Pablo Escobar brasileiro: Justiça da Bélgica decide próximos passos de megaprocesso nesta sexta
Chamado de “Samba” pela imprensa europeia, o megaprocesso que investiga uma suposta rede internacional de tráfico ligada ao brasileiro Sérgio Roberto de Carvalho, conhecido como “Pablo Escobar brasileiro”, terá nesta sexta-feira (22) mais um capítulo na Justiça da Bélgica após meses de impasses, trocas de magistrados e disputas entre defesa e tribunal.
A corte belga deve anunciar uma decisão sobre os pontos discutidos nas audiências realizadas em 16 e 17 de abril, quando os advogados dos réus voltaram a questionar a condução do caso e a legalidade de etapas do julgamento retomado neste ano em Bruxelas.
O processo apura o envio de grandes carregamentos de cocaína da América do Sul para a Europa, principalmente pelos portos de Antuérpia, na Bélgica, e Roterdã, na Holanda. As autoridades europeias apontam Carvalho e o belga Flor Bressers como figuras centrais da estrutura investigada. Segundo a acusação, o grupo teria movimentado ao menos 45 toneladas de droga entre 2017 e 2019.
A investigação se espalhou por vários países e passou a ser tratada como uma das maiores ofensivas recentes contra o narcotráfico no continente europeu. O caso envolve interceptações obtidas em plataformas criptografadas usadas por organizações criminosas, empresas suspeitas de servirem como fachada para operações logísticas e movimentações financeiras ligadas ao esquema.
A nova fase do julgamento começou em abril sob forte esquema de segurança no complexo Justitia, em Bruxelas, o mesmo utilizado em processos de terrorismo e crime organizado de grande porte na Bélgica. Os principais acusados chegaram escoltados por agentes armados, enquanto o entorno do tribunal foi cercado por barreiras policiais.
Julgamento reiniciado após crise entre defesa e tribunal
As audiências ocorreram depois de uma sequência de reviravoltas que travou o andamento do processo ao longo do último ano. Em setembro de 2025, uma sessão terminou em tensão após embates entre advogados da defesa e magistrados. Um dos defensores acabou retirado da sala pela polícia depois de insistir em falar durante a audiência.
A partir dali, a defesa apresentou uma série de pedidos para afastar os juízes responsáveis pelo caso. Parte das solicitações foi rejeitada, mas outras acabaram acolhidas pelo Tribunal de Apelação de Gante, que anulou a composição anterior da corte e determinou a substituição dos magistrados.
A decisão provocou o reinício do julgamento praticamente do zero neste ano. Desde então, os advogados dos réus passaram a concentrar a estratégia em questionamentos processuais, alegando falhas no acesso aos arquivos da investigação, problemas relacionados ao direito de defesa e irregularidades na transferência do caso para Bruxelas.
Também entrou na discussão o chamado “prazo razoável” do processo, argumento usado pela defesa para tentar obter o reconhecimento de prescrição da ação penal. A tese ganhou força depois dos sucessivos adiamentos, interrupções e mudanças de juízes registrados desde o início das audiências.
Enquanto o processo avançava lentamente, a Justiça belga também passou a reagir ao volume de recursos apresentados pelos réus. A Corte de Cassação manteve neste ano multas aplicadas contra acusados e advogados por pedidos considerados abusivos de afastamento de magistrados. Os tribunais entenderam que parte das medidas apresentadas tinha caráter protelatório.
Preso desde 2022, Carvalho foi localizado em um hotel de Budapeste, na Hungria, usando documentos falsos. Investigadores europeus afirmam que o brasileiro utilizava múltiplas identidades e chegou a simular a própria morte durante a pandemia de Covid-19 para escapar de autoridades internacionais.
A extradição para a Bélgica mobilizou um esquema de segurança que incluiu escolta armada e transporte em avião militar belga. Desde então, o brasileiro permanece detido enquanto acompanha o andamento do processo judicial europeu.
Nos debates realizados em abril, os advogados voltaram a contestar a transferência do julgamento para o complexo Justitia e questionaram a integridade de parte do material digital usado na investigação. Após as duas sessões, o tribunal informou que os debates estavam encerrados e marcou para esta sexta-feira (22) a divulgação da decisão sobre os pontos levantados pela defesa.
