Os últimos momentos de Bob Marley e o funeral que parou a Jamaica

 

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Sistemas de som com cinco metros de altura tocavam canções de Bob Marley no lado de fora da Arena Nacional, onde dezenas de milhares de pessoas faziam fila, enfrentando o calor daquela quinta-feira para ver de perto o caixão com o corpo do ídolo. No interior do estádio, em Kingston, na Jamaica, bandeiras do país caribenho e da religião Rastafari coloriam a cerimônia, que unia elementos de um culto espiritual e de um show de música pop. O arcebispo da Igreja Ortodoxa da Etiópia conduziu o serviço, mas, a certa altura, a banda The Wailers subiu ao palco para tocar a clássica "Natural Mystic", enquanto os pequenos Ziggy e Robert dançavam no palco imitando os movimentos de seu pai.

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O funeral de um dos maiores astros da cultura pop nascidos no século XX praticamente parou a capital da Jamaica. Até a introdução da proposta de orçamento do recém-empossado governo de Edward Seaga fora adiada para depois da despedida. O próprio primeiro-ministro participou do velório, proferindo uma eulogia no estádio lotado. Ele foi menos aplaudido do que o ex-chefe de governo, Michael Manley, derrotado por Seaga numa eleição seis meses antes. Mas nenhum dos dois foi tão festejado quanto o rastafari Allan "Skill" Cole, ídolo do futebol na Jamaica que chegou a jogar no Náutico, em Recife, mas que ficou mais conhecido por sua amizade com Marley.

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O evento aconteceu dez dias após a partida da maior lenda do reggae. Em 11 de maio de 1980, há exatos 40 anos, Bob Marley morreu no Hospital Cedars of Lebanon, em Miami, nos Estados Unidos. Ele estava se submetendo a um tratamento alternativo contra o câncer na Bavaria, na Alemanha, mas sua saúde estava se deteriorando rapidamente e, ao saber que seu quadro tinha se tornado irreversível, o músico decidiu voar para a Jamaica. Queria morrer em casa, com a família e os amigos. O cantor estava no avião quando começou a perder suas funções vitais, o que levou a tripulação a aterrizar na capital da Flórida, na tentativa de salvá-lo. Mas não houve tempo. O jamaicano tinha 36 anos.

"Dinheiro não pode comprar vida", disse ele a seu filho Ziggy Marley, de 12 anos, pouco antes de expirar.

Militares da Força de Defesa da Jamaica carregam caixão de Bob Marley

Reprodução

Marley havia sido diagnosticado em 1977. Ele sofrera uma contusão no dedão do pé enquanto jogava futebol em Paris, na França. Após algumas semanas, como seu machucado não estava melhorando, e as dores aumentavam, ele se submeteu a exames que trouxeram a má notícia. Bob Marley sofria de um câncer de pele raro chamado melanoma lentiginoso acral, que se desenvolvera sob a unha do dedão direito. Os médicos sugeriram amputar o dedão, para impedir o alastramento do tumor, mas o cantor se recusou porque, de acordo com sua religião, o corpo de um rastafari é sagrado e não pode ter nenhuma parte removida (é por isso que os fiéis não cortam os cabelos e cultivam dreadlocks).

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O artista concordou apenas com a remoção da unha e da parte da pele já afetada pelo câncer. Um pedaço de tecido epitelial da sua coxa foi usado para preencher o material extraído. A partir de então, Marley continuou gravando e viajando. Entre 1977 e 1980, ele lançou os álbuns "Exodus", "Kaya", "Survival" e "Uprising. Em março de 1980, o artista fez uma visita histórica ao Rio, para participar do lançamento de uma gravadora, no Morro da Urca. O jamaicano não fez nenhum show na cidade, mas jogou futebol no campo do compositor Chico Buarque, bebeu suco na Avenida Atlântica e comprou vários instrumentos de percussão. No voo de volta, compôs o hit "Could you be loved".

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Na visão do público, tudo parecia bem com o astro. Sua doença, aliás, foi mantida em segredo até 1980. Naquele ano, Marley e sua banda fizeram uma turnê pela Europa e, depois, partiram para os Estados Unidos. No dia 20 de setembro, o cantor fez um show no Madison Square Garden, em Nova York, mas não se sentiu bem. Na manhã seguinte, enquanto praticava jogging no Central Park, ele desmaiou e foi levado para um hospital, onde exames constataram que o seu câncer havia se espalhado para cérebro, pulmões e fígado. Um oncologista local estimou em apenas um mês o tempo de vida que restava ao autor de "Redemption song".

Multidão na porta da Arena Nacional para funeral de Bob Marley, em 1981

Reprodução

Mesmo combalido, ele fez um show que acabou sendo o último de sua vida, no dia 23 de setembro, em Pittsburgh. Enfim, o ídolo do reggae buscou tratamento em Miami e Nova York, onde se submeteu a uma radioterapia. Devido ao tratamento e por estar fraco demais para manter a cabeça erguida com seus dreadlocks, o músico aceitou que cortassem seus cabelos. Pouco mais tarde, incomodado com as opções de terapia nos EUA, ele decidiu atravessar o Oceano Atlântico até a Bavaria, na Alemanha, onde ficava a clínica de Josef Issels, um médico famoso por promover um tratamento alternativo de combate o câncer sem uso de químicos. A eficácia do método, porém, jamais foi comprovada.

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Quando ficou claro que nada poderia salvar o ídolo rastafari, começou a correria para que ele voltasse para casa antes de morrer. Mas, quando o corpo de Marley chegou à terra natal do músico, já não tinha mais vida. Ainda que aquilo fosse um baque para a cultura do país, seus moradores não aparentavam tristeza. O jornalista britânico Richard Williams acompanhou o funeral do mito jamaicano em Kingston. Em maio de 2011, 30 anos depois, ele escreveu no site do diário "The Guardian" um relato detalhado do que testemunhou naquele dia. Segundo Williams, os rastafaris diziam que não havia razão para tristeza. "A morte não significava nada, Bob Marley ainda estava entre eles".

Vídeos no YouTube mostram multidões transbordando das calçadas para ver o comboio com o corpo do cantor. Muita gente cantava e dançava seus hits. Os jamaicanos saíram de várias cidades para estar no funeral. Robert Nesta Marley era mais que um popstar. Suas letras denunciam desigualdades sociais e condenam o êxodo compulsório de um povo raptado da África pelos escravizadores europeus (92% da população jamaicana se identificam como negros). Misto de cantor e profeta, ele pedia a paz na Terra e pregava o altruísmo contra injustiças da "Babilônia" capitalista. "Emancipe-se da escravidão mental/ Ninguém além de nós mesmos pode libertar nossas mentes".

Stephen e Ziggy Marley dançando no funeral do pai, ao som de 'Natural Mystic'

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O funeral começou com um serviço para familiares e amigos na Igreja da Santíssima Trindade, ministrado pelo arcebispo Abuna Yesehaq, da Igreja Ortodoxa da Etiópia, que batizara Marley seis meses antes. Em seguida, o caixão de bronze foi levado à Arena Nacional, onde cem mil pessoas se despediriam do cantor. Enquanto o público enchia as arquibancadas, as fileiras de cadeiras diante do palco estavam reservadas a parentes, membros do governo, da imprensa e de ordenações rastafaris. Uma confusão irrompeu do lado de fora, e a polícia atirou bombas de gás lacrimogênio. Houve muita correria, mas, depois, todos retornaram à fila para entrar, limpando os olhos com pedaços de pano.

O arcebispo Yesehaq convocou a leitura de salmos por personalidades e anunciou hinos de louvor. O ápice da cerimônia ocorreu quando músicos companheiros de Marley assumiram o comando. O trio de vocalistas que o acompanhava, chamado de I-Threes, formado por Rita Marley, Judy Mowatt e Marcia Griffithsm, cantou "Rastaman chant", antes de a banda The Waillers, liderada por Junior Murvin, começar a tocar "Natural Mystic". Foi então que Ziggy e Stephen, filhos do músico, com 12 e 11 anos respectivamente, dançaram imitando os passos do pai, mas vestindo ternos beges e sapatos brancos. A mãe de Marley, Cedella Booker, encerrou os trabalhos cantando "Amen", de Curtis Mayfield.

Depois da cerimônia, o corpo do artista que disseminou o reggae globalmente foi levado à pequena Nine Milles, onde ele nasceu, no dia 6 de fevereiro de 1945, filho de Noval Sinclair Marley, um militar branco de 59 anos, e de Cedella, então uma jovem de 18 anos, filha de um agricultor local. O pequeno Robert viveu na paisagem rural do vilarejo até os 10 anos, quando seu pai morreu, e sua mãe teve que se mudar com ele para a favela de Trenchtown, em Kingston. Diante de centenas de rastafaris que estavam lá desde cedo aguardando o comboio, Bob Marley foi enterrado com sua guitarra vermelha Gibson Les Paul no alto de um morro, dentro de um mausoléu erguido especialmente para abrigá-lo.