No final de setembro, o novo embaixador da Rússia na Coreia do Norte prestou homenagem a dois monumentos em Pyongyang que marcam o início e o fim de quase oito décadas de história compartilhada entre os dois países. A mídia oficial mostrou Andrei Podelyshev visitando primeiro a Torre da Libertação Soviética, que homenageia as tropas do Exército Vermelho às quais a Coreia do Norte atribui a libertação da Península Coreana do domínio japonês em 1945. Em seguida, ele depositou flores em uma estátua de soldados em frente a um novo museu em homenagem aos norte-coreanos enviados há dois anos, neste mesmo mês, para lutar contra as forças ucranianas na região de Kursk, na Rússia. As duas homenagens retratam uma inversão impressionante: Moscou outrora ajudou a criar o Estado norte-coreano; agora, soldados norte-coreanos morrem em defesa da Rússia. A guerra na Ucrânia foi o catalisador que mostrou a ambos os governos o quanto podem ser úteis um ao outro — e como seu relacionamento perdurará para além do conflito de quase cinco anos no Leste Europeu. “A interdependência entre as duas nações tornou-se mais forte do que nunca”, disse Thae Yong-ho, ex-vice-embaixador norte-coreano no Reino Unido que desertou para a Coreia do Sul em 2016. “A Coreia do Norte mostrou à Rússia o seu valor — o quão importante a Coreia do Norte poderia ser se a Rússia quiser continuar com esse tipo de política imperial na Europa.” “Enquanto a Rússia tiver dinheiro do petróleo e do gás, poderá usar a Coreia do Norte para levar adiante essa política. Essa interdependência continuará porque a Coreia do Norte também se beneficiou muito”, disse Thae ao Nikkei Asia. Autoridades sul-coreanas e ucranianas afirmam que a Coreia do Norte está fornecendo munição e soldados à Rússia, além de mão de obra civil que opera sob estrita supervisão, de acordo com observadores de direitos humanos, para manter em funcionamento canteiros de obras, fazendas e fábricas em todo o setor manufatureiro russo. Esses trabalhadores serão ainda mais requisitados quanto mais a guerra na Ucrânia se prolongar, e muito além de seu presumido fim, à medida que a escassez de mão de obra em Moscou se agravar. Uma estimativa da inteligência britânica, em setembro, contabilizou 1,5 milhão de baixas russas desde fevereiro de 2022, com meio milhão de mortes. Citando informações da inteligência ocidental e seus próprios relatórios, a BBC estimou as baixas norte-coreanas entre 6.000 e 7.000, incluindo até 2.300 mortes. Yeji Kim, assessora para assuntos da Coreia do Norte na Global Rights Compliance, uma organização internacional de direitos humanos sediada em Haia, estima que entre 30.000 e 50.000 norte-coreanos possam estar trabalhando atualmente na Rússia. “Mesmo que a guerra terminasse hoje”, disse ela, a Rússia poderia enfrentar “cinco ou dez anos de escassez sistemática de mão de obra”. Em contrapartida, analistas afirmam que Pyongyang está recebendo moeda forte, experiência em combate, conhecimento militar e um dividendo diplomático — uma via para a cooperação intnacional além da China, sua aliada tradicional . Segundo um relatório de março do Instituto de Estratégia de Segurança Nacional, com sede em Seul, a Coreia do Norte arrecadou entre US$ 7,7 bilhões e US$ 14,4 bilhões com apoio militar à Rússia ao longo de dois anos. A Equipe Multilateral de Monitoramento de Sanções (MSMT, na sigla em inglês), criada para acompanhar a eficácia das sanções das Nações Unidas contra a Coreia do Norte, estima que cada trabalhador receba cerca de US$ 7.500 por ano — quase todo esse valor retorna a Pyongyang. Moscou bloqueou novas ações das Nações Unidas contra a Coreia do Norte, minando o próprio regime de sanções que outrora ajudou a construir. Trata o país como um parceiro estratégico com armas nucleares, e não como um cliente isolado. O conflito na Ucrânia também criou interesses comuns que não existiam quando começou, disse uma pessoa com conhecimento do pensamento do Kremlin, falando sob condição de anonimato devido à sensibilidade do assunto. “A Coreia do Norte possui um complexo militar-industrial muito poderoso, construído ao longo de décadas. Agora, encontrou um mercado na Rússia, enquanto a Rússia encontrou um fornecedor muito conveniente”, disse a fonte ao Nikkei Asia. “A mão de obra é barata e seus padrões são baseados nos padrões russos. A base industrial militar norte-coreana poderia, portanto, ser usada para reconstruir os arsenais russos por um longo tempo.” Estimativas da Ucrânia e da Coreia do Sul indicam que a Coreia do Norte enviou aproximadamente entre 14.000 e 16.000 soldados de combate para a Rússia desde o final de 2024. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou em 28 de setembro que mais de 8.000 deles estavam em território russo e outros 10.000 estavam sendo selecionados para treinamento e possível envio. Analistas e diplomatas afirmam que a relação entre os países provavelmente sobreviverá aos mandatos do presidente russo Vladimir Putin e do líder norte-coreano Kim Jong Un, e que sua durabilidade continuará a ameaçar a paz tanto no Leste Asiático quanto na Europa. Sergiy Korsunsky, ex-embaixador da Ucrânia no Japão, considera a cooperação “um perigo claro e iminente” para a Ucrânia, a Europa e o Leste Asiático. A Rússia e a Coreia do Norte assinaram um tratado de parceria estratégica em 2024, incluindo um compromisso de defesa mútua. E uma nova ponte rodoviária inaugurada em 7 de setembro sobre o rio Tumen — que marca a curta fronteira compartilhada entre os dois países no extremo nordeste do território norte-coreano — deverá aumentar o fluxo de mercadorias, equipamentos militares e pessoas entre as nações. Kim descreveu as relações com Moscou como uma “prioridade máxima” e, em uma mensagem de aniversário para Putin em 7 de outubro, afirmou que fortalecer a aliança era uma “opção inabalável”. Em agosto, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse ao seu homólogo norte-coreano que seus países estavam trabalhando para estabelecer uma “nova e justa ordem mundial”. Mesmo com o presidente dos EUA, Donald Trump, enfatizando seus laços pessoais com Kim Jong-un e sugerindo a possibilidade de um novo encontro entre os dois para diminuir as tensões na península coreana, a parceria com a Rússia também pode reduzir o incentivo de Kim para negociar com Washington. Stephen Biegun, ex-representante especial dos EUA para a Coreia do Norte, argumenta que o dinheiro russo, o alívio das sanções e a tecnologia tornaram Pyongyang menos receptiva a negociações com os EUA que poderiam comprometer seus laços com Moscou. Fyodor Tertitskiy, historiador da Universidade da Coreia em Seul, divide a relação entre Moscou e Pyongyang em quatro eras. Desde a fundação da Coreia do Norte em 1948 até 1957, ela foi efetivamente um satélite soviético, afirmou. Até 1990, Kim Il-sung explorou a divisão entre a China e a União Soviética para obter apoio tanto de Moscou quanto de Pequim. Após o colapso soviético, as relações permaneceram em grande parte frágeis até 2023. Hoje, segundo Tertitskiy, a parceria é impulsionada principalmente pela necessidade da Rússia de obter armas e mão de obra norte-coreana. “Isso não é apenas o pensamento pessoal de Putin sobre a Coreia do Norte”, disse ele. “Por meio da guerra na Ucrânia, toda a elite e a liderança russa aprenderam a usar o fator norte-coreano a seu favor.”
Pacto entre Coreia do Norte e Moscou deve ir além da guerra na Ucrânia
Fonte da notícia:
Valor
Valor
Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?
Acessar matéria no site Valor