Parlamentares dos EUA acusam Departamento de Justiça de redigir 'inadequadamente' arquivos de Epstein
Parlamentares dos Estados Unidos acusaram o Departamento de Justiça (DOJ, na sigla em inglês) de ter editado indevidamente informações em documentos relacionados ao financista Jeffrey Epstein, condenado por crimes sexuais. Segundo informações divulgadas pela BBC, os congressistas afirmam que os arquivos teriam sido censurados antes da divulgação, em desacordo com a legislação aprovada no ano passado para garantir transparência sobre o caso.
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Desde segunda-feira, membros do Congresso passaram a ter acesso às versões sem cortes de cerca de três milhões de páginas de documentos divulgados com base na Lei de Transparência dos Arquivos Epstein (EFTA, na sigla em inglês), em vigor desde dezembro. A norma determina a liberação dos registros, com preservação da identidade das vítimas.
O deputado democrata Ro Khanna, um dos autores da lei, afirmou que os documentos analisados ainda apresentam ocultações indevidas. Segundo ele, os cortes teriam sido feitos pelo FBI em março, antes de os arquivos serem enviados ao Departamento de Justiça.
A controvérsia ganhou força após advogados que representam vítimas de Epstein alertarem que um novo lote de documentos continha endereços de e-mail e imagens de nudez que poderiam permitir a identificação de sobreviventes. Em nota, as vítimas classificaram a divulgação como “ultrajante” e disseram que não deveriam ser expostas ou retraumatizadas.
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De acordo com a BBC, o Departamento de Justiça informou que retirou do ar os arquivos apontados e atribuiu os erros a “falhas técnicas ou humanas”. Após as críticas, o vice-procurador-geral Todd Blanche afirmou, na rede social X, que ao menos um documento teve as tarjas revertidas e que o órgão está “comprometido com a transparência”.
Khanna e o deputado republicano Thomas Massie, também coautor da EFTA, disseram que, ao analisar os documentos sem cortes, encontraram uma lista com cerca de 20 nomes em que apenas Jeffrey Epstein e sua associada condenada por tráfico sexual, Ghislaine Maxwell, apareciam sem censura. Segundo Massie, ao menos seis dos nomes ocultados poderiam pertencer a pessoas potencialmente implicadas nos crimes.
Após as reclamações, Blanche afirmou que o Departamento de Justiça retirou as tarjas de todos os nomes que não pertencem a vítimas em um dos documentos citados, mantendo apenas duas ocultações. Ele também negou que outros arquivos apontados pelos parlamentares escondam informações relevantes.
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Khanna, no entanto, afirmou que as medidas adotadas após a divulgação não atendem plenamente às exigências da lei, aprovada quase por unanimidade no Congresso e sancionada pelo presidente Donald Trump em novembro. Segundo o deputado, os documentos recebidos pelo DOJ já estavam censurados pelo FBI, o que violaria o texto legal.
“O FBI de Trump ‘limpou’ esses arquivos em março”, escreveu Khanna nas redes sociais.
Massie afirmou que o episódio indica falhas no manuseio dos arquivos pelo Departamento de Justiça. De acordo com ele, formulários do FBI chegaram ao órgão já com cortes, apesar de a lei determinar que as informações não protegidas sejam liberadas antes do envio.
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O debate também envolve o acesso dos parlamentares aos documentos. O deputado democrata Jamie Raskin criticou as condições impostas pelo DOJ, afirmando que os congressistas têm à disposição apenas quatro computadores, em um escritório separado, para consultar mais de três milhões de páginas sem cortes. Segundo ele, nesse ritmo, a análise completa levaria anos.
Quem aparece nos arquivos?
Segundo a BBC, entre os cortes apontados por Massie, estava um documento que aparenta mostrar uma troca de e-mails entre Epstein e uma pessoa não identificada, discutindo um “vídeo de tortura” e viagens entre a China e os Estados Unidos. O deputado republicano afirmou que a mensagem parecia ter sido enviada por um sultão e exigiu que a identidade oculta fosse revelada.
Blanche respondeu a Massie no X, dizendo que o trecho coberto se trata de um endereço de e-mail.
“A lei exige a ocultação de informações pessoais identificáveis, inclusive quando se trata de um endereço de e-mail. E você sabe que o nome do sultão aparece sem cortes em outros documentos”, afirmou.
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Massie também reclamou que o nome de um “CEO aposentado bastante conhecido” estava ausente da versão pública de um documento do FBI que lista possíveis cúmplices de Epstein.
Poucas horas depois, Blanche disse que esse nome já aparece em outras partes dos arquivos e também foi revelado, reafirmando que o “Departamento de Justiça não está escondendo nada”.
A deputada republicana Lauren Boebert, que também teve acesso aos arquivos, afirmou acreditar que há pessoas “claramente implicadas” nos documentos.
O Departamento de Justiça sustenta que está cumprindo a lei e nega qualquer tentativa de acobertamento. A discussão agora deve se concentrar na extensão das tarjas aplicadas e na interpretação do que pode ou não ser divulgado sem violar a proteção às vítimas.
