Padre excomungado no DF diz que a decisão foi por ter denunciado ‘eventos de macumba em templos católicos’

Padre excomungado no DF diz que a decisão foi por ter denunciado ‘eventos de macumba em templos católicos’

Fonte: Bandeira



Em carta aberta aos católicos de Brasília, divulgada nesta quinta-feira (16), o padre Françoá Costa, de 47 anos, excomungado pela Arquidiocese de Brasília, alega que a medida tomada pelo Vaticano foi motivada por uma denúncia que fez há quatro anos: a de que teriam ocorrido, em suas palavras, "eventos de macumba em templos católicos".

O sacerdote, que usou termo considerado pejorativo por lideranças de religiões afro-brasileiras, é ligado à Fraternidade São Pio X (FSSPX), grupo católico ultratradicional que se opõe às reformas da Igreja Católica promovidas pelo Concílio Vaticano II, nos anos 1960.

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O sacerdote argumenta que, por acreditar nas “verdades católicas”, denunciou, na Arquidiocese, os episódios que classificou como "macumba em templos católicos".

Um evento, segundo ele, teria sido realizado em uma paróquia de Sobradinho, em setembro de 2022, e outro realizado na Catedral de Brasília, em 9 de novembro de 2023.


Em nenhum momento, porém, Costa apresentou imagens, testemunhos ou qualquer outro tipo de comprovação do que teria ocorrido nessas ocasiões.

E, no caso do episódio na Catedral, os registros oficiais da própria Arquidiocese contradizem a versão do padre.

Em nota de esclarecimento divulgada em 13 de novembro, a Arquidiocese de Brasília explicou que o episódio citado por Costa se refere a uma apresentação da Orquestra Mundana Refugi, grupo musical formado por músicos brasileiros e por imigrantes e refugiados, realizada na Catedral Metropolitana em 9 de novembro.

Segundo o comunicado, o acordo previsto para o evento contemplava apenas a apresentação de coro e orquestra com temas tradicionais de diversos países — prática comum nas igrejas —, e ao final da apresentação houve uma manifestação espontânea de uma pessoa da plateia.


O maestro e diretor da Orquestra Mundana Refugi, Carlos Antunes, também se manifestou no documento.

Ele afirmou que o respeito por todas as culturas, religiões e templos é uma marca do trabalho do grupo, e que nenhum ato de dança estava programado como parte da apresentação — regra que, segundo ele, havia sido estabelecida como condição pela própria Catedral.


Antunes explicou que a dança espontânea ocorrida ao final da última música foi protagonizada por dois espectadores africanos que, segundo relataram a ele ao se despedirem, quiseram expressar gratidão pela experiência de ouvir música de seu país de origem naquele espaço.

"Isso faz parte da sua cultura e não demonstra, de forma alguma, desrespeito para com a religião católica", justificou o maestro.


O padre, no entanto, classificou o comunicado da Arquidiocese como uma "nota conciliadora".

"Como eu denunciei e o meu vídeo na época, em pouco tempo, viralizou, recebi uma ligação de alguém que falava em nome do Senhor Arcebispo para que eu retirasse o vídeo, o que, na época, eu fiz, pois talvez eu acreditasse na obediência cega que eles tanto apregoam", relata Costa na carta.

Em nenhum momento, porém, Costa apresentou registros, testemunhos ou qualquer outro tipo de comprovação do que teria ocorrido nessas ocasiões.

Também não detalhou em que consistiriam as práticas às quais se refere.

A única fonte das alegações é o próprio relato do padre, reforçado por um vídeo que ele mesmo gravou e posteriormente retirou do ar.

Segundo o sacerdote, no dia 13 de novembro de 2023, a Arquidiocese emitiu uma nota conciliadora.

“Como eu denunciei e o meu vídeo na época, em pouco tempo, viralizou, recebi uma ligação de alguém que falava em nome do Senhor Arcebispo para que eu retirasse o vídeo, o que, na época, eu fiz, pois talvez eu acreditasse na obediência cega que eles tanto apregoam”, relata Costa na carta.

Em 13 de novembro, a Arquidiocese de Brasília divulgou nota de esclarecimento sobre a apresentação da Orquestra Mundana Refugi, grupo musical composto por músicos brasileiros e por imigrantes e refugiados, realizada no dia 9 de novembro, na Catedral Metropolitana.

Segundo a Arquidiocese, ao final da apresentação ocorreu uma manifestação espontânea por parte de uma pessoa presente na plateia.


“O acordo do evento em questão, previa somente a apresentação de coro e orquestra, algo comumente presente em nossas igrejas, com temas tradicionais de diversos países.

No entanto, mesmo no fato ocorrido inesperadamente, não há elementos concretos que caracterizem, moralmente e canonicamente, profanação do templo”, destaca a Arquidiocese em nota.

No mesmo documento, o diretor e maestro da Orquestra Mundana Refugi, Carlos Antunes, afirma que o respeito por todas as culturas, religiões e seus templos é uma das marcas do trabalho e da prática diária.

Segundo ele, não haviam programado realizar qualquer ato de dança como parte da apresentação musical, pois sabiam que a regra foi estabelecida como condição fundamental pela Catedral.


“Assim, com relação à dança espontânea que ocorreu ao final da última música, por parte de dois expectadores africanos, somente podemos imaginar, e isso foi dito por ambos ao se despedirem, que o fizeram em agradecimento ao espetáculo pois para eles ouvir música de seu país naquele templo espetacular foi muito emocionante, alegre e inesquecível.

Suas manifestações foram feitas sem o nosso conhecimento.

Isso faz parte da sua cultura e não demonstra, de forma alguma, desrespeito para com a religião católica”, justifica Carlos Antunes na nota.

Situação recorrente

O padre pontua, ainda, que a situação com a Arquidiocese não é recente.

De 2021 a 2024, quando era administrador paroquial da Paróquia Senhor Bom Jesus, ele teria pregado contra "erros protestantes", mas não esclareceu quais erros seriam, e teria sido denunciado à Arquidiocese.

Ele diz que, quando soube da excomunhão, as primeiras palavras que pensou foram as mesmas do Apóstolo São Paulo, que diz “tudo sofro pelos escolhidos”.

Ele pontua, ainda, que em 22 anos de ministério não se dobrou ao “status quo por causa de benefícios e cargos”, além de ter que enfrentar diversos bispos para defender a própria consciência “enquanto amarrada à fé católica”.

Em vídeo publicado nesta quinta-feira, ele negou estar em cisma com a Igreja Católica e contestou a validade jurídica dentro do Direito Canônico da decisão.

Ele diz, ainda, que irá continuar a rezar missas na Capela Santo Atanásio e criticou o Concílio Vaticano II.

— O Concílio Vaticano II, essa terceira guerra mundial, dito de maneira espiritual, realmente entrou para destruir as grandes verdades da nossa fé e os costumes católicos que nós sempre guardamos — diz o padre no vídeo.

Excomunhão

O padre Françoá Costa destaca, na carta, que “não é verdade que seja cismático nem excomungado”.

Ele argumenta que foi considerado cismático e excomungado, por ter aderido formalmente às mesmas posições doutrinárias da Fraternidade São Pio X.


“Se bem é verdade que adiro formalmente às mesmas posições doutrinárias da FSSPX, por serem genuinamente católicos, não é verdade que eu seja cismático nem excomungado.

Apesar dessas declarações, sobre a minha comunhão com Deus ninguém pode me julgar, pois, neste foro interno, ‘quem me julga é o Senhor‘.

Os fiéis da Capela Santo Atanásio e eu não somos cismáticos, pois o cisma é a rejeição da submissão ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos.

Todos nós, católicos (tradicionais) nos submetemos ao Papa em tudo aquilo que é católico”, justifica.

O sacerdote faz, ainda, contrapontos sobre o que ele considera ser católico.

Segundo ele, “somente uma obediência cega e bastarda poderia aceitar tais infâmias contra o Depósito Sagrado da Fé”.

“Abençoar o pecado contra a natureza, como defendeu o Cardeal Fernández, não é católico; dar a comunhão aos adúlteros, como defendeu o Papa Francisco, não é católico; celebrar aniversários 'matrimoniais' de pessoas do mesmo sexo, como fez o Cardeal Radcliffe, não é católico; combater o sacerdócio enquanto reservado somente aos homens, como afirma o Cardeal Hollerich, não é católico; enfraquecer o celibato sacerdotal, como faz o Cardeal Reinhard Marx, com vias a eliminá-lo, não é católico”, denuncia Costa na carta.


O padre diz que não aguentava mais o sistema “perverso contra a fé católica instaurado pelo modernismo, pelo Concílio Vaticano II”, e defende que se vinculou à FSSPX para lutar “pela Roma eterna, pela verdadeira Igreja Católica”.

Ele recomenda que “qualquer bispo coerente, qualquer padre reto, deveria unir-se às posições da Fraternidade Sacerdotal São Pio X sem perder tempo”.

“Não podemos aceitar os erros do Concílio Vaticano II, entre eles, a liberdade religiosa, o ecumenismo, o humanismo horizontal, a reforma da Missa, a colegial-sinodalidade.

Se as condições para aceitar estar em plena comunhão com a Igreja é a aceitação do Concílio e da Missa nova, ficaremos ‘de fora’ por mais um tempo”, diz o padre.

*Estagiária sob supervisão de Alfredo Mergulhão