Um padre de 38 anos que teve as pernas amputadas, precisa comprar próteses com urgência e conta com a ajuda de uma idosa e de um coroinha de 14 anos para seguir a rotina.
A história, compartilhada milhares de vezes nas redes sociais e acompanhada de pedidos de doações via Pix, tem um problema central: nenhum deles existe.
Os personagens foram criados com inteligência artificial e fazem parte de um golpe para arrecadar dinheiro de fiéis.
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A fraude começou a ser desvendada em Valinhos, no interior de São Paulo, depois que Reginaldo Jesus Flor, de 80 anos, desconfiou de um vídeo do suposto “Padre Mateus”.
Acostumado à estrutura da Igreja Católica, ele estranhou tanto as imagens quanto o pedido de dinheiro e procurou o filho para analisar o material.
— Se um padre tem uma situação dessa, com certeza a diocese daria toda assistência para esse padre — afirmou Reginaldo ao UOL, que revelou a fraude.
Felipe Zangari, jornalista e teólogo, analisou a gravação e percebeu problemas na sincronia entre a fala e o movimento da boca do personagem.
— O mexer dos lábios não era um negócio normal — disse.
Ao simular uma transferência pelo link divulgado na campanha, Zangari encontrou outros indícios da fraude.
Padre, idosa e coroinha criados por IA
O “Padre Mateus” aparece em um vídeo impulsionado pela página “Caminhada Curta”, criada no Facebook em 18 de agosto.
Na história apresentada aos usuários, o sacerdote teria 38 anos, amputado as pernas e precisaria arrecadar dinheiro para comprar próteses.
A narrativa estabelece ainda um prazo para aumentar a sensação de urgência: haveria apenas quatro meses para conseguir o dinheiro antes que a musculatura das coxas do suposto padre atrofiasse.
A campanha não se limitou ao sacerdote.
Outros personagens foram criados com inteligência artificial para dar sustentação à história, entre eles “dona Lourdes”, apresentada como uma mulher de 72 anos que ajudaria o padre, e “Enzo”, um suposto coroinha de 14 anos.
O conteúdo alcançou milhares de visualizações e mais de mil compartilhamentos.
Nos comentários, enquanto alguns usuários ofereciam orações e demonstravam interesse em doar, outros passaram a alertar que a campanha seria uma fraude.
Doações levam a empresa de Florianópolis
Segundo a apuração do UOL, quem decide contribuir é direcionado ao site “Ande com Padre Mateus”, registrado de forma oculta no mesmo dia em que foi criada a página no Facebook.
Ao simular o Pix, o beneficiário identificado é a Gestão Solidar Digital LTDA, de Florianópolis.
A reportagem encontrou uma série de inconsistências nos dados ligados à operação.
O e-mail cadastrado pela Gestão Solidar na Receita Federal está associado à marca Lemes Magazine.
Já os pagamentos via Pix aparecem relacionados ao nome de “Helena Farias”, mas o CPF informado pertence a uma idosa de Goiás, segundo a apuração.
Não há indicação de que ela tenha conhecimento do uso dos dados.
Os pagamentos são intermediados pela fintech Cartwave.
O telefone cadastrado pela empresa, ainda segundo a reportagem, pertence a uma barbearia de Goiânia.
O UOL tentou contato pelos números associados à Gestão Solidar, Lemes Magazine e Cartwave e enviou pedidos de esclarecimento por e-mail, mas não recebeu resposta até a publicação da reportagem.
