Para onde vão os talk shows? Programas se adaptam à era dos cortes e dos podcasts

Para onde vão os talk shows? Programas se adaptam à era dos cortes e dos podcasts

 

Fonte: Bandeira



A música “Hello, goodbye”, dos Beatles, não poderia ser mais apropriada para ser cantada ao vivo por Paul McCartney no “The late show with Stephen Colbert”, da rede americana de TV CBS, na quinta-feira. No histórico teatro Ed Sullivan, em Nova York, onde a banda britânica se apresentou pela primeira vez nos Estados Unidos, em 1964, Colbert fez seu ato final após 11 anos no comando de um dos principais programa de entrevistas do fim de noite da TV americana.

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O talk show foi cancelado por questões financeiras, segundo a CBS. Mas a suspeita de interferência de Donald Trump, alvo de piadas de Colbert, foi reforçada com um vídeo feito por IA no perfil do presidente dos EUA, em que ele joga o apresentador em uma caçamba de lixo. Colbert também teria irritado a emissora ao ironizar um acordo feito com Trump para indenizá-lo em US$ 16 milhões por uma edição supostamente maliciosa de uma entrevista da candidata democrata das eleições de 2024, Kamala Harris. Fica o dito pelo não dito, mas a emissora não perdeu tempo e alugou o horário para o comediante Byron Allen, do programa “Comics unleashed”, visto pela crítica e pelo público como apolítico.

Motivada por dinheiro ou por ideologia, a despedida de Colbert é mais um sinal de que o gênero, que já produziu marcos na política e na cultura pop, está em um processo de transformação para seguir adiante. A pergunta a ser respondida para isso é: Como se manter relevante — e rentável — com tanto conteúdo de entrevistas, curtas ou mais extensas, em tantas plataformas diferentes, como canais do YouTube, perfis de redes sociais e televisões abertas ou assinadas?

Homem segura cartaz em frente ao Ed Sullivan Show protestando contra o fim do show de Stephen Colbert, que teria sido cortado após ironia com acordo de CBS que beneficiou o presidente dos EUA, Donald Trump

CHARLY TRIBALLEAU / AFP

David Letterman, que está no ofício desde 1982 (e foi substituído por Colbert em 2015), disse ao New York Times que ficaria surpreso se alguns talk shows “durassem mais um ano”. Mas deixou um argumento reconfortante sobre o formato: “nunca vai acabar porque são pessoas conversando com pessoas”.

— Um ser humano falando e outro ouvindo serão sempre um espetáculo, né? — defende o jornalista Pedro Bial, que se firmou no gênero. — Mas o ato de assistir à televisão está mudando. A pessoa não precisa esperar até o fim da noite para ver o talk show que lhe interessa. Ela vai ver os cortes (os trechos curtos de pedaços da entrevista destacados para as redes sociais).

O próprio “Conversa com o Bial” prepara novidades para 2026. O programa transmitido na TV Globo, no GNT e também disponível na Globoplay passa a ser semanal a partir de julho, reformulado.

— Vamos para um horário mais aprazível e também mais competitivo. Estamos dando um jeito de preservar a essência da ideia da conversa com um pouquinho mais da roupagem de show — diz o apresentador, dando como exemplo de boas sacadas as performances de Jimmy Fallon no “The tonight show”, da rede americana NBC, e Tatá Werneck aqui no Brasil, com o “Lady night”, do Multishow, que volta com nova temporada no ano que vem. — São talk shows cheio de bossas, não é simplesmente “senta aí e vamos conversar”.

Do tubo ao celular

Derivado do rádio, os programas de conversa (a tradução literal de talk shows) ganharam corpo na TV americana a partir dos anos 1950. Diferentes tipos ocupavam as faixas das manhãs, das tardes e das noites. Esses últimos se estabeleceram com a mistura do humor do stand-up comedy à entrevista jornalística, exibidos a uma plateia semelhante à dos sitcoms.

Por aqui, o humorista Jô Soares foi o pioneiro dos talk shows, com o “Jô Soares Onze e Meia” (de 1988 a 1999 no SBT) e depois com o “Programa do Jô” (de 2000 a 2016 na TV Globo). Hoje, Danilo Gentili, com o “The noite”, do SBT, é o único a pilotar diariamente um talk show noturno na televisão aberta brasileira, que está no ar, só na emissora atual, há 12 anos sem interrupção.

— Assistimos à TV convencional aberta, mas também a streaming, a cortes. E os talk shows têm se adaptado a esse novo tipo de consumo — diz Fernanda Mauricio, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG, que estuda a história e evolução do gênero.

Aí que entram no papo os videocasts. Para a pesquisadora, “podcasts em vídeo são uma reconfiguração dos talk shows” ao exibirem elementos claramente inspirados na televisão:

— Vários estão no YouTube, têm cenário e apresentador olhando para a câmera, por exemplo.

Mas muitos que fazem videocast miram cada vez mais na TV. O Podpah, um dos principais do país, pilotado pelos influenciadores Igor Cavalari (Igão) e Thiago Marques (Mítico), está nesse caminho. Os quase dez milhões de inscritos no canal do YouTube podem assistir às entrevistas (bastante informais, “sem roteiro a ser seguido pelos convidados”, diz Victor Assis, CEO do Podpah), mas também a programas de culinária (“O brabo da cozinha”), competição de rima (“Batalha da aldeia”, com Bob13 e AlvaFlex) e, para a Copa do Mundo 2026, a resenha esportiva “Falha de cobertura”, com Craque Daniel (Daniel Furlan) e Professor Cerginho da Pereira Nunes (Caíto Mainier).

Um dos responsáveis pelo Podpah, o CEO Victor Assis não renega a influência da linguagem da TV:

— Seis anos atrás, começamos como um podcast, mas logo fizemos uma movimentação inspirada muito no que a TV é — diz Victor. — Sempre tentamos nos diferenciar pela qualidade das câmeras, da luz, para fazer um produto que, se você quiser, pode ir ao ar numa emissora aberta. Investimos em tecnologia em qualidade, porque temos referência de TV.

Num ciclo de reatroalimentação, Danilo Gentili e seu “The noite” pescam referências dos videocasts, os maiores concorrentes do programa, segundo o diretor, João Mesquita:

— Trabalhamos muito com a internet. O Danilo põe como condição estar no YouTube. Educamos o público a consumir o programa de diversas formas. (Talita Duvanel)

Alguns momentos marcantes dos talk shows

Irmão acusa irmão: Em 1992, o empresário Pedro Collor, ao lado da mulher, Thereza, detalhou a Jô Soares as acusações que já havia feito de corrupção no governo do irmão, Fernando Collor de Mello. A entrevista no “Jô Soares Onze e Meia”, então no SBT, foi um dos capítulos do drama político que terminaria no impeachment de Collor.

‘Eu sou gay’: A Pedro Bial, o governador gaúcho Eduardo Leite assumiu publicamente a homossexualidade pela primeira vez, em 2021 — eliminando, com isso, um um flanco pelo qual ele poderia ser atacado (e era) com boatos pelos seus adversários.

É muito topete: Em 2016, Jimmy Fallon despenteou o candidato a presidente dos EUA Donald Trump. O apresentador disse ao republicado queria ver se os fios de cabelo eram de verdade. A brincadeira viralizou, mas Fallon foi criticado posteriormente por ter ajudado a firmar a imagem de Trump como alguém com senso de humor. O humorista disse quejamais pensou em bajular o futuro presidente.

Palavrão como vírgula: Em uma entrevista em 1994 cheia de farpas trocadas, Madonna falou “fuck” 14 vezes, deu uma calcinha a David Letterman, fumou charuto e recusou-se a deixar o palco do “Late Show”. A repetição do “f world” fez do encontro os 20 minutos mais censurados da história da televisão americana.

Vias de fato: Em 2003, Dado Dolabella e João Gordo tiveram de ser contidos pelos seguranças da MTV nas gravações do “Gordo a go-go”. Dado quebrou a mesa do cenário com um machado depois de ser chamado de “playboizinho de m...” O quebra-pau só foi exibido em 2006, em um site da emissora.