Países da Ásia garantem acordos com o Irã para que seus navios atravessem o Estreito de Ormuz, enquanto Trump eleva ameaças por acordo

 

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Enquanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaça "lançar o inferno" sobre o território iraniano caso a República Islâmica não chegue a um acordo com Washington pela liberação do Estreito de Ormuz, diversos países da Ásia já asseguraram a passagem de seus navios pelo canal marítimo por meio de acordos firmados diretamente com o Irã. Entre as nações que tiveram sucesso nas negociações com os iranianos estão alguns de seus principais aliados, como China e Rússia — também amplamente reconhecidos como rivais de Washington pela hegemonia do poder global — além de países que mantêm relações diplomáticas equilibradas com potências de ambos os hemisférios, como a Índia, e outros que chegaram a declarar estado de emergência energética por conta da queda brusca nos estoques de combustível, como as Filipinas, que dependem quase exclusivamente do petróleo que sai do Oriente Médio.

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Apesar dos anúncios públicos de liberação da passagem, os termos dos acordos entre empresas de navegação e o governo iraniano não foram divulgados. Portanto, ainda não está claro nem confirmado se esses países pagaram uma taxa para garantir a travessia de seus navios ou se o gesto das autoridades iranianas foi conquistado apenas por meio de negociações diplomáticas.

Especialistas e analistas internacionais avaliam que, independente de qual tenham sido os detalhes, o regime teocrático do país persa implementou uma espécie de "sistema de pedágio", seja pago em dinheiro ou em acordo político, numa via que deveria ser regimentada pelas leis marítimas internacionais e no momento está sendo controlada pela Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês). Apesar deste cenário, a França e a Itália iniciaram conversas com o Irã no mês passado.

Alguns analistas consideram ainda que o controle rigoroso do estreito vai além de uma tática de guerra, mas expõe planos de longo prazo do regime iraniano. Para eles, o bloqueio da passagem marítima pode criar uma oportunidade para que Teerã se reintegre à economia global e à diplomacia internacional após anos de isolamento impostos por sanções globais.

Liu Jia, pesquisadora do Instituto do Oriente Médio da Universidade Nacional de Singapura, disse em entrevista à revista Time que “se o Irã adotar uma estratégia de fechamento seletivo — visando os Estados Unidos, Israel e seus aliados, enquanto permite a passagem de países amigos”, países do Golfo “podem buscar reparar as relações com o Irã ou desenvolver rotas de exportação alternativas, o que poderia aumentar os custos no curto e médio prazo”.

A especialista acrescentou que os países do Golfo que sofreram ataques retaliatórios do Irã também podem ser “compelidos a reavaliar suas estratégias de defesa”, incluindo se “hospedar bases militares americanas aumenta sua segurança ou, inversamente, aumenta sua exposição a ataques” por parte de adversários dos EUA.

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Suficientemente amigáveis

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, chegou a nomear publicamente há duas semanas os países considerados suficientemente amigáveis ​​para garantirem a liberação da passagem de seus navios no estreito. Eram eles China, Rússia, Índia, Iraque e Paquistão.

“Muitos das empresas e dos países proprietários dessas embarcações, entraram em contato conosco e solicitaram que garantíssemos sua passagem segura pelo estreito. Para alguns desses países que consideramos amigáveis, ou em casos em que decidimos fazê-lo por outros motivos, nossas forças armadas garantiram a passagem segura”, afirmou Araghchi em entrevista à TV estatal iraniana.

Na ocasião, ele anunciou que o plano de restringir a passagem a embarcações aliadas "continuará no futuro, mesmo depois da guerra".

“Estamos em estado de guerra. A região é uma zona de guerra e não há razão para permitir a passagem de navios de nossos inimigos e seus aliados. Mas ela permanece aberta a outros”, acrescentou o chanceler iraniano.

A Índia foi um dos primeiros países a garantir passagem segura pelo Estreito de Ormuz. O ministro das Relações Exteriores indiano, Subrahmanyam Jaishankar, disse ao Financial Times em março que a autorização para travessia de seus petroleiros foi resultado de diplomacia. Na semana passada, a embaixada do Irã em Nova Déli chegou a publicar nas redes sociais que “nossos amigos indianos" estavam "em boas mãos”.

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A China, que é a maior compradora de petróleo do Irã, confirmou também na semana passada que alguns de seus navios navegaram pelo estreito, mas não forneceu detalhes. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores declarou apenas que "após coordenação com as partes relevantes, três embarcações chinesas transitaram recentemente pelo Estreito de Ormuz". O conselheiro de política externa do Kremlin, Yury Ushakov, declarou que "para nós, o Estreito de Ormuz está aberto", considerando que a Rússia é uma das maiores aliadas de Teerã.

Na mesma linha, sem se aprofundar nos termos do acordo, o ministro dos Transportes da Malásia, Anthony Loke, disse que seu país obteve garantias de passagem segura através de uma “boa relação diplomática com o governo iraniano”. Aproximadamente dois terços das importações de petróleo da Malásia provêm do Golfo. A embaixada iraniana no país do Sudeste Asiático adotou o mesmo tom do escritório na capital indiana e afirmou na segunda-feira que, após o primeiro navio malaio atravessar o estreito desde o início da guerra, que “o Irã não se esquece de seus amigos”.

As Filipinas, que importam 98% de seu petróleo do Oriente Médio, foram o primeiro país a declarar estado de emergência energética por conta do bloqueio de Ormuz. Apesar de seus laços estreitos com os EUA, o país se tornou na quinta-feira a mais recente nação asiática a garantir um acordo com o Irã, que a secretária de Relações Exteriores, Theresa Lazaro, descreveu como "uma conversa telefônica muito produtiva" com Teerã.

O Paquistão, que tem feito a intermediação de mensagens entre Washington e Teerã, anunciou em 28 de março que o Irã concordou em permitir a passagem de 20 de seus navios pelo estreito. Diante disso, Islamabad passou a abordar empresas internacionais de comércio de commodities para que registrassem temporariamente seus navios sob a bandeira paquistanesa, a fim de aproveitar a liberação da passagem, segundo publicou a Bloomberg.

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"Este é um gesto bem-vindo e construtivo por parte do Irã e merece reconhecimento", disse o ministro das Relações Exteriores do Paquistão, Ishaq Dar. "Diálogo, diplomacia e medidas como essa, que visam a construção de confiança, são o único caminho a seguir".

A Tailândia, que chegou a ter um navio graneleiro atacado por projéteis iranianos em março, também estabeleceu um pacto com o regime iraniano. O primeiro-ministro tailandês, Anutin Charnvirakul, anunciou o acordo em 25 de março, e um petroleiro tailandês cruzou a fronteira posteriormente sem pagar taxas, de acordo com o jornal britânico The Independent.

O Iraque, rico em petróleo, que faz fronteira com o Irã, também foi isento do bloqueio. No fim de semana, o Comando Militar Conjunto Khatam al-Anbiya, do Irã, anunciou a liberação, e Bagdá agradeceu pelo gesto. A lista de nações autorizadas a atravessar o estreito em segurança conta ainda com Japão, Indonésia e Turquia.

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Pedra no sapato de Trump

O bloqueio do importante canal, por onde normalmente saem do Golfo Pérsico cerca de 20% das exportações de petróleo e gás do mundo, tem sido uma pedra no sapato do líder americano desde o início da guerra. Dias após os primeiros bombardeios dos EUA e de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro, Teerã fechou a passagem com ameaças de atacar embarcações que tentassem cruzá-la, e chegou a bombardear algumas delas.

Apesar de declarar publicamente que os EUA não precisam importar combustível da região, Trump sabe que a ameaça iraniana sobre o estreito e a queda brusca na circulação de navios pela rota tem efeitos graves em todo o comércio mundial, não apenas no setor petrolífero.

Mesmo após ter tentado dividir a responsabilidade pela liberação do estreito ao sugerir que aliados enviassem navios de guerra à região e não ter seu pedido atendido por nenhum deles, Trump segue adiando e ampliando o prazo dos ultimatos contra o Irã e chegou a declarar na segunda-feira que "uma civilização inteira" morreria na noite desta terça-feira caso Teerã siga sem fechar um acordo com seu governo.

Neste momento, o presidente americano tenta elevar as ameaças contra o regime dos aiatolás para garantir a passagem livre de todo e qualquer navio pela via marítima, principalmente de seus aliados ocidentais, que não fazem parte da lista de beneficiados por acordos com Teerã.