Para onde vão os médicos ruins?
Como os leitores vêm acompanhando, tivemos, graças ao Enamed, uma grande descoberta na área médica: o curso de medicina da faculdade Zé das Couves, pertencente à Universidade João Ninguém e criado na semana passada, por um dono de oficina mecânica que descolou uns CDBs do Banco Master, é ruim, muito ruim. Péssimo, para ser exato.
O que pensam os homens? As mulheres querem saber o que se passa na cabeça masculina e não conseguem
O importante é que estamos aqui: Somos a Geração X. E como estamos?
Darei ao leitor alguns segundos para que respire e se recupere da surpresa.
Mais espanto: o curso tinha aprovação do MEC e cobrava quinze mil reais de mensalidade, mesmo sendo um desastre. E o que acontecerá com alguém formado na Zé das Couves e outras semelhantes? Salvo um milagre, será um perigo ambulante.
O MEC e o Conselho de Medicina continuam discutindo. Como já estamos acostumados, o debate levará anos. Medidas práticas? Melhor esperar sentado.
Uma epidemia mundial de passividade: a câmera na mão
Temos então uma legião de Doutores Enzos e Doutoras Valentinas soltos por aí, estudantes que gastaram mais de um milhão numa formação precária e que agora precisam recuperar o que foi investido. Alguns, conscientes das próprias limitações, vão tentar remediar a catástrofe numa instituição mais séria.
Outros, porém, vão colocar o jaleco branco assim mesmo, confiando no que – não - aprenderam. Enquanto as autoridades discutem, Dr. Enzo e Dra. Valentina partirão intrépidos, para conquistar consultórios, clínicas e hospitais.
Agora vamos à parte que nos cabe, leitor.
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Sábado à noite, você está de boas, vendo sua série predileta, quando sente uma dor no peito. Hum, não deveria ter comido a gordura daquela picanha, pensa. A dor aumenta. Você liga para o seu clínico, mas ele não atende. Melhor não arriscar. Abre o app do plano, vê onde é a emergência mais próxima e resolve dar um pulo lá.
Pega a senha, aguarda a sua vez e é chamado para o atendimento. Adivinhem quem está lá, esperando?
O Doutor Enzo, é claro. Aquele que foi formado na faculdade nota um no Enamed. Mundo pequeno, não?
Você descreve os sintomas e ele pede para deitar na maca. Nessa hora você percebe que o doutor está digitando “Lúpus – sintomas” no ChatGPT. Oi? Como quem não quer nada você comenta que é hipertenso e que sua família tem histórico de problemas cardíacos. Ao ouvir isso o doutor apaga lúpus e escreve “Ebola – tratamento”. Ao ler Ebola você já sente uma pontada na barriga. “Doutor, a dor agora é aqui embaixo”. Ele decreta: “Então só pode ser endometriose! Vamos operar agora.” Com delicadeza – os enzos se ofendem fácil - você pergunta se não seria melhor ter uma segunda opinião. Ele concorda e chama uma colega.
Aparece a Dra. Valentina. Sim, aquela mesma.
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A doutora ouve o diagnóstico do Enzo e dá uma bronca: “Enzo, o professor estava errado, homem não pode ter endometriose!”. A Valentina consulta as redes sociais e o zap. Arrá! Exclama. “Tá aqui, só pode ser fimose!” Já vai tirando um bisturi da bolsa. Enzo retruca, surpreso: “não! Olha a cara dele! Hemorroidas, óbvio! vamos fazer um exame de próstata para confirmar.”. A doutora não se dá por vencida: “acho que é caso de bariátrica, vi algo parecido num filme”.
Enquanto os dois discutem você, sábio, corre para a saída. Vai que chegam o Dr. Gael e a Dra. Yasmin?
Seu clínico finalmente liga: eram só gases. Você respira aliviado, enquanto apaga a mensagem do Dr. Enzo, que pergunta se o seu plano cobre cesariana.
