Palácio das Laranjeiras será aberto para visitação pública; relembre curiosidades e polêmicas de ex-moradores
Ricardo Couto, governador em exercício do estado do Rio, vai reabrir o Palácio das Laranjeiras para visitação pública. A notícia foi publicada em primeira mão pelo colunista Ancelmo Gois nesta terça (5). Construído entre 1909 e 1913, é a sede oficial dos governadores e já serviu de residência presidencial. O período de aberturas ainda não foi divulgado pelo chefe do executivo.
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Segundo comunicado, os primeiros visitantes serão estudantes de colégios públicos estaduais e grupos de interesse. "O objetivo é estruturar um modelo permanente de visitação. A iniciativa segue a estratégia do Governo do Estado de abrir e ativar espaços públicos, a exemplo do MIS Copacabana", informa.
Palácio Laranjeiras
Divulgação
Grupos de interesse também poderão ter a entrada permitida. A seleção será feita pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), que fará contato institucional com as universidades. A Secretaria Estadual de Educação fará a articulação com as escolas.
Em 2021, ano de início do governo Cláudio Castro, o palácio das Laranjeiras e o Guanabara foram abertos para visitação através do projeto Palácios do Povo. O programa foi suspenso na época da pandemia e nunca mais restabelecido. Atualmente, o site através do qual eram feitos os agendamentos está abandonado e sem atualizações.
Site do governo estadual que possibilitava visitas aos palácios Guanabara e Laranjeiras está abandonado desde a pandemia
Reprodução
O Palácio das Laranjeiras, construído por Eduardo Guinle entre 1909 e 1913, possibilita passeios pelo hall de entrada, pelo Salão Luís XIV, pela Sala de Música com o famoso piano inspirado no cravo de Maria Antonieta. Há ainda o fumoir (espaço para fumantes) e a sala de jantar, além da biblioteca que abriga o Bureau du Roi, a cópia fiel da escrivaninha de cilindro que pertencia ao Rei Luis XV da França e que está no Palácio de Versalhes; o Salão Império e a Galeria Regência.
Palácio Laranjeiras
Divulgação
Visitas também costumam incluir o Boudoir, ambiente íntimo da casa, que era associado ao espaço feminino, além do Quarto Luis XV, o Quarto des Enfants (quarto das crianças), o banheiro de Mármore e o elevador decorado em estilo rococó que foi um dos primeiros instalados em residências da América Latina.
— O Guinle foi um dos que queriam trazer a França para o Rio, então ele importa artistas e peças francesas para a obra. Tem muito luxo, muitos materiais nobres e muito art nouveau — disse a museóloga Natasha Mol ao GLOBO, em 2021.
Palácio Laranjeiras, na Zona Sul do Rio
Brenno Carvalho/2021
A família Guinle vendeu o imóvel para a União em 1946, quando ele passou a servir de uma sala de visitas para o Rio e de residência para presidentes convidados à cidade. Em 1956, o presidente Juscelino Kubitschek torna o palácio a residência oficial da presidência da república, e é dele que JK se despede para ir a recém inaugurada Brasília em 1960. Em 1975, na fusão do estado da Guanabara com o estado do Rio de Janeiro, ele se torna a residência do governador do novo Estado do Rio de Janeiro, sendo o governador Faria Lima o primeiro a morar lá.
Ex-presidentes como Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso usaram a estrutura para receber chefes de Estado como o ex-presidente da Rússia Dmitri Medvedev, em 2008, e o papa João Paulo II, em 1997, respectivamente. Em 2020, no entanto, outro tipo de atração fez com que os olhos se voltassem para a construção cuja fachada é inspirada no Cassino de Monte Carlo, em Mônaco. Em 2018, a Polícia Federal prendeu o então governador Luiz Fernando Pezão ehá seis anos, cumpriu no local mandados de busca e apreensão contra o governador afastado Wilson Witzel e sua mulher, Helena. Despejado a mando da Justiça, o casal ainda recorreu para tentar voltar ao palacete, onde construiu uma churrasqueira e trocou a bomba da piscina para o lazer dos três filhos. Dias antes de ser despejado, ainda era possível ver Witzel em confraternizações no local.
Palácio Laranjeiras, na Zona Sul do Rio
Brenno Carvalho/2021
Quem também transformou o Laranjeiras numa espécie de clube foi a família Garotinho. O ex-governador Anthony Garotinho, quando se mudou para lá, em 1999, com a mulher, Rosinha, e nove filhos, separou as alas social e íntima. Jornalistas que frequentaram o local na época em que o casal estava no poder contam que entrevistas eram a toda hora interrompidas pela movimentação das crianças que corriam pelos corredores. Os Garotinhos também criaram lá cachorros e um papagaio. Uma lavanderia foi transformada em quarto. O palácio é tombado pelo estado e pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A ex-governadora Benedita da Silva também habitou o Laranjeiras. A mudança da petista, que na época morava em Jacarepaguá, foi mais discreta. Benedita pouco ficou no palacete. Ela disse que, na verdade, usava o lugar mais para dormir quando o trabalho se estendia até tarde no Palácio Guanabara, sede oficial do governo, e para eventos sociais. Durante sua passagem pelo governo — que durou menos de nove meses, em 2002, num mandato tampão depois de Garotinho, de quem era vice, se candidatar à Presidência —, ela mesma preparou na antiga residência dos Guinles duas feijoadas: uma para sua equipe e funcionários do palácio e outra para jornalistas. O último a colocar as mãos nas chaves foi Cláudio Castro, que anunciou a penúltima reabertura.
O edifício tem um banheiro todo com peças esculpidas em blocos de mármore Carrara, móveis franceses que remetem à Belle Époque e o primeiro elevador instalado no Brasil, da Otis. A escrivaninha onde o governador despacha é uma réplica da de Luís XIV em Versalhes. Entre as pinturas, a mais emblemática é a que retrata o Rei Sol, por Rigaud (1659-1743). Há ainda obras do holandês Frans Post (século XVII); do francês Nicolas-Antoine Taunay (século XIX), que integrou a missão francesa trazido por Dom João VI em 1816; e uma datada de 1530, de uma nobre veneziana, por Moretto da Brescia, pintor italiano renascentista.
Historiadores afirmam que devido ao fato de Eduardo Guinle, à época da decoração, ser sócio da Companhia Docas de Santos, ele transformava o Palácio numa espécie de showroom dos materiais trazidos do exterior. O projeto do arquiteto Armando Carlos da Silva Telles traz referências a Luís XIV e ao deus Apolo, da mitologia grega. O hall principal tem piso em mosaico de mármore e pastilhas folheadas com ouro retratando o deus grego e um grande vitral francês junto às escadas do palacete. Nele, as águias remetem novamente ao Império e ao Rei Sol. De sombrio, a residência ainda guarda a mesa de mármore sobre a qual, em 1968, foi assinado o AI-5, que endureceu a ditadura militar no país.
