Palácio Tiradentes, no Centro do Rio de Janeiro, completa 100 anos enfrentando o esvaziamento
O Palácio Tiradentes completa 100 anos nesta quarta-feira (06) esvaziado de protagonismo e com uso reduzido desde que a Alerj transferiu as atividades para o Edifício Lúcio Costa, o "Banerjão", em 2021, a poucos metros dali.
Na época da mudança, a promessa era transformar o prédio histórico no Museu Casa da Democracia. Dois anos depois, a própria Alerj confirmou que o espaço passava por reformas para receber exposições imersivas sobre a história política do Brasil. Mais de 400 peças metálicas e cerca de 50 itens do mobiliário original chegaram a ser restaurados.
Mas, quando Rodrigo Bacellar assumiu a presidência no lugar de André Ceciliano, o projeto acabou abandonado.
Hoje, o Palácio mantém as tradicionais visitas guiadas e recebe, eventualmente, exposições de arte e apresentações musicais. Já o antigo plenário ficou restrito a solenidades pontuais, como entregas de medalhas e as sessões de abertura e encerramento do ano legislativo.
Ao longo de um século, o Palácio Tiradentes foi cenário de momentos decisivos da história do país, como posses presidenciais e promulgações de Constituições. Foi sede da Câmara dos Deputados quando o Rio ainda era capital do país. A inauguração, em 6 de maio de 1926, marcou justamente o centenário da primeira sessão legislativa do Brasil, ainda no período imperial.
O historiador da Diretoria-Geral da Alerj e autor de um livro sobre o prédio, Douglas Liborio, lembra que o Palácio foi o primeiro edifício construído no país para sediar um dos poderes da República.
"Ele foi feito em quatro anos, com técnicas modernas, com a aplicação do concreto armado, e com doação de materiais de todos os estados da federação. A ideia é que o prédio do parlamento fosse o Brasil em miniatura. Então, por exemplo, nós temos o plenário, que é doado pelo Estado de São Paulo; a sala da presidência, que é doada pelo Estado de Minas Gerais; e a sala das comissões, que é doada pelo Estado do Rio Grande do Sul."
Antes do Palácio, funcionava ali a antiga Casa de Câmara e Cadeia do Rio, conhecida como Cadeia Velha, centro administrativo do Brasil Colônia. Foi naquele local que Tiradentes ficou preso, em 1792, antes de seguir para a execução.
Diante de tanta história, o professor da UFF e ex-presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil, Pedro da Luz, avalia que o Palácio precisa retomar sua vocação pública.
"É um edifício bastante relevante no contexto do Rio de Janeiro, que merece ter uma reutilização, um retrofit que fique à altura dele. O Museu da Democracia talvez seja uma coisa meio vaga, mas um museu relativo à Inconfidência Mineira, eu acho muito interessante. É um traço da história da cidade que não está referenciado nela mesmo, mas está referenciada numa macrorregião brasileira."
Já o presidente da Alerj, deputado Douglas Ruas, afirma que o Palácio tem recebido atenção da Assembleia.
"Trata-se de um dos mais importantes equipamentos culturais, que tem recebido da Assembleia Legislativa especial atenção na sua manutenção, conservação e preservação de seu vasto e importante acervo. O Palácio é um valioso bem da população fluminense. O Palácio Tiradentes vem tendo uma utilização ativa e qualificada, ele se destaca por sua relevância histórica e cultural e está de portas abertas."
A diretora cultural da Alerj, Fernanda Figueiredo, acrescenta que o interesse pelo Palácio vem crescendo, por causa do valor histórico.
"Em 2024 tivemos 10 mil visitantes e em 2025 duplicamos; a gente chegou em 20 mil visitantes. Acho que isso mostra que o Palácio Tiradentes está se consolidando como um polo cultural mesmo. Ele faz parte desse corredor cultural da Praça XV, com outras instituições. A gente aumenta esse público, por exemplo, com escolas. São muitas escolas que a gente recebe aqui semanalmente, além do público espontâneo que passa pela Praça XV ou o turista de outras partes do estado do Rio de Janeiro."
Como parte das comemorações do centenário, a Alerj lança nesta quarta-feira um novo roteiro de visitas guiadas, voltado para as obras de arte e os detalhes arquitetônicos do edifício. A programação também inclui o lançamento de um selo comemorativo dos Correios e a entrega das "Medalhas do Centenário" a personalidades ligadas à trajetória do Palácio.
Procurada pela CBN, a Alerj não respondeu sobre o abandono do projeto do Museu da Democracia nem informou se existe algum plano para ampliar o uso público do Palácio Tiradentes.
