Partilhar o riso
Tenho passado os últimos dias num pequeno hotel, numa área remota do interior de Portugal, no Alentejo, desenvolvendo um roteiro com o escritor moçambicano Mia Couto. Não é a primeira vez que trabalhamos juntos. Já escrevemos antes vários contos e peças de teatro. Nalguns casos tivemos sorte, foi um sucesso; noutros, um fracasso esplêndido. Sempre nos divertimos.
Muita gente nos pergunta como conseguimos escrever a quatro mãos. Creio que um dos segredos está precisamente em sermos capazes de rir dos próprios erros. É tão bom errar em conjunto — rir em conjunto — e depois trabalhar os erros até os transformarmos em alguma coisa parecida com uma boa solução. Escrever a quatro mãos implica também um exercício de humildade — aceitar que da dissolução do “eu”, pode nascer um nós maior do que as duas partes juntas. Finalmente, acredito que há uma forma de lucidez que só se manifesta no plural.
Neste caso estamos trabalhando no projeto de um filme de animação, com dois jovens diretores: a portuguesa Catarina Calvinho Gil e o paulista Renato Duque. Ou seja, estamos lidando com duas formas distintas de descrever o mundo, uma através de palavras, outra através de imagens.
Os desentendimentos têm sido a melhor parte. Refiro-me aos pequenos desvios, quando alguém escorrega numa frase que o outro disse. É nesses momentos que algo se solta. Uma palavra mal escutada abre uma imagem que não estava prevista; uma imagem obriga-nos a cortar a melhor frase. Rimos. E, nesse riso, a ideia muda de forma. Há momentos em que uma solução nos parece perfeita — redonda, elegante — e, por isso mesmo, suspeita. É então que alguém a desmonta, com uma objeção mínima, quase preguiçosa. Voltamos atrás. Desfazemos. Recomeçamos. O processo não é linear; é antes uma deriva. Avançamos por tentativas, como quem se adentra nas trilhas menos percorridas de uma mata. Às vezes perdemos uma manhã inteira. Às vezes, numa simples frase, recuperamos o dia.
No cinema de animação, a palavra tem de aprender a calar-se. Uma boa frase não garante um bom plano. Pelo contrário: pode atrapalhar. Há ideias que funcionam no papel e desfalecem no tela. Outras, muito simples, ganham vida quando alguém as desenha. Temos de aceitar essa traição e, mais do que isso, aprender a desejá-la.
Ao fim de algumas horas, já não sabemos quem disse o quê. A autoria dilui-se, o que nos liberta a todos. O texto deixa de ser um território a defender a todo o custo e passa a ser uma nação comum. É a tal lucidez plural a que me referi no início desta coluna: não uma luz individual, mas um foco partilhado, instável, que aparece e desaparece conforme nos aproximamos ou afastamos uns dos outros.
No fim do dia, temos poucas páginas, muitas notas e alguns desenhos. Mais importante, fica a sensação de que um sentimento raro se instalou entre nós, uma alegria serena; uma sensação de triunfo comum.
Escrever em conjunto é isto — errar com método, rir no momento certo e insistir até que o erro, por pura fadiga, termine se transformando em acerto.
