Paraty Dialogues quer Brasil como polo de debates sobre geopolítica, clima e governança global - QTU Questões do Universo

Paraty Dialogues quer Brasil como polo de debates sobre geopolítica, clima e governança global

Fonte: Bandeira da fonte

Em meio ao enfraquecimento do multilateralismo, à intensificação das disputas geopolíticas e ao avanço de desafios globais como a crise climática e a inteligência artificial, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) criou um novo fórum internacional para colocar o Brasil no centro desse debate.
Lançado nesta quarta-feira (19), o Paraty Dialogues nasce com a ambição de reunir anualmente lideranças globais para discutir os rumos da ordem internacional e, a médio prazo, influenciar políticas públicas e agendas multilaterais.
A primeira edição, realizada em caráter piloto entre sábado e terça-feira em Paraty (RJ), reuniu 32 especialistas de 14 países, entre diplomatas, ex-ministros, acadêmicos, representantes de organismos internacionais, da sociedade civil e do setor privado.
Ao longo de três dias de debates reservados, os participantes discutiram caminhos para fortalecer a cooperação internacional em torno de três eixos: transição geopolítica e cooperação internacional; ação climática e desenvolvimento sustentável; e governança global e renovação institucional.
A iniciativa, apoiada pela Open Society Foundations e com curadoria do embaixador Antonio Patriota, ex-ministro das Relações Exteriores, pretende preencher uma lacuna entre os grandes fóruns internacionais tradicionalmente concentrados na Europa e nos Estados Unidos, oferecendo uma perspectiva mais conectada ao Sul Global e à América Latina.
"Existem grandes encontros internacionais que discutem geopolítica, como a Conferência de Segurança de Munique, o Aspen Security Forum e o Fórum de Doha.
Mas há pouco olhar para o Brasil e para a América Latina.
Queremos oferecer uma perspectiva 'tropical', trazer essas pessoas para pensar o mundo a partir daqui", disse ao Valor a diretora-presidente do CEBRI, Julia Dias Leite.
Segundo ela, a proposta é criar um espaço permanente de diálogo capaz de reunir diferentes perspectivas sobre desafios comuns, em um ambiente de convivência que favoreça conversas aprofundadas.
A escolha de Paraty é parte da estratégia.
Segundo Dias Leite, a combinação entre patrimônio histórico, natureza e tradição em sediar festivais cria condições para um diálogo mais aberto e menos protocolar.
"Paraty nos acolheu muito bem.
É uma cidade com muita história, que já tem uma vocação para receber grandes encontros, como a Flip e outros festivais.
Queremos aproveitar esse ambiente para criar um espaço de reflexão de alto nível, em que as conversas aconteçam não só nas sessões formais, mas também durante um almoço, um passeio de barco ou no hotel.
É daí que vem o nome Paraty Dialogues".
Cooperação em tempos de fragmentação
Um dos principais consensos do encontro foi que a cooperação internacional continua sendo não apenas possível, mas indispensável, apesar do cenário internacional marcado por guerras, rivalidade entre grandes potências e crescimento do unilateralismo.

Os participantes defenderam a reconstrução da confiança entre os países, o fortalecimento das Nações Unidas e das instituições de Bretton Woods e a formação de coalizões entre governos, organizações internacionais e sociedade civil para responder ao enfraquecimento das normas do direito internacional.
Também foram debatidas propostas para destravar negociações multilaterais e acelerar a implementação de acordos já firmados, especialmente na agenda climática, além da necessidade de atualizar a governança global para responder a temas que extrapolam os atuais mandatos multilaterais, como a inteligência artificial e outras tecnologias emergentes.
Para Patriota, os três eixos do encontro acabaram convergindo para uma mesma preocupação: preservar um sistema internacional baseado em regras.
"Precisamos exercer nossa responsabilidade intergeracional, tanto na preservação do planeta quanto na entrega às futuras gerações de um mundo com menos conflitos.
Se você começa a ter guerras por toda parte, como proteger o meio ambiente?", afirmou.
Segundo o embaixador, houve consenso de que, apesar do desgaste vivido pelas instituições multilaterais, elas permanecem essenciais para enfrentar desafios globais que nenhum país consegue resolver isoladamente.
Patriota atribui parte do sucesso da edição inaugural do Paraty Dialogues ao perfil dos convidados.
"O primeiro aspecto que eu destacaria é justamente a qualidade dos participantes.
Tivemos representantes de todas as regiões do mundo, pessoas com enorme experiência acadêmica, diplomática e governamental", disse.
Entre os participantes estiveram quatro ex-ministros de Relações Exteriores, a Nobel da Paz Beatrice Fihn, a ex-chanceler argentina Susana Malcorra, especialistas ligados à Chatham House e ao International Crisis Group, além do presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, e da CEO da conferência, Ana Toni.
As discussões também abordaram temas específicos, como a sucessão do secretário-geral da ONU, com apoio à prioridade para candidaturas femininas da América Latina e do Caribe, e propostas de reforma da governança internacional.

Na avaliação dos organizadores, a realização do encontro no Brasil dialoga com o protagonismo recente do país na agenda internacional, após sediar a Cúpula do G20, em 2024, a reunião dos Brics, em 2025, e a COP30, em Belém no ano passado.
"O Brasil recebeu o mundo recentemente e mostrou capacidade de promover debates inclusivos e plurais", observa Patriota.
Julia Dias Leite afirma que a proposta é consolidar Paraty como um dos principais espaços latino-americanos para discussões sobre geopolítica, desenvolvimento e cooperação internacional.
"Espero que se torne o principal encontro geopolítico da América Latina, com esse charme tropical que Paraty oferece", diz a diretora presidente do CEBRI.

Embora tenha sido concebido como um projeto-piloto, o Paraty Dialogues pretende ir além da troca de ideias.
Ainda neste ano, será publicado um relatório consolidando as principais discussões da primeira edição.
A expectativa do CEBRI é que, nas próximas edições, o encontro passe a produzir uma Carta de Paraty, reunindo recomendações para governos e organismos internacionais.
Segundo Patriota, a rede formada pelos participantes deverá funcionar como multiplicadora das ideias debatidas.
"São pessoas muito influentes em seus países e instituições.
A expectativa é que levem essas discussões para seus próprios espaços de decisão", afirma.
Para Patriota, o principal legado pode estar justamente na articulação dessa comunidade internacional.
"Os participantes atuam em diferentes iniciativas sobre desenvolvimento sustentável, paz, direito internacional e cooperação.
O diálogo cria uma fertilização cruzada entre essas agendas e fortalece uma corrente internacional em favor da cooperação baseada na Carta das Nações Unidas", diz.
Apesar da primeira edição do encontro ter ocorrido em formato reservado, o CEBRI faz nesta quarta-feira (19) o lançamento público da iniciativa, em sua sede no Rio de Janeiro.
O evento, intitulado The International System at a Turning Point: Continuing the Conversation beyond the Paraty Dialogues, reunirá parte dos convidados internacionais para apresentar à sociedade os principais temas debatidos nos últimos três dias e discutir os desafios da ordem global em um painel aberto, com transmissão pela internet.

A intenção é manter o formato anual do Paraty Dialogues e, gradualmente, abrir parte da programação ao público, aproximando temas como geopolítica, clima e tecnologia da sociedade e consolidando Paraty como um novo polo internacional de reflexão sobre os rumos da ordem global.