'Partido das Baratas': Como um meme político se tornou uma força da oposição ao governo na Índia

 

Fonte: Bandeira



Na semana passada, em meio a ácidos comentários sobre as qualificações acadêmicas de alguns advogados, o presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, afirmou que “parasitas da sociedade” estavam atacando a Justiça do país, e comparou os jovens desempregados do país a “baratas”. O magistrado disse que a imprensa (também atacada por ele) tirou sua fala de contexto, mas a fala serviu de estopim para um movimento digital, liderado pela Geração Z, e que já tira o sono do governo do premier Narendra Modi: o Partido Popular das Baratas (CJP).

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Segundo seu fundador, Abhijeet Dipke, um estudante de comunicação política estratégica na Universidade de Boston, tudo aconteceu por acaso. Dias depois da fala do juiz, ele perguntou na rede social X o que aconteceria “se todas as baratas se juntassem”. Diante da imensa repercussão digital, e da enxurrada de memes que se seguiu, Dipke resolveu continuar com o que, até aquele momento, era mais uma piada da internet.

—Foram os mais jovens que estavam realmente muito frustrados. Eles não tinham para onde ir. Estavam muito zangados com o governo — afirmou à agência Associated Press (AP), na semana passada.

No site do partido, que não é oficial, há um manifesto centrado em pautas caras à juventude indiana, como a pressão por maiores oportunidades de emprego — o desemprego entre menores de 25 anos está na casa dos dois dígitos — e salários dignos. Dipke acrescentou elementos de combate ao mau uso do dinheiro público, uma herança de seu emprego anterior em uma organização anticorrupção.

— Acredito que o Partido Popular das Baratas começou como uma sátira, mas gosto muito da direção que está tomando — disse Sristhi, uma estudante universitária, à rede CNN. — Os jovens precisam de uma plataforma onde possamos apresentar nossas reivindicações, porque a maioria dos partidos políticos, de alguma forma… ignora as questões que são realmente importantes.

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Grigory SYSOYEV / POOL / AFP

No ponto central da iniciativa estão os memes gerados por inteligência artificial das baratas em palanques, vestidas com roupas sociais e diante de multidões entusiasmadas. Até sexta-feira, a conta oficial do partido no Instagram tinha mais de 21 milhões de seguidores, mais do que qualquer outra sigla oficial na Índia.

— A Geração Z desistiu dos partidos políticos tradicionais e quer criar sua própria frente política em uma linguagem que eles entendam — disse Dipke ao serviço da BBC em marati, um dos mais comuns idiomas indianos. — Acho que a CJP é apenas o começo. Os jovens estão fartos do sistema político atual e mais organizações juvenis surgirão."

O nome, além do inseto, traz uma referência ao partido de Modi, o Partido Popular da Índia (BJP) — em suas versões originais, ambos levam a palavra “Janata”, que em hindi significa “do povo” ou “popular”. Desde a chegada da sigla ao poder, em 2014, seus críticos a acusam de promover uma agenda nacionalista pró-hindu, inflamando divisões religiosas, silenciando críticos e testando o tecido institucional da maior democracia do mundo. O país aparece na posição 157 (de 180) no ranking de liberdade de imprensa da ONG Repórteres Sem Fronteiras, e é classificado como “parcialmente livre” pela organização Freedom House.

— Precisamos entender que, há cinco anos, ninguém estava disposto a se manifestar contra Modi ou o governo. Os tempos estão mudando — afirmou Dipke à AP, se referindo ao premier que comanda a Índia desde 2014. — O governo não está reconhecendo suas preocupações.

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Mas a piada não causou risadas nos altos escalões em Nova Delhi. Na quinta-feira, a conta do CJP na rede social X foi bloqueada para os usuários na Índia, e uma porta-voz do BJP, Shazia Ilmi, afirmou à agência DW “esperar que eles não tenham apenas angústia para expressar, mas algo mais sério”. Ela diz entender que as palavras do juiz da Suprema Corte “ofenderam muita gente”, assim como “o sentimento daqueles que sentem que precisam se expressar".

Contudo, a representante questionou os laços passados de Dipke com o partido anticorrupção Aam Aadmi, um velho crítico de Modi, sugerindo que não se trata de uma agenda espontânea surgida das demandas dos jovens indianos. No começo da semana, o CJP lançou uma petição exigindo a demissão do ministro da Educação, devido ao cancelamento do exame nacional de médicos após denúncias de vazamento das provas.

— Agora que eles ganharam alguma repercussão, gostaria que o pedido fosse mais abrangente. Algo maior, mais positivo, com ações concretas para garantir que esses vazamentos não aconteçam — declarou Ilmi à DW. — Neste momento, parece ser uma manobra política contra o governo do BJP.

A grande dúvida é se o CJP permanecerá no campo das ideias e do ativismo digital ou se tomará rumos similares aos de outros movimentos recentes no sul da Ásia, liderados pela Geração Z. Em 2024, a chamada Revolução das Monções derrubou a presidente de Bangladesh, Sheikh Hasina, que comandava o país desde 2009, mas não conseguiu ganhos reais nas eleições de fevereiro. No ano passado, o banimento de redes sociais e a ostentação da elite política e econômica serviu de combustível para uma violenta onda de protestos no Nepal, que derrubaram o governo e elegeram seus representantes nas eleições de março. O atual premier, Balen Shah, é um ex-rapper de 36 anos, o mais jovem chefe de governo no mundo. As próximas eleições gerais na Índia acontecerão em 2029.