Para Kim Jong-un, guerra no Irã reforça ideia de que sobrevivência do regime depende do arsenal nuclear
Em meio às incertezas militares, econômicas e políticas globais produzidas pela guerra de EUA e Israel contra o Irã, para a Coreia do Norte o conflito deu às lideranças locais uma certeza: a de que a sobrevivência do regime depende de seu arsenal nuclear. A desnuclearização, como querem EUA, Coreia do Sul e boa parte da comunidade internacional, não é mais opção em Pyongyang, e isso deve pautar futuras negociações, se elas acontecerem.
— A realidade atual demonstra claramente a legitimidade da escolha estratégica e da decisão de nossa nação de rejeitar as promessas vazias dos inimigos e garantir permanentemente a segurança de nosso arsenal nuclear — afirmou Kim Jong-un, líder norte-coreano, em discurso no dia 23 de março. — Afirmo que nossa nação não é mais um país sob ameaça: agora possuímos o poder de representar uma ameaça, se necessário.
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Estimativas apontam que a Coreia do Norte tem cerca de 50 ogivas operacionais (e os meios para lançá-las contra seus inimigos) e material suficiente para fabricar até 90 novos armamentos. Fora do Tratado de Não Proliferação (TNP) desde 2003, o país não se submete a inspeções internacionais e não vê qualquer incentivo para fazê-lo, especialmente ao observar o desfecho de décadas de pressão ocidental sobre o Irã.
— Nossa nação inaugurou uma nova era de conquista da segurança por meio da força e da salvaguarda da paz por meio da força, não por meio de declarações ou apelos — disse Kim Jong-un no discurso à Assembleia Popular Suprema. — A atual realidade global, na qual a dignidade e os direitos dos Estados soberanos são impiedosamente pisoteados pela coerção unilateral e pela tirania, ensina-nos claramente o que realmente constitui a garantia genuína da existência e da paz nacional.
Esta foto, tirada em 11 de março de 2026 e divulgada pela Agência Central de Notícias da Coreia do Norte (KCNA) em 12 de março de 2026, mostra o líder norte-coreano Kim Jong Un (C) e sua filha Kim Ju Ae (centro à esquerda) inspecionando a produção de um novo tipo de pistola em uma importante fábrica de munições subordinada ao Segundo Comitê Econômico
KCNA VIA KNS / AFP
Desde meados dos anos 1990, o regime em Teerã é acusado de tentar militarizar seu programa nuclear — algo que sempre negou —, e convive com sanções, assassinatos de cientistas e atos de sabotagem contra instalações cruciais. Os seguidos reveses diplomáticos, aliados à quebra de acordos, reforçaram a ideia de que nem sempre é possível confiar nas promessas ocidentais. E as novas lideranças, mais radicais do que as anteriores, lamentam não terem seguido o caminho da bomba.
— A opinião das elites, assim como a opinião pública, mudou drasticamente sobre isso, o que não deveria ser surpreendente, visto que o Irã foi bombardeado duas vezes em meio a negociações por os Estados com armas nucleares — disse Trita Parsi, especialista do Instituto Quincy, à rede CNN.
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As lições do Irã se somam a outros exemplos, como o do ditador líbio Muammar Kadhafi. Em dezembro de 2003, ele anunciou ao mundo que estava se livrando de suas armas de destruição em massa como parte de um acordo com o Ocidente. Cerca de sete anos depois, Kadhafi foi derrubado com o apoio de forças da Otan e morto por civis em Sirte, sua cidade natal, depois de ser descoberto em um cano de escoamento de água.
— Penso que [Kim] Jong-un percebeu a capacidade de barganha das nações que possuem armas nucleares, que têm um grande poder de dissuasão — disse o ex-senador Dan Coats, ex-diretor de Inteligência Nacional no primeiro governo do presidente dos EUA, Donald Trump, ao portal Intercept, em 2017. — A lição que aprendemos com a Líbia, que desmantelou seu programa nuclear, (…) foi infelizmente essa: se você tem bombas atômicas, nunca deve se desfazer delas. Se não tem, trate de obtê-las.
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PATRICK KOVARIK/AFP
Mas a estratégia de sobrevivência do regime não se trata apenas de ter ogivas prontas para uso.
Nos últimos anos, a Coreia do Norte incrementou seus laços com outras duas potências nucleares, China e Rússia, em acordos centrados na parceria econômica e, especialmente, militar. No ano passado, durante uma reunião com o presidente chinês, Xi Jinping, Kim afirmou que a amizade entre os dois países não mudaria, “independentemente de como a situação internacional se altere”. No sábado, Kim escreveu a Xi que as relações bilaterais estão “se elevando a um novo patamar, em resposta às aspirações e aos desejos de ambas as partes e dos povos dos dois países”.
Com a Rússia, a parceria foi mais ampla. Desde 2022, Pyongyang fornece munições e projéteis para a guerra de Vladimir Putin na Ucrânia. Em junho de 2024, os dois países firmaram um tratado estratégico, com garantias mútuas de segurança, que abriu caminho para o envio de tropas para lutar ao lado dos russos contra os ucranianos, acelerou o compartilhamento de conhecimentos militares e fortaleceu os cofres do Estado.
Desde então, entre US$ 5,6 bilhões e US$ 9,8 bilhões em dinheiro vindo de Moscou entraram no país, de acordo com levantamento da Fundação Friedrich Naumann para a Liberdade. Além de armamentos destinados às tropas do Kremlin, os norte-coreanos produzem novos navios, mísseis, drones com tecnologia de inteligência artificial, tanques e sistemas de defesa aérea para uso próprio.
“A modernização convencional da Coreia do Norte não deve ser vista como um afastamento de sua busca por dissuasão nuclear. Na verdade, ela pode reforçá-la, oferecendo à Coreia do Norte opções que não exigem uma escalada nuclear”, escreveu Khang Vu, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política do Boston College, em artigo para o Instituto Lowy.
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A estratégia também se reflete na visão sobre seus adversários. No discurso à Assembleia Popular Suprema, Kim Jong-un formalizou o status de Seul como um “Estado hostil”, em mais um golpe contra qualquer tipo de política de reunificação. Em tom de ameaça, afirmou que se houver “qualquer ato da Coreia do Sul contra nossa república, os faremos pagar o preço sem piedade, sem qualquer hesitação ou consideração”.
Sobre os Estados Unidos, Kim os acusou de cometerem “atos de terrorismo estatal e agressão”, sem mencionar o Irã ou o nome de Trump. O líder americano não esconde o desejo de se reunir com o norte-coreano, com quem dizia manter uma amizade próxima, e diplomatas sugeriram que uma reunião poderia acontecer em abril, durante uma viagem do republicano à China (adiada por conta da guerra). No mês passado, Kim declarou que se os EUA “abandonarem sua política de confronto com a Coreia do Norte e respeitarem nosso status [nuclear] atual, não há razão que nos impeça de manter uma boa relação”.
Presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko (E), faz brinde com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, durante encontro em Pyongyang
KCNA VIA KNS / AFP
Pelo cálculo do líder norte-coreano, suas ogivas, a amizade com Moscou e Pequim e a simpatia de Trump lhe dariam margem para obter concessões ou um compromisso de que não será atingido pelas bombas americanas, sem tocar na palavra "desnuclearização". Na semana passada, ele se reuniu com o presidente da Bielorrússia, Alexander Lukashenko, que teria se oferecido como mediador com Washington. Mas diante da imprevisibilidade do presidente americano, essa é uma aposta de longo prazo, sem chances garantidas de sucesso.
