Páginas LGBTQIA+ são apagadas do Instagram, e caso chega ao MPF; Erika Hilton fala em censura e exige resposta da Meta

 

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Na semana do Dia Internacional de Luta contra a LGBTfobia, celebrado em 17 de maio, a derrubada de páginas e restrições de perfis ligados à comunidade LGBTQIA+ no Instagram acendeu um alerta entre comunicadores, ativistas e organizações de direitos humanos no Brasil. Os episódios acontecem em meio a um cenário mais amplo de flexibilização das políticas de moderação da Meta, responsável pela plataforma, levantando questionamentos sobre os impactos dessas mudanças na liberdade de expressão, na segurança digital e na visibilidade da população LGBTQIA+.

Nos últimos dias, importantes páginas brasileiras voltadas a informação, cultura e mobilização da comunidade foram removidas, como Pheeno, Universo LGBTI, Ezatamentchy, GayBlogBr e Comunidades LGBTQIA.

Criador do Ezatamentchy, Estêvão Delgado relembrou a trajetória do projeto ao afirmar que “o @ezatamentchy foi um dos perfis pioneiros na produção de conteúdo LGBTQIA+ no Instagram brasileiro, ajudando a moldar novas formas de comunicação e engajamento ainda nos primeiros anos da plataforma”. Segundo ele, o espaço se consolidou ao longo de mais de uma década como um polo de cultura, inclusão e impacto social.

O ativista também criticou a forma como as remoções vêm acontecendo, classificando a situação como alarmante. “É notório que o banimento simultâneo de diversas páginas LGBTQIA+ acontece de forma arbitrária e preocupante. Estamos falando de plataformas que, juntas, movimentam cultura, informação, entretenimento e transformação social”, disse Estêvão, destacando ainda o papel dessas iniciativas na construção de representatividade e visibilidade para a comunidade.

Os episódios ocorrem às vésperas do Mês do Orgulho LGBTQIAPN+, período marcado por campanhas de conscientização, mobilização política e ações de defesa da diversidade. Para especialistas e organizações, a remoção ou limitação de alcance dessas páginas pode comprometer diretamente a circulação de informações e o acesso a espaços digitais de apoio e denúncia, afetando especialmente grupos mais vulnerabilizados.

A preocupação não se restringe ao Brasil. Relatos semelhantes de restrições e queda de alcance de conteúdos LGBTQIA+ vêm sendo registrados em outros países, sugerindo um possível padrão internacional.

'É um escândalo'

Para Humberto Ribeiro, diretor do Sleeping Giants Brasil, o cenário é grave: “É um escândalo que um ano após a Meta passar a autorizar a disseminação de conteúdo de ódio [...] a empresa agora censure algumas das vozes mais importantes da comunidade LGBTI+ do Brasil”. Ele ainda afirmou que a organização pretende acionar a empresa e seus acionistas, além de recorrer ao Ministério Público Federal.

As críticas se intensificaram após mudanças promovidas pela Meta em janeiro de 2025, quando a empresa flexibilizou suas diretrizes e passou a permitir, em determinados contextos, publicações que associem orientação sexual ou identidade de gênero a “doença mental”.

Em resposta, o Ministério Público Federal instaurou um inquérito civil para investigar possíveis violações de direitos da população LGBTQIA+, questionando a retirada de proteções e cobrando esclarecimentos sobre as políticas adotadas.

Diante desse cenário, vozes políticas também se manifestaram. A deputada Erika Hilton classificou os acontecimentos como um ataque direto à comunidade: “É inadmissível que, justamente na semana de combate à LGBTfobia e às vésperas do Mês do Orgulho, a Meta promova um apagamento sistemático de páginas que informam, defendem e acolhem a nossa comunidade”.

Ela completou dizendo que “esse silenciamento digital covarde não é um mero erro de algoritmo”, e reforçou que seguirá cobrando “transparência e respeito”, destacando que a população LGBTQIA+ não aceitará ser invisibilizada “nem nas ruas, nem nas redes sociais”. Diante da escalada de denúncias, o caso reforça a urgência de transparência nas plataformas digitais e coloca no centro da discussão até que ponto decisões corporativas podem impactar diretamente a existência, a segurança e a voz da população LGBTQIA+ no ambiente online.