Descoberta pode levar ao desenvolvimento de novos medicamentos Getty Images
Grande parte das pesquisas sobre o Alzheimer busca formas de lidar com os acúmulos nocivos da proteína beta-amiloide, que se formam entre os neurônios no cérebro de pessoas com a doença. Com esse objetivo, pesquisadores da startup Lifemission e da Academia Russa de Ciências desenvolveram , relat (Ac-His-Ala-Glu-Glu-NH2), projetado para impedir a formação desses aglomerados ao bloquear íons de zinco — que, acredita-se, atuam como uma espécie de "cola" biológica.
Em testes realizados com camundongos, o peptídeo demonstrou reduzir a quantidade de placas de beta-amiloide no cérebro. Agora, surge uma reviravolta: ao desenvolverem um método para medir o HAEE no sangue humano — um passo necessário para a realização de ensaios clínicos —, os pesquisadores descobriram que o peptídeo já estava presente nas amostras coletadas de 150 voluntários saudáveis, relata o Science Alert.
Na sequência, perceberam algo ainda mais interessante: as amostras de sangue de pessoas com Alzheimer apresentavam, em média, metade dos níveis de HAEE encontrados no grupo de controle (indivíduos saudáveis). Isso sugere que a molécula pode, inclusive, servir como um biomarcador da doença.
Os resultados foram publicados na revista PNAS Nexus. "Descobrimos que o sangue humano contém uma réplica endógena desse peptídeo e que sua concentração é drasticamente reduzida em pacientes com diagnóstico clínico de doença de Alzheimer", escrevem os pesquisadores no artigo publicado.
"Nossas descobertas revelam uma nova molécula presente no corpo humano e sugerem que a deficiência endógena de HAEE desempenha um papel significativo na patogênese da doença de Alzheimer." O passo seguinte é desenvolver um tratamento a partir dessas descobertas.
Antes que um medicamento utilizando essa molécula possa ser testado em um ensaio clínico, porém, os cientistas precisam saber como ele é metabolizado no sangue ao longo do tempo e qual dosagem seria segura para os pacientes. "A deficiência de HAEE no sangue de pacientes com diagnóstico clínico de doença de Alzheimer pode ser causada pela supressão da produção normal de HAEE e/ou pelo seu consumo excessivo, decorrente da resposta do organismo a diversos tipos de estresse associados à patogênese da doença de Alzheimer", escrevem os autores do estudo.
É possível que, na doença de Alzheimer, o organismo produza menos HAEE, ou que a substância seja consumida mais rapidamente à medida que a doença avança; no momento, porém, os pesquisadores ainda não têm certeza - para confirmar uma das hipóteses, serão necessários testes adicionais.
Sabe-se que as placas de beta-amiloide tendem a surgir precocemente na doença de Alzheimer — por vezes, anos antes do aparecimento de outros sintomas. Isso fortalece a possibilidade de o HAEE servir como um sinal de alerta para a condição, caso essa aplicação possa ser mais bem desenvolvida — embora este estudo tenha analisado apenas indivíduos que já possuíam o diagnóstico.
"A deficiência de HAEE endógeno pode ser considerada um potencial biomarcador sanguíneo para o diagnóstico da doença de Alzheimer, enquanto o HAEE sintético exógeno poderia atuar como um fármaco em terapias voltadas a modificar o curso da doença", escreve a equipe. Os pesquisadores reconhecem algumas limitações em seus achados.
Como os diagnósticos de Alzheimer basearam-se exclusivamente em avaliações clínicas — sem o uso de exames de imagem cerebral ou testes de biomarcadores —, é possível que alguns pacientes apresentassem outras formas de demência. Além disso, houve variações de idade entre os pacientes com Alzheimer e o grupo controle (indivíduos saudáveis), o que pode ter influenciado os resultados.
Vale notar, ainda, que os níveis de HAEE não variaram de forma significativa de acordo com a gravidade da doença de Alzheimer. Vale ressaltar também que o estudo foi financiado pela startup Lifemission, que detém patentes relacionadas ao HAEE como um exame de sangue para a doença de Alzheimer.
Dois dos pesquisadores do estudo também possuem vínculo com a empresa. Mesmo com essas ressalvas, trata-se de uma descoberta significativa no estudo da doença de Alzheimer e nos esforços em busca de uma cura.
Sabemos que é uma doença complexa, com diversas facetas, e o HAEE pode vir a ser uma delas. "A descoberta de que um peptídeo, criado anteriormente com o objetivo de reduzir a carga amiloide na doença de Alzheimer, possui uma réplica endógena no plasma sanguíneo humano é notável", escrevem os pesquisadores.
"No entanto, é igualmente significativo o fato de que os níveis desse peptídeo encontram-se reduzidos em pacientes com a doença de Alzheimer."
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