O ueno bank, banco que foi à lona no Paraguai arrastando com ele um presidente da República, teve ascensão meteórica no país. Em menos de cinco anos, a fintech que queria ser o primeiro “unicórnio” paraguaio saiu de uma fatia insignificante de mercado para uma base de cerca de 3 milhões de clientes e participação de quase 9% no estoque de crédito.
A revolta nas ruas de Assunção é proporcional à presença que o ueno - cujo nome é uma corruptela de “bueno” - alcançou na vida dos paraguaios. Além de quase metade da população do país ter conta no banco, o ueno havia se tornado o maior emissor de cartões de crédito do mercado local e era também depositária de fundos previdenciários.
O banco foi liquidado na terça-feira. Analistas afirmam que a debacle não traz riscos sistêmicos para o setor bancário paraguaio, mas o caso chama atenção para possíveis vulnerabilidades na fiscalização.
O enredo também guarda algumas semelhanças com a crise do Master. O banco Master não tinha correntistas, mas foi o destino de investimentos de fundos previdenciários municipais e, assim como o ueno, tinha proximidade com altas autoridades.
A crise culminou ontem na renúncia do presidente do Paraguai, Santiago Peña - ele foi acionista da holding do ueno até março do ano passado. Na terça, Carlos Carvallo já havia renunciado à presidência do Banco Central do país (BCP).
Ele foi presidente do banco digital até agosto de 2023. O ueno teve origem em 2021, quando o Grupo Vázquez comprou a Financiera El Comercio e começou a transformá-la em uma operação digital.
Impulsionado por um ambiente macroeconômico favorável, levou serviços bancários a uma parcela significativa da população que antes não tinha acesso a eles, inclusive cartão de crédito. Executivos da instituição já disseram publicamente que se inspiraram em outras fintechs da região, como Nubank e o argentino Ualá.
À frente do negócio estava Miguel Vázquez, que dizia querer tornar o ueno o primeiro “unicórnio” (startup avaliada em US$ 1 bilhão) do Paraguai. Ele foi preso preventivamente nesta semana junto com outras sete pessoas.
Dados do BCP mostram que, em setembro, o sistema bancário tinha um total de 281,26 trilhões guaranis em ativos, sendo que o ueno possuía 26,39 trilhões de guaranis (cerca de US$ 4,3 bilhões), ou seja, 9,38%. Em depósitos, o banco tinha 17,02 trilhões de guaranis (US$ 2,8 bilhões), ou 9,06% do total.
O ueno era, assim, o sexto maior banco do Paraguai em ativos, atrás de Continental, Sudameris, Itaú, GNB e BNF. De acordo com as investigações, o ueno estaria concedendo empréstimos a empresas pertencentes aos seus próprios acionistas, além de enfrentar questionamentos sobre financiamentos cruzados.
O Ministério Público do Paraguai diz que o banco optou por forjar a venda de uma carteira que era composta por créditos que havia concedido para o Grupo Hendy, Grupo M e MOWI, e que aguardava o pagamento. A carteira somava US$ 74,4 milhões.
“A investigação centrou-se em operações financeiras realizadas entre 2025 e 2026, que comprometeram os ativos da entidade bancária por meio da concessão de empréstimos a empresas vinculadas, em condições que supostamente não se ajustavam aos parâmetros habituais de avaliação e administração do risco de crédito”, diz a promotoria.
Manifestantes foram às ruas protestar contra o bloqueio de seus recursos no ueno. Muitos tentaram, em vão, sacar dinheiro nas agências, que estão fechadas.
A Polícia Nacional entrou em alerta máximo de segurança e mobilizou agentes para unidades bancárias em todo o país. Há relatos de filas em outras instituições, mas não existem sinais concretos de uma corrida bancária.
O BCP tentou acalmar os ânimos alegando que a crise é isolada e reafirmou que depósitos de até 228 milhões de guaranis (US$ 37,4 mil) serão garantidos. O banco central tem 15 dias para devolver esses recursos.
O Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) - equivalente ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) no Brasil - garante parte dos depósitos após a quebra do ueno. Conforme o banco central, os depósitos contam com garantia de até 75 salários mínimos mensais, por pessoa física ou jurídica em cada entidade financeira.
O caso paraguaio chama a atenção por semelhanças com o Banco Master, liquidado pelo Banco Central do Brasil em novembro do ano passado por fraudes financeiras bilionárias. Seu dono, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, está preso preventivamente, assim como outras pessoas relacionadas ao caso.
O esquema do Master revelou conexões complexas com estruturas de poder, assim como o ueno está demonstrando. O Master também é investigado por prováveis prejuízos causados a institutos de previdência de servidores públicos, além de ter vendido carteiras fraudulentas ao Banco de Brasília (BRB), que hoje vive uma séria crise.
Já a fintech paraguaia administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores do Instituto de Previdência Social (IPS) e de outros fundos destinados ao pagamento de aposentadorias e benefícios. Em relatório, a Moody’s afirmou que a quebra do ueno é um teste para o sistema financeiro do Paraguai, mas não deve gerar uma crise sistêmica, desde que o processo de resolução seja rápido e ordenado, os riscos são contidos.
“A liquidação do ueno é um fator negativo para o setor bancário, pois depositantes não cobertos por garantia - incluindo algumas empresas - podem enfrentar atrasos ou perdas em seus saldos, o que poderia gerar um impacto modesto e temporário na economia real. [...] No entanto, o Banco Central do Paraguai indicou que cerca de 97% dos depositantes estariam integralmente cobertos pelo Fundo de Garantia de Depósitos (FGD)”, disse.
Para a agência, após três anos de competição por depósitos, impulsionada em parte pelo rápido crescimento do ueno, os custos de captação devem agora diminuir para outros bancos. “Os maiores bancos do Paraguai, incluindo o Banco Itaú Paraguay, Banco Continental, Banco Sudameris e o Banco GNB - que, juntos, detêm cerca de 60% dos depósitos do sistema - deverão ser os mais beneficiados com a realocação de recursos.”
Na quarta-feira, durante teleconferência sobre os resultados do terceiro trimestre, o CEO do Itaú, Milton Maluhy, disse que o banco nunca teve nenhum tipo de relação com o ueno. Porém, afirmou que, em momentos de estresse, existe uma busca por qualidade (“flight to quality”), o que pode acabar beneficiando o Itaú.
Em relatório, Rhys Hicks, analista de bancos e pagamentos da GlobalData, disse que o colapso repentino do ueno levanta questões sobre a governança de bancos digitais em rápido crescimento em mercados emergentes. “A dimensão dessa disrupção ressalta que os bancos digitais estão se tornando sistemicamente importantes muito antes de uma governança adequada ser implementada”, afirmou.
Segundo ele, o modelo de banco digital reduz drasticamente os custos de aquisição de clientes e o tempo necessário para o cadastro, permitindo que essas instituições acumulem depósitos muito mais rapidamente que seus controles de risco e sua base de capital conseguem amadurecer. “Os órgãos reguladores costumam avaliar a importância sistêmica de um banco com base no tamanho de seu balanço patrimonial.
Contudo, o colapso do ueno demonstra que o alcance junto aos clientes também deve ser um fator relevante. Quando cerca de 60% da população adulta de um país depende de uma única instituição para realizar pagamentos e manter suas economias, uma eventual falha torna-se um evento de grande impacto na confiança pública, independentemente do volume de ativos”.
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