Paulo Gustavo é homenageado em 'Meu filho é um musical', com Dona Déa e grande elenco: 'sonho dele que estamos realizando'
Há vinte anos, Déa Lúcia Amaral via o filho, o ator Paulo Gustavo (1978-2021), estrear o monólogo inspirado nela que o alçaria ao sucesso e a transformaria, por tabela, em celebridade. “Minha mãe é uma peça” foi tão bem-sucedido que rendeu três filmes com bilheteria recorde e inseriu a personagem Dona Hermínia na memória coletiva brasileira. Cinco anos após a morte do ator, é a vez de Déa celebrá-lo com “Meu filho é um musical”, que conta a história do artista e estreia quinta (28) no Teatro Multiplan, na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
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— Ele sempre quis fazer um musical. A gente ficou um ano viajando pelo Brasil com “O filho da mãe” [show estrelado por Déa e Paulo em 2019], e ele falou: “mãe, agora vou fazer um musical para você cantar mais”. Mas veio a pandemia e aconteceu tudo isso. Então resolvi homenageá-lo com um musical contando a história daquele menino que sempre sonhou em ser artista — relembra Déa, que não esconde a emoção. — Subi no palco a vida toda, mas dessa vez tremo, sinto frio na barriga. O coração só está batendo por teimosia. Tem hora que ele bate na boca e volta. Não é fácil, mas está muito bonito o espetáculo. É um sonho dele que estamos realizando.
Hoje com 78 anos, ela fez shows em bares e festas para ajudar a pagar as contas da família por muitos anos, memória que Paulo resgatou na sua última peça. Idealizada por Déa, a abertura do musical parte justamente desse momento, com Paulo procurando os cadernos antigos da mãe, e ela própria no palco cantando “Fascinação”, sucesso na voz de Elis Regina (em algumas sessões, a cena é com Stella Maria Rodrigues, que participou de “Minha mãe é uma peça 3” e foi convidada por Déa para interpretá-la na peça).
Stella Maria Rodrigues como Dona Déa e João Pedro Chaseliov (que se reveza com Pierre Baitelli), em cena de "Meu filho é um musical"
Guito Moreto/Agência O Globo
— Paulo Gustavo mudou nossas vidas. Vejo minha mãe voltando à cena, na TV e agora no teatro, eu estreando na direção e nós três nos reencontrando no palco. Eu e mamãe nos perguntamos se esta é uma homenagem que prestamos a ele ou se é mais uma que eles nos presta — diz Ju Amaral, irmã do ator, que dirige o espetáculo com João Fonseca.
Escrito por Fil Braz (parceiro do ator na trilogia “Minha é uma peça” e em projetos como o programa “220 volts”, do Multishow) com colaboração de Beatriz Coelho (amiga e assessora do artista, que fez uma pesquisa acadêmica sobre ele), o espetáculo narra a trajetória de Paulo Gustavo desde a infância.
— Desde o início ficou claro que não queríamos fazer um pot-pourri dos trabalhos dele. Suas obras continuam vivas entre nós. O que interessava era mostrar o que existia por trás do artista— explica Beatriz.
No roteiro, Fil nomeou os dois atos como “O nascimento de um ator” e “O nascimento de uma estrela”. Em ambos, o núcleo familiar é o principal.
— Mostramos como essa família disfuncional, com muito amor envolvido, se uniu para ele acontecer como artista — diz o autor.
Se Dona Hermínia é uma personagem de temperamento forte, a equipe garante que Dona Déa, tanto a da vida real como a da ficção, vai além — e tem bem menos papas da língua. Ela não nega o rótulo de geniosa, mas se orgulha de dizer que, do seu jeito, nunca deixou de dar suporte ao filho.
— Mesmo às vezes zangando para colocá-lo no eixo, apoiei os desejos dele, e foi isso que fez meu filho ser o que foi — opina. — Quantos rapazes e moças têm sonhos e a família trava? Eu nunca travei. Quando ele tinha 13, 14 anos, vi que ele era gay, e nunca recriminei, nunca botei numa caixinha. Acho que esse musical também vai inspirar aquelas mães que consideram seus filhos "diferentes" a acreditar no potencial deles.
Vários Paulos Gustavos
No espetáculo, Stella Maria Rodrigues é Dona Déa, seguindo um sonho do próprio Paulo, que queria ver a atriz deveria viver Dona Hermínia um dia. João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli se revezam, em diferentes sessões, para interpretar o humorista na juventude e na idade adulta. Na infância, o papel é alternado entre Miguel Venerabile, Guilherme Baleixo e Gabriel Gentil. Completam o núcleo central Castorine (como Juju, a irmã), Marcelo Varzea (como Júlio, o pai) e Talita Castro (no papel da madrasta).
Talita Castro, Marcelo Varzea, Stella Maria Rodrigues, Castorine e João Pedro Chaseliov como a família de Paulo Gustavo
Leo Aversa
A opção por ter mais de um ator no mesmo papel seguiu um comportamento característico de Paulo.
— Ele sempre teve um olhar atento para novos artistas. Conforme ia conquistando novos espaços, puxava outras pessoas consigo. Nas audições, dois atores nos emocionaram muito: o João Pedro, de 21 anos, e o Pierre, ator experiente com vários trabalhos no currículo. Quem ganha é o público, que poderá assistir a duas peças, uma com João Pedro e outra com Pierre — explica Ju.
Diante do desafio de interpretar uma persona tão autêntica e conhecida do público, Pierre diz que nem ele, nem João Pedro pretendem imitar o humorista.
— Nossa intenção é resgatar a essência, a energia, esse fogo no cu que ele tinha — conta.
João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli caracterizados como Paulo Gustavo
Guito Moreto/Agência O Globo
A grande família
Pilastras em estilo grego que fazem referências sutis a trabalhos do ator e um paredão “de mármore” com três portais são o ponto de partida do cenário de Nello Marrese. Quando projetores fazem surgir no palco a silhueta de Paulo Gustavo, um elenco de mais de 20 atores entra em cena com figurinos que também remetem à Grécia.
— Ele está no panteão dos grandes, com Dioníso e outros deuses do teatro — opina Stella Maria.
Dos portais, surgem 25 pequenos ambientes. A imersão começa pelo quarto da adolescência, em que o artista ouvia no volume máximo — sob reclamações aos berros de Dona Déa — canções como “Veneno da lata”, de Fernanda Abreu.
Da venda de quentinhas que a mãe preparava, passando pela entrada na Casa das Artes de Laranjeiras, onde conheceu colegas como Fábio Porchat (Thiago Voltolini) e Marcus Majella (Gaspar), até o sucesso, o público descobre episódios que marcaram sua trajetória.
Número musical de "Meu filho é um musical", com João Pedro Chaseliov como Paulo Gustavo, ao centro
Guito Moreto/Agência O Globo
— O primeiro estalo artístico foi quando ele assistiu a “O Gato de Botas” na infância. Ele dizia: “naquele momento, quando vi a peça, pensei: quero estar no palco, quero estar sob essas luzes, quero receber esses aplausos” — conta Beatriz.
Também aparecem, pinceladas, personagens icônicas do ator. Além da incontornável Dona Hermínia, entram na narrativa figuras como a Senhora dos Absurdos e a Mulher Feia, ambas do programa “220 volts”.
Mas o foco mesmo é a família. Para além da relação mãe e filho, a peça explora como cada parente, sejam os de sangue, ou os de vida — como Fil e Beatriz, que cresceram com Paulo em Niterói —, participou da construção do ídolo.
— Eu me tornei roteirista por causa do Paulo Gustavo. Comecei a escrever com ele, por causa dele. Foi algo que ele enxergou — afirma Fil, que dava aulas de português quando o amigo começou a atuar. — Agora estou escrevendo a biografia dele.
Descrita pela equipe como uma explosão de emoção, a montagem é definida por Stella como uma síntese do fazer teatral.
— O teatro é representado por duas máscaras, a tragédia e a comédia. A gente tem as duas coisas na peça. Da dor de alguém que partiu tão jovem e de maneira tão absurda à alegria que ele representava. Ele está vivo aqui. Outro dia na coxia falei baixinho: “espero que isso chegue a você”. Ele deve estar se divertindo — diz.
Serviço
Onde: Teatro Multiplan, Village Mall, Barra.
Quando: qua a sex, às 20h; sáb e dom, às 16h e às 20h. Até 19 de julho. Estreia quinta (28).
Quanto: de R$ 180 (camarotes e frisas) a R$ 360 (plateia vip).
Classificação: livre.
