Parques nacionais dobram a visitação em dez anos em meio ao desafio de levar expansão a unidades mais remotas
Quedas d’água, trilhas, florestas, montanhas e outros cenários naturais de tirar o fôlego vêm ganhando cada vez mais preferência no turismo brasileiro. No ano passado, os parques nacionais do país registraram recorde histórico ao receberem, ao todo, 13,6 milhões de visitantes. Os dados do Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade (ICMBio), revelados com exclusividade pelo GLOBO, representam um contigente duas vezes maior do que o computado apenas uma década antes, em 2016, quando 7 milhões de pessoas estiveram nesses espaços. A comparação é ainda mais marcante se feita com 2006: naquele ano, o público dos parques ficou em 1,8 milhão.
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De acordo com o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), parques desse tipo são criados para preservar ecossistemas naturais de grande relevância e beleza cênica. O uso dos recursos locais é permitido apenas de modo indireto, como em pesquisa, educação ambiental, recreação e turismo sustentável.
Por trás do salto nos números, na avaliação de especialistas, está o crescimento do turismo verde, voltado à natureza, em especial depois da pandemia da Covid-19. Além disso, o maior investimento em infraestrutura, sobretudo nos parques nacionais de maior porte, também favorece a expansão da visitação. Nos espaços não tão badalados, porém, as instalações muitas vezes deixam a desejar.
O ranking é encabeçado pelo Parque Nacional da Tijuca, onde ficam o Cristo Redentor e outros cartões-postais do Rio de Janeiro, como a Pedra da Gávea. No ano passado, 4,9 milhões de pessoas passaram pelo local, ante 4,6 milhões em 2024. Em segundo lugar está o Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, que abriga as cataratas que dão nome à unidade, que recebeu 2,2 milhões de visitas em 2025. Já a terceira posição é do Parque Nacional de Jericoacoara, no Ceará.
‘Patrimônio público’
Presidente do ICMBio, Mauro Pires destaca o aumento constante no número de visitas ao longo das últimas duas décadas. A única exceção foi justamente o período entre 2020 e 2021, em meio ao isolamento social forçado pela disseminação do coronavírus. O fim da crise sanitária global retomou o ritmo de frequência nos parques, que, já em 2022, atingiu patamar superior ao pré-pandêmico, superando pela primeira vez, na ocasião, a marca dos 10 milhões de visitantes em apenas um ano.
— As pessoas no mundo todo têm procurado mais contato com a natureza. Acaba que a unidade de conservação, por ser patrimônio público, se torna um chamariz para diferentes perfis — diz Pires. — Temos, claro, as crianças e adolescentes, que vão com a escola, mas temos também aqueles que são montanhistas ou gostam de fazer trilhas. Nossas unidades fazem parte desses percursos e estão estruturadas para receber esses turistas.
O entendimento é corroborado pela Associação Brasileira das Operadoras de Turismo (Braztoa), que destacou na última edição do relatório “Olhar Braztoa” a busca por atividades e aventuras ao ar livre entre as principais tendências do setor para 2026. Outro foco é a preocupação ambiental e o interesse em viagens de “descompressão urbana”.
— Percebemos que esse movimento vem principalmente no pós-pandemia: uma busca incessante por um refúgio e um lugar aberto. Se intensificou e não foi passageiro — frisa Marina Figueiredo, presidente da associação.
Campeão de visitas, o Parque da Tijuca demanda elevados investimentos para manter a estrutura capaz de atender turistas. No momento, o ICMBio executa no espaço um ciclo de investimentos na casa dos R$ 75 milhões. Parte do montante foi direcionado a reformas no Corcovado, a principal atração dos 39,5 km², e estão previstos ainda gastos com a contratação de agentes ambientais temporários, melhorias em trechos asfaltados e a reforma do restaurante “A floresta”. O presidente do instituto define a ampliação das infraestruturas das unidades como condição para seguir atraindo mais visitantes:
— O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, próximo a Brasília, é uma área natural muito importante, mas que tinha dificuldades. Não tinha estacionamento ou um lugar para as pessoas poderem pernoitar. Tudo isso criava obstáculos. À medida que isso vai diminuindo, e temos feito um esforço nesse sentido, acaba que a pessoa encontra mais motivos para adentrar e participar do dia a dia de uma unidade de conservação.
Para Luiz Del Vigna, diretor-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta), a opção do governo federal por conceder à iniciativa privada a gestão da prestação de serviços, como ocorre parcialmente na Tijuca, contribui para uma melhor experiência. Apesar disso, pondera, os avanços ainda não são vistos de modo homogêneo no conjunto de parques:
— Temos estudos com os nossos parceiros que permitem afirmar que em 60% dos espaços foram identificadas carências. E começa em coisas simples, como portaria, centro de visitantes e banheiros — enumera Del Vigna, que lembra ainda a falta de serviços de alimentação em muitos locais. — O potencial do mercado é muito grande.
Mauro Pires admite o cenário desigual, principalmente no que diz respeito aos parques localizados em áreas mais distantes:
— Temos 78 parques nacionais no Brasil. Alguns deles mais remotos, por exemplo, na Amazônia. Trabalhamos para que no médio e longo prazo todos tenham a infraestrutura necessária para essa visitação.
‘Falta esse empurrão’
Del Vigna cita a própria Amazônia, além do Cerrado e da Caatinga, como biomas com amplo potencial para atrair mais turistas. Eles abrigam, respectivamente, parques como o do Viruá (RR), o das Emas (GO) e o do Catimbau (PE).
— O Viruá fica a uma hora e meia de Boa Vista, o acesso é fácil, e reúne características interessantes: tem uma das maiores biodiversidades do planeta e lembra muito o Pantanal, apesar de estar no Hemisfério Norte. A infraestrutura local até é razoável, mas falta esse empurrão — opina.
Em sintonia, Marina Figueiredo também avalia que o turismo nos parques nacionais acaba ficando concentrado em poucas unidades.
— Temos alguns produtos que são superconsolidados, as pessoas viajam por conta deles. Não são atrativos secundários, mas os grandes atratores — explica a presidente da Braztoa, citando como exemplo o Parque Nacional do Iguaçu. — Temos esses parques importantes e com uma estrutura incrível. Mas também temos um potencial enorme para outros, só que muitos não se conectam com o turismo ou não têm infraestrutura.
