'Para mim, a vida perdeu o sentido', diz irmã de mulher morta por PM

 

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Irmã de Thawanna da Silva Salmázio, morta durante uma abordagem policial na Cidade Tiradentes, Zona Leste de São Paulo, Daiana Gislene da Silva afirma esperar que a policial militar Yasmin Cursino Ferreira, 21, seja exonerada e presa. No entanto, diz que, neste momento, sua principal preocupação tem sido “encontrar algum sentido para seguir”.

Repercussão: PM afasta agentes envolvidos em morte de mulher na Zona Leste de SP

Provas: Câmera corporal contradiz versão de PMs sobre abordagem que levou a morte de mulher na Zona Leste de SP

Thawanna foi baleada na madrugada da última sexta-feira (3), após uma discussão com dois policiais que haviam atingido seu marido, Luciano Gonçalves dos Santos, com a viatura. Imagens obtidas pela TV Globo mostram que, por volta das 3h, o veículo entra em uma rua do bairro e atinge o pedestre com o retrovisor. Em seguida, o policial dá ré e inicia uma discussão com o casal.

Menos de um minuto depois, Yasmin dispara contra Thawanna. A policial afirmou que atirou após ter levado um tapa da vítima.

— Eu passo a maior parte do tempo isolada. Cada vez que vejo uma reportagem sobre a minha irmã, eu fico abalada de um jeito que só quem passa, sabe — disse Daiana ao GLOBO. — Tudo que eu quero é me agarrar a algum sentido da vida, porque ela não volta mais. Mas eu tenho meus filhos, preciso ser forte. Estou tentando organizar meu emocional, porque não está nada fácil.

Conforme mostrou O GLOBO, a câmera corporal de um policial militar contradiz o relato de agentes sobre a discussão que levou Yasmin a atirar contra Thawanna. Os policiais Weden Silva Soares e Yasmin interromperam o trajeto da viatura após quase se envolverem em um acidente com o casal que caminhava pela rua.

Segundo as imagens, por volta das 3h, a viatura entra em uma via de bairro em Cidade Tiradentes quando o retrovisor do carro atinge Luciano Gonçalves dos Santos, marido da vítima. Soares então para o veículo, dá ré e questiona o pedestre:

— A rua é lugar para você estar andando? — fala Soares.

— Não, não, com todo o respeito, vocês que bateram em nós — responde a vítima.

A partir daí, tem início uma discussão. O casal reage, afirmando que a viatura estava em alta velocidade. Yasmin desce do carro imediatamente e, em seguida, Soares também desembarca.

Os dois policiais se separam, e apenas Soares utiliza câmera corporal. Yasmim não portava o equipamento por ser recém-formada na corporação e estar no patrulhamento havia cerca de três meses.

Segundo a secretaria de Segurança Pública, a oficial começou a trabalhar durante a Operação Verão desse ano e ainda precisava de uma senha para ter acesso ao equipamento, processo que, de acordo com as autoridades, demora "um pouco".

A soldado, de 21 anos, foi aprovada no concurso em novembro de 2024 e, segundo o site da PM, e o processo para se tornar soldado dura dois anos, sendo seis meses de formação básica, seis de formação específica e mais doze meses de estágio, sendo essa etapa que estava Yasmin.

Na discussão que segue, é possível ver Thawanna apontando para a policial e gritando para que não seja tocada. Enquanto isso, Soares discute com o marido da vítima, cada um indo para um lado da viatura. Poucos segundos depois, ouve-se o disparo.

— Você atirou nela? Por quê? — questiona Soares.

Yasmin justifica o tiro afirmando ter recebido um tapa, mas que não pôde ser confirmado pela ausência da câmera.

Em seguida, Soares aciona o socorro, enquanto tenta acalmar o marido da vítima. A outros policiais que chegam ao local, o policial minimizou o caso e pontuou que caso a mulher estivesse avançando contra a colega, a reação poderia ser compreensível. Mais tarde ele reafirma o discurso para a própria colega:

— Não era para ter atirado, mas se ela estava indo para cima de você, podia te bater, pegar sua arma. Se ela começa a te bater, o cara ia me segurar.

A vítima permaneceu cerca de 30 minutos no chão até a chegada do socorro. Ela foi levada ao Hospital Santa Marcelina, em Cidade Tiradentes, mas não resistiu. Na mesma noite Yasmin teve a arma apreendida por outro oficial.

As imagens mostram uma contradição no relato dos policiais registrado em Boletim de Ocorrência. Segundo o documento, os policiais afirmaram que faziam patrulhamento quando avistaram um casal andando no meio da rua. Ao se aproximarem, o homem teria se desequilibrado e batido o braço no retrovisor da viatura.

Ainda de acordo com o registro , houve um desentendimento após o homem supostamente desobedecer à ordem de se afastar. Thawanna, então, teria avançado contra a policial, iniciando um confronto físico — momento em que ocorreu o disparo.

"O indivíduo do sexo masculino se desequilibrou e seu braço direito bateu no retrovisor direito da viatura. De pronto, a equipe retornou para verificar se estava tudo bem com o indivíduo, momento em que este começou a gritar e reclamar com a guarnição", declarou Soares.

Na testemunho, Yasmin tentou justificar que o casal estava embriagado, e que a viatura deu ré para averiguar para averiguar uma "possível ocorrência"

"Ao se aproximar novamente, constatou-se que ambos os envolvidos apresentavam sinais visíveis de embriaguez", afirmou a oficial. "A equipe tentou intervir para conter os ânimos e evitar a evolução do conflito", destacou.

Luciano Gonçalves, no entanto, apresentou versão diferente. Ele afirma que a viatura trafegava em alta velocidade e quase atingiu o casal, provocando a reação de Thawanna — versão que, segundo as imagens da câmera corporal, é compatível com o que ocorreu.

Ele também diz que sua mulher não teve comportamento agressivo e que os agentes utilizaram spray de pimenta durante a abordagem. A gravação não mostra o momento do confronto direto entre Yasmin e a vítima, já que a policial não utilizava câmera corporal.

Nas imagens, é possível ver Gonçalves indo para frente de um dos oficiais e tirando a camisa. Segundo testemunhou, o ato era uma tentativa de mostrar que não representava perigo aos oficiais.

"O declarante afirma que, temendo ser interpretado como ameaça — inclusive por estar trajando vestimenta camuflada —, retirou sua blusa e sua bolsa, colocando os objetos no chão, com o intuito de demonstrar que não oferecia risco aos policiais", afirmou.

Ainda segundo o testemunho de Luciano, após o disparo, ele acreditou que a esposa tinha sido atingido por uma munição de efeito moral.

Os policiais foram afastados do serviço operacional “até a conclusão das investigações”, informou a Secretaria da Segurança Pública. O caso é apurado pelas polícias Civil e Militar.

“O conteúdo das câmeras corporais será analisado e encaminhado às autoridades responsáveis, assim como os laudos periciais”, afirmou a pasta em nota. Após a morte, moradores da região realizaram protestos nas ruas de Cidade Tiradentes.

O Ministério Público de São Paulo instaurou, na segunda-feira (6), um procedimento para investigar o caso. A apuração está a cargo do Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), que analisará as circunstâncias da ocorrência.