Paula Cohen fala sobre trajetória entre teatro, cinema e direção: 'Sou uma devota do ofício de atuar'
A atriz, diretora e produtora Paula Cohen vive um dos momentos mais potentes da carreira, conquistando o reconhecimento da crítica e do público com projetos que carregam seu olhar autoral e profundo. Em 2025, ela recebeu o Prêmio APCA de Melhor Atriz de Teatro por sua atuação em "Finlândia", peça que se tornou um marco em sua trajetória no teatro contemporâneo.
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Este é o segundo APCA conquistado em quatro anos — em 2021, Paula já havia sido premiada como Melhor Atriz de Televisão por sua performance como Lota Pindaíba em "Nos Tempos do Imperador", da TV Globo. Sobre a conquista mais recente, ela celebra:
"Uma honra imensa. É o reconhecimento de uma vida dedicada ao teatro, à investigação, à paixão pela arte. Mas é um prêmio coletivo também, todos os artistas envolvidos na peça são premiados comigo. Vale muito para mim."
Filha de pais uruguaios, Paula construiu uma identidade artística que transita naturalmente entre Brasil e exterior, explorando referências latino-americanas e internacionais. Para ela, a carreira nunca foi resultado de uma estratégia, mas sim de escolhas guiadas pela autenticidade e pela escuta atenta do mundo. Essa perspectiva se reflete tanto em suas atuações quanto nos projetos que produz e dirige.
"Acredito que houve um marco na minha história, por volta dos trinta anos, quando entendi que precisaria produzir meus projetos para ter autonomia artística sobre o que falar e fazer", conta ao GLOBO. "Antes disso eu fazia muita peça, muita mesmo, muito teatro com muita gente, o que foi maravilhoso para minha formação. Mas conciliar teatro, cinema e televisão se tornaria muito mais difícil. Já cheguei a estar em cartaz com três ou quatro peças ao mesmo tempo… Isso aconteceu só um dia, mas não me esquecerei jamais", recorda.
Paula Cohen
Divulgação Júlio Arakack
Em "Finlândia", texto do dramaturgo francês Pascal Rambert, Paula assume simultaneamente os papéis de atriz, produtora e criadora. A peça, que divide com o parceiro de vida e cena Jiddu Pinheiro, aborda relações afetivas, casamento, machismo e pactos silenciosos da vida a dois.
"É uma responsabilidade enorme. Tenho pessoas especializadas que me ajudam, como a Erika Horn, que produziu 'Finlândia' comigo. Este é um projeto que idealizei com Jiddu; desde que casamos, buscávamos um texto que dialogasse com os tempos e trouxesse reflexão", explica. Ela detalha como a divisão de papéis durante os ensaios permitiu que pudesse se concentrar plenamente na atuação: "Jiddu sempre me dizia: 'Amor, agora deixa o cargo de produtora. É hora da atriz estar aqui, na íntegra, plena'."
Paula Cohen
Divulgação Júlio Arakack
A trajetória de Paula é marcada por uma forte identidade latino-americana, que influencia suas escolhas de personagens e projetos.
"Sou filha de uruguaios e isso define muito a minha subjetividade, cultural e artisticamente. Crio diálogo com a dramaturgia latino-americana, principalmente feminina", diz. Ela cita projetos como Las Orientales e Nosotras, que exploram vozes femininas históricas da região, e destaca o novo trabalho internacional em parceria com Marianella Morena e Carla Estefan, ainda em desenvolvimento.
Paula Cohen
Divulgação Júlio Arakack
Como diretora de "Mulheres em Chamas", Paula ressalta o poder do trabalho colaborativo entre mulheres.
"Foi incrível o nosso processo. Todas muito entregues e focadas. As mulheres assistem a peça em grupos, trazem amigas, gargalham e saem emocionadas. A menopausa ficou muito tempo na clandestinidade, e agora é como se fosse uma catarse. Queremos falar disso e nos vermos representadas", afirma.
Em projetos como "Democracia Like", Paula pesquisa trajetórias de mulheres que lutaram por direitos durante diferentes períodos históricos. "Este projeto vai questionar nosso lugar na política e nas leis, a importância de conhecermos as mulheres que nos antecederam e que lutaram para abrir caminhos", revela. "Muitas morreram por isso, como é o caso da personagem central, que pouco se conhece", observa.
Paula Cohen
Divulgação Júlio Arakack
Além do teatro, Paula integra o elenco da série "Habeas Corpus", da Netflix, e filmou recentemente o longa ítalo-brasileiro "Volver a Buenos Aires", dirigido por Marco Bechis. Sobre transitar entre diferentes linguagens, ela declara: "Adoro investigar, criar meios, me colocar em situação, ler sobre métodos, preparar corpo, voz e espírito. Abro o campo criativo com prazer para cada filme, novela ou peça da mesma maneira. Sou uma apaixonada, uma devota do ofício de atuar."
Com tantos projetos simultâneos, Paula mantém uma rotina que integra corpo, mente e espiritualidade. "Tenho disciplina e foco que vieram da dança, minha primeira linguagem artística. Cuidar do corpo, meditar, estar em conexão com o sagrado… O teatro me ensinou isso, é um portal místico que faz parte do meu autocuidado. Não somos mulheres maravilhas, embora às vezes acreditemos ser", conclui.
