PCC: novo organograma o ajuda a ‘lidar com a complexidade do ambiente criminal’, diz especialista
A Polícia Civil de São Paulo elaborou um novo organograma do Primeiro Comando da Capital (PCC). O novo desenho da estrutura da facção aponta a existência de setores inéditos, como núcleo de associados, "compliance", redes sociais e outro responsável pelos jurados de morte.
De acordo com o documento, os cem integrantes da organização criminosa estão distribuídos entre 16 departamentos. Do total, 89 dos membros batizados têm poder de voto.
Em entrevista ao CBN São Paulo, Rafael Alcadipani, professor da FGV e especialista em segurança pública, explica que, assim como demais setores da sociedade, o crime também tende a se atualizar.
“O Primeiro Comando da Capital está assumindo cada vez mais a ideia de uma grande empresa de crime. Digo que o PCC é uma empresa logística do crime porque seu principal negócio é pegar a cocaína dos países andinos e levar à Europa. Ele vai se atualizando e criando estruturas para poder lidar com a complexidade que o ambiente criminal coloca”, diz.
Para Alcadipani, o que mais assusta nesta nova organização do grupo é ao compará-la a do próprio Estado.
“Estamos assistindo à disputa entre Polícia Federal e Receita Federal, uma disputa de atribuição. Cada estado tem duas polícias, que têm dificuldade de diálogo. O próprio setor produtivo está sendo contaminado pelo crime organizado. E, assim, vemos poucas políticas efetivas no enfrentamento, dada a complexidade que o crime está assumindo”, completa.
Facção nas redes sociais
Entre os novos setores, um é voltado para a atuação nas redes sociais e na internet. O departamento coordena a comunicação da facção, padroniza a linguagem ideológica, monitora publicações e dá suporte técnico, proporcionando aos integrantes a troca de mensagens por aplicativos “seguros”.
De acordo com a investigação, este setor é comandado por dois homens que estão presos.
“Nos grupos de WhatsApp há muita articulação de crimes. Há também recrutamento pelas mídias sociais. As redes e a tecnologia facilitaram muito a vida do crime. Por outro lado, é inimaginável pensar que o sujeito dá ordens para uma mídia social de dentro da cadeia… Mostra como o Estado está com dificuldade ao lidar com isso e não consegue garantir o básico”, diz Alcadipani.
Outra novidade do organograma redesenhado pela Polícia Civil de São Paulo é a identificação de integrantes que não fazem parte oficialmente da facção — ou seja, não são “batizados”.
Essa falta de identificação dificulta, portanto, a investigação e a responsabilização de tais pessoas.
“Existe um arcabouço de pessoas e negócios que sustentam o crime organizado sem que as pessoas sejam ‘batizadas’. Isso mostra que o crime está imerso dentro do tecido social”, afirmou o professor.
