Passarinhos nasceram antes do que imaginávamos? IA analisa pegadas de dinossauros e indica que aves podem ser 60 milhões de anos mais antigas

 

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Como caminharam os primeiros animais que deram origem às aves? Um novo aplicativo de inteligência artificial está ajudando a reabrir essa pergunta — e pode mudar o que a ciência sabe sobre a evolução da aviação. Desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Edimburgo, a ferramenta foi usada para analisar pegadas de dinossauros com mais de 200 milhões de anos e encontrou padrões surpreendentemente próximos aos observados em aves extintas e modernas.

Os resultados indicam que as aves podem ter surgido até 60 milhões de anos antes do que apontam as estimativas tradicionais. “Este estudo é uma contribuição empolgante para a paleontologia e uma forma objetiva e baseada em dados para classificar pegadas de dinossauros — algo que intrigou os especialistas por mais de um século”, afirmou o professor Steve Brusatte, um dos autores do trabalho. Segundo ele, a abordagem abre novas possibilidades para compreender como esses animais viviam, se moviam e quando grandes grupos evolutivos surgiram pela primeira vez.

Pegadas, algoritmos e menos viés humano

Interpretar pegadas fósseis sempre foi um desafio para a ciência. Até agora, os pesquisadores dependiam sobretudo de análises manuais, sujeitas a vieses e divergências. Para contornar esse problema, a equipe criou o DinoTracker, um aplicativo de IA treinado com quase 2.000 pegadas fósseis, além de milhões de variações digitais que simulam efeitos como compressão e desgaste ao longo do tempo.

Nos testes, o DinoTracker alcançou cerca de 90% de precisão na identificação das pegadas, inclusive em casos considerados controversos. Uma das descobertas mais intrigantes foi a semelhança recorrente entre marcas deixadas por certos dinossauros e aquelas produzidas por aves. Para os cientistas, isso pode indicar que as aves surgiram dezenas de milhões de anos antes do que se pensava — ou que alguns dinossauros desenvolveram pés muito semelhantes aos das aves por evolução convergente.

A ferramenta também foi aplicada a pegadas encontradas na Ilha de Skye, na Escócia, que há anos intrigam os especialistas. A análise sugere que elas podem ter sido deixadas há cerca de 170 milhões de anos por parentes muito antigos dos dinossauros bico-de-pato. “Essa rede de computadores pode ter identificado as aves mais antigas do mundo, o que considero um uso fantástico e frutífero da IA”, destacou Brusatte.

O pesquisador Gregor Hartmann, do Helmholtz-Zentrum e coautor do estudo, afirma que o método oferece uma forma imparcial de reconhecer variações nas pegadas e testar hipóteses sobre seus autores. Segundo ele, trata-se de uma ferramenta promissora não apenas para a pesquisa acadêmica, mas também para a educação e o trabalho de campo, ajudando a reconstruir com mais precisão a história dos movimentos que moldaram a vida na Terra.

Ao olhar para o futuro, os cientistas esperam que a combinação entre fósseis e inteligência artificial aprofunde a compreensão sobre como os dinossauros caminharam, evoluíram e, possivelmente, deram os primeiros passos rumo ao voo — muito antes do que a ciência imaginava.