CPI, o PCC decidiu acelerar os planos e colocar os atentados nas ruas já em maio. Para tentar conter a ofensiva, o governo de São Paulo decidiu transferir, de uma só vez, 765 integrantes do grupo para o presídio de Presidente Venceslau, mais rigoroso.
Disputa interna
No mesmo dia em que a CPI do Tráfico de Armas ocorria em Brasília, o então secretário da Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, reunia-se com o governador Cláudio Lembo para acertar os detalhes sobre a transferência. Lembo havia assumido o cargo assim que Alckmin pediu afastamento para concorrer à presidência.
Na reunião, estavam presentes integrantes da SAP, da Secretaria de Segurança Pública e das polícias Civil e Militar. Mas uma ausência, em especial, foi sentida: a do chefe da SSP na época, o secretário Saulo de Castro Abreu, que apenas enviou um subordinado.
Os dois secretários tinham perfis completamente opostos: Furukawa era considerado um juiz humanista, enquanto Saulo havia sido um promotor mais de linha dura. As diferenças acabaram por afastar um do outro. Para o promotor Gakiya, essa tensão atrapalhou a condução da maior crise já vivida no estado:
— Não tenho dúvida alguma disso. Não é crível que você vá acompanhar uma organização que é de origem prisional e que tem a sua força no sistema prisional, como é o PCC, se você não tiver o apoio da inteligência da SAP.
* Da CBN.
