Países do Golfo buscam resolução na ONU para permitir o uso da força no Estreito de Ormuz; Rússia e China se opõem

 

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As monarquias árabes do Golfo Pérsico, que foram arrastadas para a guerra lançada por EUA e Israel contra o Irã, buscam aprovar no Conselho de Segurança da ONU uma resolução que abra caminho para o uso da força no desbloqueio do Estreito de Ormuz, fechado por Teerã desde o mês passado. A proposta pode ser votada em breve, mas a linguagem do texto, já modificada algumas vezes, ainda incomoda Rússia e China e, em menor escala, a França.

— Essas ações colocam em risco a segurança energética, o abastecimento alimentar e o comércio global — afirmou o chanceler do Bahrein, Abdullatif al-Zayani, afirmando que o fechamento da passagem viola a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, de 1982. — Estamos confiantes de que este projeto de resolução está em conformidade com o direito internacional. Aguardamos uma posição unificada deste estimado Conselho durante a votação que ocorrerá amanhã (sexta-feira).

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Em um tom acima, o secretário-geral do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC, que reúne as seis monarquias árabes que margeiam o Golfo Pérsico), Jassim Albudawi, disse que “a conduta desestabilizadora do Irã no Golfo excedeu todas as linhas vermelhas”. Ele instou o Conselho de Segurança a “usar todos os meios necessários” para proteger as rotas navais e a segurança do comércio marítimo. Ele completou dizendo que o GCC busca “relações normais” com o Irã, embora a relação esteja extremamente abalada após semanas de retaliações iranianas.

— Os Estados do Conselho de Cooperação do Golfo não buscam a guerra — continuou. — Eles buscam a paz, a segurança e a estabilidade que todos os povos merecem.

Mapa com navios que sofreram danos no Golfo Pérsico

AFP

De acordo com fontes diplomáticas, o rascunho de resolução apresentado pelo Bahrein prevê a autorização do Conselho de Segurança para que um Estado ou coalizão usem “todos os meios necessários” para reabrir Ormuz, por onde passam 20% da produção global de petróleo e gás. O bloqueio, aliado a declarações dos envolvidos na guerra, como o presidente americano, Donald Trump, fez com que preços de combustíveis disparassem, adicionando uma nova camada de risco inflacionário à economia mundial.

Apesar da expectativa do Bahrein de colocar o texto em votação já na sexta-feira, não há garantias de que ele será aprovado. Três países com poder de veto no Conselho — Rússia, China e França — apresentaram objeções, em diferentes graus, sobre o uso de termos associados ao Capítulo VII da Carta da ONU, que rege sobre ações armadas. Segundo a rede al-Jazeera, houve alterações, mas o teor ainda incomoda russos e chineses. Para eles, a resolução serviria como um aval oficial para ataques contra o Irã. Paris também busca amenizar o teor do texto, e assessorou o Bahrein durante sua elaboração para “maximizar a probabilidade de adoção e implementação subsequente do texto”.

— É hora de parar com esse jogo perigoso de brincar com fogo — disse o embaixador russo, Vassily Nebenzia, acrescentando que seu governo não concorda com o “desejo de forças de fora da região” de lucrarem com a “multiplicação de pontos de instabilidade crônica” no Oriente Médio. — Washington e Jerusalém Ocidental (Israel) não poderiam deixar de reconhecer o impacto muito sério de sua incursão militar para os países da região.

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Pouco antes da reunião em Nova York, o Reino Unido liderou o encontro com representantes de 40 países em busca de soluções para o Estreito de Ormuz. Na abertura, a chanceler britânica, Yvette Cooper, disse que o Irã conseguiu "sequestrar uma rota marítima internacional para manter a economia global como refém", destacando a “urgente necessidade” de reabrir a passagem.

— Essa imprudência iraniana em relação a países que nunca estiveram envolvidos neste conflito, que nós e 130 países em todo o mundo condenamos veementemente na ONU, não está apenas afetando as taxas de hipoteca, os preços da gasolina e o custo de vida aqui no Reino Unido e em muitos outros países do mundo, mas também está afetando nossa segurança econômica global — afirmou.

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LEON NEAL / AFP

Diplomatas europeus dizem que o foco neste momento é avaliar quais países estão dispostos a formar uma coalizão pró-reabertura, e analisar as ferramentas econômicas e políticas para convencer Teerã a liberar a passagem. Estima-se que cerca de 400 embarcações aguardem para fazer a travessia. Posteriormente, serão analisadas opções que envolvem ações militares — até agora, nenhum país se dispôs a se juntar à guerra de EUA e Israel no Golfo, tampouco a destacar seus contingentes para reabrir Ormuz à força, algo que a França diz ser inviável.

— Isso levaria um tempo indeterminado e exporia todos aqueles que se aventurassem por este estreito aos riscos costeiros da Guarda Revolucionária, bem como a mísseis balísticos — afirmou o presidente da França, Emmanuel Macron, durante visita à Coreia do Sul.