Paciente com risco de infecção generalizada e internada há duas semanas em hospital de Niterói é transferida após decisão judicial
Na última quarta-feira (28), uma paciente internada por duas semanas no Hospital Municipal Carlos Tortelly só conseguiu ser transferida para uma unidade capaz de realizar angioplastia após decisão judicial. O caso expõe a dificuldade de acesso a procedimentos de alta complexidade na cidade e a dependência das redes estadual e federal para atendimentos urgentes.
Lei Seca no Mar chega a Niterói: Fiscalização mira condutores alcoolizados e abusos com jet skis
Acusado de matar 18 pessoas: Traficante é preso em casa onde mantinha família em cárcere privado em Niterói
A paciente deu entrada na unidade municipal no dia 15 de janeiro com quadro de oclusão arterial em membro inferior, associado a cianose e necrose em um dos dedos do pé, segundo laudo médico. O documento aponta risco de progressão da necrose e infecção generalizada e indica a necessidade de angioplastia com implante de stent em caráter de urgência. O Hospital Carlos Tortelly, no entanto, não realiza o procedimento.
De acordo com a Secretaria municipal de Saúde, o nome da paciente foi inserido na Central Estadual de Regulação no dia seguinte à internação, já que a angioplastia é considerada um procedimento de alta complexidade, realizado em unidades estaduais ou federais. Sem responder sobre como está a situação de fila para angioplastia e outros procedimentos de alta complexidade na cidade, o órgão informou ainda que a paciente permaneceu internada, acompanhada por equipe multiprofissional, enquanto aguardava a liberação da vaga.
O Hospital Universitário Antonio Pedro (Huap), que é a única unidade da rede pública de Niterói a realizar angioplastia, informou que recusou a paciente por não atender casos de necrose.
A transferência só ocorreu após a Defensoria Pública do Estado entrar com ação na Justiça. Em decisão na quarta, a 4ª Vara do Juizado Especial da Fazenda Pública de Niterói concedeu tutela de urgência e determinou que o município e o estado providenciassem, em até dois dias, a remoção da paciente para uma unidade da rede pública com capacidade para realizar a angioplastia, sob pena de multa diária de mil reais. Na decisão, a juíza destacou o risco de agravamento do quadro clínico e afirmou que não restou alternativa à família senão recorrer ao Judiciário.
A Secretaria de Estado de Saúde informa que a vaga foi liberada no Instituto Estadual de Cardiologia Aloysio de Castro (Iecac), no Rio, e que a angioplastia na paciente está prevista para a próxima quarta (4). O Complexo Estadual de Regulação explica que, no caso de pacientes internados, a transferência para a realização de angioplastia depende de leito livre nas unidades habilitadas. “Já para pacientes ambulatoriais, inseridos no Sistema Estadual de Regulação pela Atenção Primária, o tempo de espera para agendamento de consulta no recurso é de 18 dias. Atualmente há 42 pessoas em fila, em todo o estado”, diz a nota.
Diretor do Sindicato dos Trabalhadores Federais em Saúde e Previdência no Estado do Rio (Sindsprev Niterói) e funcionário do Carlos Tortelly, Sebastião José destaca que o caso não é isolado e revela um gargalo antigo no atendimento à alta complexidade.
— Esse não é um problema só de Niterói. Os municípios não conseguem atender à demanda de alta complexidade, e isso se repete em vários casos, como infartos e AVCs. Muitas vezes, a espera por um procedimento urgente leva 15, 20 dias — afirma.
Segundo ele, a judicialização tem se tornado o único caminho para garantir o atendimento.— Todo dia tem um caso rodando na ambulância, tentando vaga, porque uma unidade não aceita, outra não tem capacidade. Se não houver uma discussão séria entre município, estado e União, vai continuar morrendo gente — diz.
José também defende que, diante da falta de estrutura, o poder público busque alternativas para garantir o atendimento:
— Em casos de alta complexidade, é preciso comprar serviço, fazer convênios, garantir que o paciente seja atendido. Falar em fluxo normal quando há risco de morte não resolve. Muitos casos também poderiam ser evitados se houvesse uma política mais eficaz de atenção primária.
Initial plugin text
