Palco de fatos históricos há três séculos, igreja que abriga o Museu do Negro tem infiltrações, paredes descascadas e mofo
Quem passa pelo burburinho da movimentada Rua Uruguaiana, no Centro do Rio, nem sempre se dá conta de que ali fica um dos templos católicos mais antigos e simbólicos da cidade: a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, que tem suas paredes impregnadas de história. Erguida no século XVIII pelas irmandades religiosas formadas por pessoas escravizadas e alforriadas, está intimamente ligada à trajetória da população negra no Rio, sendo considerada um marco da fé e da resistência dos afrodescendentes. Em seu segundo pavimento, fica o Museu do Negro, único do Rio, onde, entre dezenas de peças e documentos históricos, estão expostos dois estandartes do movimento abolicionista, que se reunia ali.
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— É uma igreja construída por negros e tem toda uma história das pessoas que um dia foram escravizadas, algumas alforriadas, mas que colocaram aqui o seu sangue. Eu a vejo como marco de resistência, de entrega e também de fé — define o padre Robson Cristo de Oliveira, reitor do templo desde 2023.
Fiéis e turistas que visitam a igreja se deparam com paredes descascadas e infiltrações. Logo na entrada, a fachada está com parte do reboco à mostra. Do lado de dentro, a pintura do teto está se soltando.
— Se pudesse fazer algo, eu faria. Também há outras igrejas com histórias igualmente incríveis que estão em situação precária — lamenta o entregador Fábio de Oliveira Martins, de 45 anos, que costuma frequentar o local com a família.
A Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos
Domingos Peixoto
Esperança de restauro
O quadro mais preocupante é o do museu, com paredes e teto tomados por mofo. O telhado do templo também precisa ser refeito, segundo o padre Robson, que aponta a necessidade de melhorias nas redes elétrica e hidráulica. O religioso contou que o Grupo de Patrimônio da Arquidiocese chegou a elaborar um projeto de restauração em 2021, mas não conseguiu arrecadar recursos para a execução.
Segundo ele, um novo plano começou a ser discutido com o Instituto Pedra, responsável, entre outras iniciativas, pela restauração do Palácio Itamaraty, também no Centro do Rio.
— Se Deus quiser, vamos angariar fundos para isso — diz o padre, estimando em mais de R$ 1 milhão somente a recuperação do museu.
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Devido à sua importância, o prédio, concluído em 1736, é tombado como Patrimônio Histórico Nacional desde 1938. O espaço foi catedral do Rio por sete décadas e a primeira igreja a receber a família real portuguesa em sua chegada ao Rio, no início do século XIX. Suas dependências abrigaram também reuniões do Parlamento. E, na igreja, foi redigido o Manifesto do Fico, pedindo a permanência de Dom Pedro I no Brasil, em 1821. O local guarda ainda os restos mortais do Mestre Valentim, um dos principais artistas do Brasil Colonial.
Recentemente, uma decisão do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) condenou os responsáveis pelo templo a restaurá-lo, com base numa ação civil pública do Ministério Público Federal (MPF). O imóvel, historicamente vinculado à Irmandade Imperial de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, desde 2018 está sob a gestão da Arquidiocese do Rio.
Esta última, por sua vez, respondeu que, “por se tratar de bem tombado, qualquer intervenção está sujeita ao cumprimento de etapas técnicas e legais” e que projetos de restauro já foram apresentados ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A Arquidiocese disse ainda que a responsabilidade pelas obras é objeto de discussão judicial na qual não figura como ré, mas como assistente do MPF. E afirmou colaborar dentro de suas atribuições com a preservação do patrimônio histórico, cultural e religioso. O GLOBO não conseguiu contato com a irmandade.
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