Paciência tem limites

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Fonte da notícia: Carta Capital Carta Capital

O retorno frustrante dos investimentos em IA derruba papéis das big techs Na sexta-feira 30, o pregão das bolsas de Nova York terminou com ares de balanço de guerra.

O índice Nasdaq 100 chegou a perder mais de 1 trilhão de dólares em valor de mercado ao longo do dia, no pior desempenho desde junho. A Intel, cujas ações quase quadruplicaram entre janeiro e junho, caiu 28,6% e viveu o pesadelo de 1974.

Na véspera, a Alphabet, dona do Google, perdeu cerca de 500 bilhões de dólares em valor. Quem acompanha o mercado conhece o roteiro.

Primeiro vem o entusiasmo, depois a promessa de lucros que só o futuro pode confirmar e, por fim, a hora em que alguém pede para ver o caixa. Outubro foi essa hora para as big techs, e a especulação cobrou a fatura.

Os números dos últimos pregões dão a medida do susto. O Nasdaq 100 caminhou para perder no mês mais de 2 trilhões de dólares, quase o equivalente ao PIB brasileiro de 2025, de 2,27 trilhões.

Mais da metade das ações anda em baixa, com recuo de 20% ou mais. A Amazon derreteu depois de confirmar investimento de quase 220 bilhões de dólares em 2026 e prometer gastar mais em 2027.

A Intel conta uma história própria. O negócio de data center cresceu quase 80% em um ano, mas a empresa projetou resultados fracos no mercado futuro de PCs, pressionados pelo preço da memória, que disparou por conta da promessa de uso para Inteligência Artificial.

Depois de quase quadruplicar até o recorde de 22 de junho, a ação devolveu mais da metade do valor. Quando uma cotação sobe quatro vezes em meio ano, depois despenca, é a especulação a falar mais alto do que qualquer outro fundamento.

A Alphabet mostra o mecanismo com nitidez. Faturou 127,6 bilhões de dólares no trimestre, alta de 25%, e a nuvem do Google avançou 103%.

As ações caíram mais de 12% no dia seguinte, pois o fluxo de caixa livre ficou negativo em 9,1 bilhões de dólares pelo segundo trimestre seguido, com investimentos de 51,4 bilhões no período. A Microsoft, com a nuvem em alta de 48% e caixa positivo, caiu menos.

O balanço da Alphabet traz um detalhe revelador da era da especulação. No segundo trimestre, as participações em empresas como SpaceX e Anthropic renderam 99 bilhões de dólares em ganhos contábeis.

No terceiro, a mesma linha registrou perda de 8,66 bilhões. Parte da riqueza declarada depende de quanto o mercado aceita pagar por apostas em empresas de IA, e esse preço muda a cada trimestre.

O prospecto da Anthropic, protocolado em 26 de outubro, acrescenta um elo ao circuito. Segundo a mídia sul-coreana, a empresa se comprometeu a pagar em torno de 114,5 bilhões de dólares ao Google por computação até 2033, e o Google detém mais de 5% do capital.

Quem investe e quem vende serviços se confundem, e parte do dinheiro aplicado volta em forma de encomenda. As cinco gigantes do setor assumiram compromissos de 969 bilhões de dólares em infraestrutura de Inteligência Artificial

O desenho lembra ciclos anteriores. No fim dos anos 1990, a febre da internet levou as empresas de telecomunicações a instalar fibra óptica muito além da demanda, em parte financiadas pelos próprios fornecedores de equipamentos, e a Nasdaq levou 15 anos para recuperar o pico.

Agora o índice de preço sobre lucro (P/L) ajustado pelo ciclo, criado pelo economista Robert Shiller, fechou outubro em 40,13, patamar próximo àquele do auge da bolha do fim do século. Durante anos, as big techs financiaram a expansão com o caixa de negócios muito lucrativos.

Em 2026, o dinheiro passou a vir do mercado de títulos. Alphabet, Amazon, Meta e Oracle emitiram mais de 228 bilhões de dólares em bônus até meados de outubro, segundo a LPL Research.

A Moody’s estimou em setembro que as cinco gigantes do setor assumiram compromissos de 969 bilhões de dólares em infraestrutura de IA, dos quais 662 bilhões em arrendamentos de data centers que ainda nem começaram. O mercado cobra o risco.

Dos 91 bônus do setor emitidos em 2026 com preços comparáveis, 78 negociavam com prêmio de risco maior no fim de outubro do que na emissão, aponta a LPL. Os títulos conversíveis tiveram em outubro a pior queda desde 2008, de 6,4%, segundo o Barclays.

O seguro contra calote da Oracle chegou a 294 pontos-base, ante apenas 38 dois anos antes, e a Moody’s manteve a nota da empresa dois degraus acima do especulativo, com perspectiva negativa. O custo extrapola Wall Street.

Os títulos longos das big techs disputam compradores com o Tesouro dos EUA, o que eleva os juros longos. O rendimento do título de dez anos tocou 5,36% em outubro, o maior desde 2002.

O estrategista global da Avenue, Fernando Saad Benati, enxerga o movimento como reavaliação de preços e diz que o mercado passou a exigir maior clareza sobre quando o investimento vai virar caixa. Segundo ele, o acionista pode enfrentar corte de recompras e diluição, e o credor tem retorno limitado ao contrato, exposto ao risco de companhias alavancadas sem dividir os ganhos extraordinários dos projetos.

O economista Paul Krugman, Nobel de Economia, escreveu que o dinheiro para essa corrida vai faltar e que muitos projetos de data centers serão abandonados. Ele calcula investimento superior a 10 trilhões de dólares se todos os planos saírem do papel e pede supervisão financeira mais rigorosa, diante de dívida privada, arrendamentos fora do balanço e garantias de Nvidia e big techs a construtoras de data centers.

No Brasil, o efeito depende da natureza do movimento, segundo Saad. Numa aversão generalizada ao risco, posições em mercados emergentes costumam ser desfeitas antes, o que pressiona a Bolsa e valoriza o dólar.

A exposição direta da B3 a tecnologia é pequena, e o índice se concentra em commodities e bancos, setores cíclicos que pouco ganham com a busca global por segurança. Em Wall Street, cada ciclo de especulação ganha uma tecnologia nova.

Antes foram as ferrovias, depois a internet, agora são chips e data centers pagos em parte com bônus de 30 e 40 anos. As máquinas podem até render o que custaram.

A resposta só virá em 2027, ano em que Alphabet e Amazon prometem gastar ainda mais. Quando o sino dobra em Nova York, o som costuma alcançar muita gente que nunca fez aposta alguma.

• Publicado na edição n° 1438 de CartaCapital, em 11 de novembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Paciência tem limites’ Allan Ravagnani Jornalista com especializações em Finanças, Macroeconomia e Ciência Política.

Nas últimas duas décadas trabalhou em veículos como Valor Econômico, Istoé Dinheiro e Folha de S.Paulo. Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu.

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