Para o senador Flávio Bolsonaro, prometer o céu aos pobres é mais do que mera tática eleitoral: é o que separa o paraíso da impunidade da obrigação de responder por seus atos e por sua vistosa parceria com o advogado Willer Tomaz, que acaba de sofrer um duro revés do Supremo Tribunal Federal.
O leitor atento sabe: a urgência das urnas, para certas candidaturas, tem menos a ver com o destino do PIB e dos pobres do que com o destino dos próprios CPFs. Ou a Papuda, ou o Texas.
Eduardo Bolsonaro já avisou, num podcast, que, se o irmão perder, foge do Brasil. Vamos ver.
A se levar a sério o que dizem os dois candidatos que disputam este segundo turno da eleição presidencial, o Brasil teria chegado a um consenso progressista, ao menos em parte da agenda. Esqueçam as cartilhas do neoliberalismo ortodoxo e a ladainha do corte de gastos.
Tanto o presidente Lula como o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL, prometem, em caso de vitória, manter a política de ganho real para o salário mínimo e a vinculação das aposentadorias ao salário mínimo; preservar, nos termos atuais da Constituição, a vinculação dos pisos de saúde e educação; assegurar a escala de cinco dias de trabalho por dois de descanso; instituir a tarifa zero no transporte público nos fins de semana e não privatizar estatais.
Fosse assim, meus caros, qualquer que seja o vitorioso no domingo, a pauta de Lula sairá vencedora. Um caso raro: Lula ganhará ainda que perca, e Flávio perderá ainda que ganhe.
Esses paradoxos podem ter a sua graça na retórica, mas nem sempre na vida. Por que escrevo isso? Porque só um deles, de fato, diz a verdade.
O outro encena uma comédia. Flávio é o Tartufo da hora, o impostor de Molière: a farsa em estado puro, a fanfarronice que veste o manto da virtude — no caso, a virtude social — para enganar os incautos, enquanto suas intenções, na realidade, correm em sentido oposto.
É o hipócrita que reza a missa da assistência social, mas pisca para todos os pecados de uma das elites mais concentradoras de renda do mundo, como quem diz: “Acalmem-se! Preciso ganhar a eleição para me livrar da Justiça. Eleito, cuido de vocês em seguida.”
Desfaça-se o paradoxo com a mais clara das congruências: se Lula perder, perdem os pobres; se Flávio ganhar, ganham os ricos. Tem-se um contraste, agora sim, de outra natureza: nessa perspectiva, os ricos ganharão também com os votos dos pobres, e, por óbvio, com os próprios votos.
Como ensinavam os latinos, “verba volant, scripta manent”: as palavras voam, os escritos — e os áudios — permanecem. A verdade costuma escapar pela boca distraída de assessores.
Entra em cena Daniella Marques, uma das coordenadoras econômicas da campanha de Flávio. Em entrevista conjunta com o candidato ao podcast Market Makers, no dia 22 de outubro de 2026, a ex-presidente da Caixa Econômica Federal e discípula de Paulo Guedes deixou claro que o ajuste fiscal será feito e que vai atingir, sim, os mais vulneráveis.
Transcrevo o trecho exato para que não digam que este colunista inventa: “Você não tem moral como governo para debater ajuste de previdência, de salário mínimo e tal, se você não for cortar na carne”. Ela falou literalmente em debater “ajuste de Previdência, de salário mínimo”.
O cardápio dela, de, digamos, malvadezas, prevê passar o bisturi nos direitos dos aposentados, no salário mínimo etc. Vale lembrar que ela falou ali em um mandato de, ao menos, oito anos.
Logo, temos um cenário cristalino: de um lado, Lula, que concorre com o programa genuinamente seu, do qual não tem como, nem quer, fugir; do outro, Flávio, que aderiu de forma oportunista à pauta do adversário no que respeita às questões sociais e às privatizações. Ocorre que ele não tem como implementá-la, pela simples razão de que os financiadores e apoiadores de sua candidatura — aqueles instalados no topo da pirâmide socioeconômica — pedem exatamente o contrário disso tudo.
Exigem a desindexação, o desmonte dos direitos sociais e a entrega das empresas públicas na bacia das almas. DISCURSO FASCISTIZANTE Sabendo disso, o senador é sempre muito ligeiro quando fala com o eleitor comum sobre as questões econômicas.
O tema lhe queima a língua. Prefere apelar ao discurso inflamado, acionando a engrenagem da agenda fascistizante da segurança pública.
É a velha tática de açular os instintos mais primitivos de uma população cansada da violência, para desviar a atenção do que realmente importa. Chega ao desplante de defender a prisão de crianças de 14 anos, vendendo a ilusão de que a masmorra precoce para os pobres resolverá uma das mazelas da pobreza.
Da mesma forma, não se vexa de recorrer à bandeira do embate institucional, deixando claro, em tom de ameaça nada velada, que pretende ter o domínio do STF, com ministros dóceis e subservientes a seus caprichos e aos de sua grei. O quadro está desenhado: se Lula ganhar, Lula ganha.
Na pauta social, se Flávio vencer a eleição, a plataforma do petista também prevalecerá no plano retórico. Acontece que os apoiadores bilionários e milionários do herdeiro do golpista, ora recluso, só estão com ele porque apostam, com a certeza dos iniciados, que o candidato está mentindo para a patuleia.
Os ricaços toleram a sua tartufice porque sabem que o impostor, uma vez coroado, entregará as cabeças dos pobres no altar do mercado. Volto à tese inicial, pois o possível triunfo da farsa nos reconduz inevitavelmente ao rés do chão da crônica policial e jurídica.
Prometer o céu aos pobres para se eleger, para Flávio, é a exata diferença entre o paraíso da impunidade e a obrigação de responder por seus atos e por sua parceria com o advogado Willer Tomaz. FLÁVIO, WILLER E A JUSTIÇA Na sexta-feira, 23 de outubro, o ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens de Tomaz, além da quebra dos sigilos bancário, fiscal e cambial.
Também ordenou a suspensão de seu passaporte diplomático — pasmem — e das atividades de todas as suas empresas. Note-se que ele e a família estão fora do país.
Tudo isso ocorre no âmbito de uma investigação de lavagem de dinheiro em negócios com bets, que envolve bilhões. A PF descobriu que o senador Flávio Bolsonaro figurava como nada menos que “usuário master” de uma conta bancária pertencente a uma das empresas do advogado.
O filho do golpista corre contra o relógio e contra o Código Penal. Precisa do manto presidencial não para guiar a economia, mas para salvar a si mesmo e aos seus próceres do alcance da Justiça.
Presideentes não podem ser investigados criminalmente por atos anteriores ao mandato. Para ele, ser eleito, ainda que prometendo tudo aos pobres — o que não entregará —, é a diferença entre o paraíso da impunidade e a obrigação de responder por seus atos e por sua parceria com o advogado Willer Tomaz.
Saberemos neste domingo se ele vai encontrar a Beatriz pervertida dos desmandos ou se terá de prestar contas à Justiça por suas escolhas. No primeiro caso, Dante lança um desafio: adivinhem quem vai para o Inferno.
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