Pais com ensino superior passam menos tempo trabalhando e mais cuidando dos filhos, diz pesquisa

 

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Pela primeira vez em uma geração, pais com diploma universitário estão dedicando substancialmente mais tempo à casa e aos filhos do que faziam apenas alguns anos atrás, muitas vezes reduzindo as horas de trabalho para conseguir isso.

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Essa mudança de comportamento revitalizou a redução das diferenças em relação às mulheres — tanto no trabalho não remunerado quanto no remunerado — que havia praticamente estagnado por mais de duas décadas. Entre o período de três anos encerrado em 2019 e o período de três anos encerrado em 2024, pais com ensino superior aumentaram em mais de quatro horas semanais o tempo dedicado às tarefas domésticas e ao cuidado dos filhos, ao mesmo tempo em que reduziram em seis horas o trabalho remunerado, segundo uma nova pesquisa.

“Nesse grupo de homens com ensino superior e filhos, estamos vendo algo próximo de uma substituição de um para um: menos trabalho remunerado e mais trabalho doméstico, o que é algo novo”, disse Ariel Binder, pesquisador do American Institute for Boys and Men e autor do estudo. “As mulheres realmente mudaram seu comportamento nas décadas que antecederam a pandemia, mas agora esse tipo de mudança de prioridade dentro do lar parece estar sendo impulsionado pelos homens.”

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O estudo compara segmentos de três anos de dados da Pesquisa Anual Americana sobre Uso do Tempo, divulgada pelo Bureau of Labor Statistics. A mudança no comportamento dos pais é particularmente acentuada entre casais com pelo menos um filho menor de 6 anos.

Entre casais de todos os níveis de escolaridade com filhos pequenos, as mulheres continuam realizando 14,8 horas semanais a mais de trabalho não remunerado do que os homens — desde cozinhar e limpar até cuidar das crianças.

Essa diferença, medida ao longo dos três anos encerrados em 2024, é 3,8 horas menor do que a observada nos três anos encerrados em 2019. Entre pessoas com ensino superior, essa diferença diminuiu em 4,5 horas por semana, chegando a 12,7 horas a mais de trabalho não remunerado realizado pelas mães jovens em comparação aos pais.

Homens estão assumindo mais tarefas domésticas com as parceiras

Getty Images via Bloomberg

Economistas consideram a parcela desproporcional de trabalho não remunerado assumida pelas mulheres como um dos principais obstáculos à participação e ao avanço delas no mercado de trabalho.

Kenji Yamauchi, editor de vídeos comerciais em Nova York, afirma que assumir cerca de metade das tarefas domésticas e dos cuidados com os filhos permitiu que sua esposa concluísse o doutorado e rapidamente conseguisse um emprego em tempo integral.

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— Quando minha filha nasceu, percebemos que praticamente a única coisa que eu não podia fazer era amamentar— disse Yamauchi, de 36 anos. — Cuidar de crianças é muito mais do que cuidar da criança; é garantir que a família funcione, que haja comida na mesa, garantir que todos tenham roupas limpas.

Grande parte do trabalho de Yamauchi pode ser feita remotamente, e seu chefe permite que ele conclua algumas tarefas tarde da noite ou nos fins de semana, o que possibilita manter o ritmo no trabalho.

Para muitos pais, no entanto, fazer mais trabalho doméstico não remunerado esteve diretamente relacionado a menos tempo dedicado ao emprego, segundo Binder. Entre casais casados ou que vivem juntos, a diferença entre as horas de trabalho remunerado dos homens e das mulheres diminuiu 29% entre os períodos de 2019 e 2024. Três quartos dessa diferença vieram da redução das horas trabalhadas pelos homens, e não do aumento das horas de trabalho das mulheres.

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O aumento do trabalho remoto provocado pela pandemia de Covid-19 pode ter sido um catalisador, dando aos pais mais tempo e flexibilidade em casa, disse Binder. Mas ele acrescentou que outros fatores também estão em jogo, incluindo o crescimento recente de empregos nas áreas de saúde e hospitalidade, que normalmente empregam mulheres.

Juntos, o trabalho remoto e a crescente demanda por empregos no setor de serviços explicam 44% dessa mudança, segundo os dados dele.

— Os dados são compatíveis com a ideia de que a pandemia teve algum efeito duradouro sobre as prioridades familiares e talvez até sobre normas de gênero— disse Binder. — Nessa teoria, houve uma mudança inicial, um gatilho acionado pela pandemia que não será facilmente desfeito.

Tom Knight, de 41 anos, do Brooklyn, estima que hoje seja responsável por 80% a 90% dos cuidados com os filhos e das tarefas domésticas depois de se tornar pai em tempo integral há três anos. Ele sonhava com uma aposentadoria precoce após 15 anos trabalhando como gerente de produto em empresas de tecnologia. Ele e a esposa haviam economizado e planejado o orçamento, mas, depois que a empresa em que trabalhava foi adquirida e ele demitido, decidiram dispensar a babá.

— Provavelmente o fator decisivo foi que ela gostava mais do trabalho dela do que eu gostava do meu— disse Knight, formado em Economia pela Universidade de Princeton.

Ele não sabe se voltará ao mercado de trabalho quando os filhos, hoje com 5 e 7 anos, forem mais velhos. Sua esposa continua trabalhando com marketing digital.

Os novos dados acompanham os avanços constantes das mulheres no mercado de trabalho. A participação de mulheres em idade produtiva na força de trabalho está próxima de um recorde histórico, e muito mais mulheres jovens estão obtendo diplomas universitários do que homens.

Mas outros estudos sugerem que os avanços das mulheres nos cargos mais altos do mundo dos negócios e da política estagnaram nos últimos anos.

No início de 2024, a S&P Global Market Intelligence alertou que uma pequena queda no número de mulheres em cargos de alta liderança pode representar um “alarmante ponto de virada” para as mulheres nos principais cargos corporativos.

Nos anos seguintes, ativistas jurídicos e o governo federal pressionaram empresas a abandonarem iniciativas e bolsas voltadas à diversidade, incluindo muitas destinadas a ajudar mulheres a avançarem profissionalmente.

Alguns economistas alertam que o aumento do envolvimento dos homens em casa pode não durar, especialmente à medida que empregadores revogam políticas de trabalho flexível.

— É muito difícil sustentar um novo comportamento quando o ambiente ao seu redor tenta empurrá-lo de volta às normas anteriores— disse Misty Heggeness, professora da Universidade do Kansas e ex-economista-chefe do Census Bureau.

Embora homens com ensino superior possam estar mais atentos ao trabalho não remunerado em casa do que gerações anteriores, Heggeness afirma que também atribui parte das mudanças recentes às mulheres.

— A vida familiar parece muito diferente porque as mulheres têm maior capacidade de ir embora se aquele não for o estilo de vida que desejam— disse ela. — Acho que os homens estão reagindo a isso.

Richard Reeves, presidente do AIBM, afirma que os dados mais recentes são uma das indicações mais marcantes até agora de que os homens jovens estão impulsionando uma há muito esperada “revolução da paternidade”, que fará deles parceiros mais igualitários dentro de casa.

— Estamos realmente vendo o termo ‘homem de família’ deixar de significar alguém que está no trabalho com fotos dos filhos sobre a mesa, para significar alguém ativamente envolvido na criação dos filhos— afirmou.