Para quê fazer fácil?
Durante alguns anos frequentei uma academia, em Lisboa, acreditando que poderia corrigir o corpo como quem corrige um texto. O meu treinador, Sérgio, um alagoano endurecido pela vida, inventava exercícios que, no início, sempre me pareciam impossíveis. Ele troçava da minha indomável preguiça:
— Para quê fazer fácil se podemos fazer difícil?
Eu ria. Não rio mais. Aprendi que escolher o caminho mais duro, mais longo, podendo optar por um atalho, é uma forma de resistir à cultura do fácil e do efêmero — uma doença do nosso tempo.
A escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso conta que depois de concluir o seu segundo ou terceiro romance o computador quebrou e ela perdeu todos os arquivos, incluindo o original do livro. A solução foi reescrever o texto de memória. Ou seja, reinventá-lo. Gostou tanto da experiência que a transformou num método. Hoje, escreve uma primeira versão até ao fim; termina e, num gesto definitivo e incrivelmente corajoso, apaga-a. A seguir, reescreve tudo.
Admiro o desprendimento de Dulce. Preferia perder um braço a apagar um romance inteiro. Não duvido, contudo, da eficácia de tal método — a segunda versão sairá com certeza muito mais depurada, guardando apenas o essencial. Além disso é provável que, no processo, a escritora encontre melhores soluções narrativas.
Praticar o lema de Sérgio no cotidiano exige coragem e disciplina. Quando conseguimos pode ser compensador. Guardo nos bolsos da memória um punhado de pequenas insurreições — aquele dia em que decidi ficar quando teria sido mais fácil sair; o outro, em que escolhi falar a verdade, sabendo que uma pequena mentira teria me evitado problemas; todas as ocasiões em que pedi perdão primeiro, e as outras em que soube escutar calado até ao fim.
O fácil nos confirma. O difícil nos transforma. Passei a desconfiar de tudo o que nos chega às mãos sem esforço, sem resistência, sem algum tipo de perda. Não falo de perdas épicas. Trágicas. Refiro-me às pequenas renúncias. Vivemos cercados de soluções instantâneas, atalhos elegantes, promessas de eficiência.
O que não custa raramente permanece. Vidas sem sofrimento tendem a ser vazias. Não se trata de procurar o sofrimento, mas de não fugir dele quando se apresenta. Creio que era isso que o meu amigo Sérgio tentava me ensinar forçando-me a carregar pneus, ao sol, de um lado para o outro — não a glorificação do esforço, mas a recusa da facilidade quando esta nos diminui.
Há quem defenda que os cães são mais felizes do que os gatos. Não. Vai muito além — os gatos são indiferentes à própria ideia de felicidade. Pode ser tentador viver assim, não esperando nada, não arriscando nada.
Certas escolhas prometem felicidade instantânea, limpa, sem custos — digamos felicidade em pó. Escolher o difícil é resistir ao empobrecimento da vida.
Desconfio do que vem pronto demais. Prefiro optar pelos caminhos mais longos, de terra batida. Porque há experiências que só existem depois de superada a dificuldade.
