Papa Leão XIV denuncia uso da IA para ampliar 'conflitos, medos e violência' durante visita a Camarões
O Papa Leão XIV criticou nesta sexta-feira o uso da inteligência artificial (IA) para fomentar “a polarização, os conflitos, os medos e a violência”, durante visita a Camarões marcada por discursos de forte teor social, críticas à exploração econômica e apelos à paz. No mesmo dia, o Pontífice celebrou uma missa para mais de 120 mil fiéis em Duala, onde também condenou a atuação de “tiranos que devastam o mundo”.
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A declaração sobre a IA foi feita durante um discurso na Universidade Católica da África Central, em Yaoundé, capital do país. Segundo o Papa, os impactos dessas tecnologias vão além da inovação e levantam questões profundas sobre a própria percepção da realidade.
— O desafio imposto por esses sistemas é mais profundo do que parece; não se trata apenas do uso de novas tecnologias, mas da substituição progressiva da realidade pela sua simulação — afirmou.
Estudantes universitários, empunhando bandeiras dos Camarões e do Vaticano, aplaudem antes da chegada do Papa Leão XIV à Universidade Católica da África Central, em Yaoundé, no quinto dia de uma viagem apostólica de 11 dias a África, em 17 de abril de 2026
Alberto PIZZOLI / AFP
O Pontífice alertou ainda para os efeitos sociais dessa transformação, com a disseminação de conteúdos simulados.
— Quando a simulação se torna norma, vivemos como dentro de bolhas impermeáveis umas às outras, e passamos a nos sentir ameaçados por qualquer pessoa que seja diferente — afirmou. — É assim que se espalham a polarização, os conflitos, os medos e a violência. Não está em jogo apenas o risco de erro, mas uma transformação da própria relação com a verdade.
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As falas ocorrem em meio a críticas ao uso político de conteúdos gerados por IA. Após o Papa se manifestar sobre a guerra no Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou uma imagem em que aparece retratado como um santo, inspirada na iconografia cristã, posteriormente apagada.
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Reprodução
Em Yaoundé, o Pontífice também incentivou estudantes a priorizarem “a alteridade das pessoas de carne e osso” em vez das “respostas funcionais” de chatbots, cujo uso tem se popularizado entre os jovens.
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Além disso, Leão XIV relacionou o avanço tecnológico a impactos ambientais e sociais, criticando a “busca frenética” por terras raras, essenciais para a produção de equipamentos e servidores, que, segundo ele, têm provocado “devastações ambientais e sociais”.
A inteligência artificial depende, por exemplo, da extração de minerais como o cobalto, usados em servidores que consomem grande quantidade de energia. Segundo o Papa, essa atividade impõe um alto custo à África, tanto do ponto de vista ambiental quanto social e humano.
Missa em Duala
O Papa Leão XIV (ao centro) acena à multidão a partir do Papamóvel ao chegar para presidir à Santa Missa na zona em frente ao Estádio Japoma, em Duala, no quinto dia de uma viagem apostólica de 11 dias a África, em 17 de abril de 2026
Alberto PIZZOLI / AFP
Mais cedo, em Duala, capital econômica de Camarões, o Pontífice foi recebido por uma multidão na esplanada do estádio de Japoma, no terceiro dia de sua viagem ao país. Segundo o Vaticano, mais de 120 mil pessoas participaram da celebração, número inferior à estimativa do governo local, que esperava até um milhão de fiéis.
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Sob temperaturas de cerca de 32°C, milhares aguardaram por horas para ver o líder da Igreja Católica. Muitos vestiam roupas estampadas com sua imagem, agitavam bandeiras do Vaticano e carregavam “ramos da paz”, enquanto gritavam “Viva o Papa” durante a chegada do papamóvel.
Entre os presentes, a fiel Marguerite Tedga, de 72 anos, passou a noite no local ao lado de amigas para garantir um bom lugar.
— É o auge de toda uma vida cristã. Quando eu era pequena, pensava que não poderíamos ver o Papa com nossos próprios olhos — relatou.
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Na homilia, proferida em francês, Leão XIV reforçou sua mensagem contra a violência e convocou os camaroneses a assumirem protagonismo na construção do futuro.
— Sejam atores do futuro e rejeitem toda forma de abuso e violência — declarou.
Troca de críticas
Ao longo da viagem, o Papa tem adotado um tom mais firme do que o habitual, especialmente em meio a críticas recentes feitas por Trump, que o atacou por defender o fim da guerra no Oriente Médio. O republicano afirmou que o Pontífice “pode dizer o que quiser”, mas deveria compreender as realidades de um “mundo cruel”.
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Sem citar diretamente o presidente americano, Leão XIV tem respondido com discursos contundentes em defesa da paz. Em Bamenda, no noroeste anglófono do país, região marcada por um violento conflito separatista, ele criticou lideranças globais que alimentam instabilidade.
— O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos, mas se mantém unido por uma multidão de irmãos e irmãs solidários — afirmou.
O Pontífice também denunciou a exploração de recursos naturais no continente africano. Segundo ele, atores externos e elites locais se apropriam das riquezas da região, enquanto parte significativa dos lucros é direcionada à compra de armamentos.
— Aqueles que roubam os recursos de sua terra geralmente investem grande parte do lucro em armas, perpetuando assim um ciclo interminável de desestabilização e morte — disse.
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Na véspera, o Papa já havia criticado “o mal causado a partir do exterior, por aqueles que, em nome do lucro, continuam apoderando-se do continente africano para explorá-lo e saqueá-lo”.
Camarões possui abundantes recursos naturais, como petróleo, madeira, cacau, café e algodão, além de vastas reservas minerais que há décadas atraem interesses estrangeiros e elites locais. Cerca de 37% dos quase 30 milhões de habitantes do país são católicos, e a Igreja mantém uma ampla rede de hospitais, escolas e obras sociais.
Desde sua chegada, na quarta-feira, Leão XIV tem sido recebido com entusiasmo popular, com milhares de pessoas reunidas ao longo das estradas para saudá-lo com cânticos e danças.
Fiéis assistem à Santa Missa presidida pelo Papa Leão XIV na zona em frente ao Estádio Japoma, em Duala, no quinto dia de uma viagem apostólica de 11 dias a África, em 17 de abril de 2026
Patrick MEINHARDT / AFP
Após a missa em Duala, o Pontífice seguiu para visitar o hospital católico Saint Paul. A viagem ao país será encerrada neste sábado, com uma nova celebração.
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Camarões é a primeira etapa de uma agenda mais ampla do Papa na África. Após deixar o país, ele seguirá para Angola e Guiné Equatorial, onde permanecerá até o dia 23 de abril.
