O cantor e compositor Renato Russo vinha tomando um coquetel de drogas para pacientes com Aids, mas os medicamentos já não surtiam mais efeito e provocavam reações terríveis no corpo. Sem outra opção de tratamento, o vocalista da banda Legião Urbana, um dos maiores astros na história do rock nacional, decidiu parar com os medicamentos e aceitar que seu fim estava próximo.
Apenas parentes e amigos sabiam que o compositor de 36 anos estava com a doença. Quando ele morreu, na madrugada do dia 11 de outubro de 1996, há 30 anos, o público ficou em choque.
A partir de então, foram lançados filmes, livros e espetáculos relembrando a vida e a obra de Renato. Recentemente, tiveram início as filmagens do longa "O que é demais nunca é o bastante", do diretor Mauro Mendonça Filho, que vai se debruçar sobre os últimos oito anos da vida do artista. O nome do filme é um verso famoso da música "O Teatro Dos Vampiros", lançada pela Legião em 1991. No dia seguinte à morte de Renato, o Jornal O GLOBO publicou um caderno inteiro dedicado ao cantor. Numa reportagem sobre os últimos meses do músico, o economista Mauricio Andrade, coordenador da campanha Ação da Cidadania, contou que ele tinha se tornado o maior doador particular da ONG após contribuir com R$ 180 mil (R$ 1 milhão em valores de hoje) para combater a fome no Brasil. Renato Russo durante evento em prol do combate à fome no Brasil em 1993 Ari Lago/Agência O GLOBO Militante da causa gay, o artista também doou US$ 20 mil (valores atuais) para a realização de uma conferência voltada para gays e lésbicas no Rio. "Um astro como ele ter tomado a posição política de se assumir gay foi algo inédito no Brasil. Toda uma geração de adolescentes olha para os gays com mais respeito por causa do Renato", disse, na época, editor da revista SuiGeneris, Nelson Feitosa. Renato Russo passou a infância no Rio e em Nova York, até que a família se mudou para Brasília quando ele era adolescente. O garoto habitava a cena punk da capital federal na década de 1970 e tinha 18 anos quando integrou uma banda chamada Aborto Elétrico, com o guitarrista André Pretorius e o baterista Fê Lemos, hoje integrante do Capital Inicial desde sua formação original. O Aborto Elétrico se dissolveu em 1982, e Renato, estudante de jornalismo da UnB, tentou carreira solo com o nome de Trovador Solitário, mas um ano depois formou o Legião Urbana ao lado do baterista Marcelo Bonfá, do guitarrista Dado Villa-Lobos e do baixista Renato Rocha, conhecido como Negrete. O quarteto era muito influenciado pelo rock britânico da época, e alguns críticos até pegavam no pé do Legião dizendo que eles pareciam demais com a banda The Smiths, por exemplo.
O Legião Urbana no Rio em abril de 1988 U. Dettmar/Agência O GLOBO Nas letras, Renato misturava desabafos pessoais com crônicas sociais e muita crítica política. Ele tinha convivido com a repressão da ditadura militar e mergulhou na carreira musical nos anos 1980, chamados de década perdida no Brasil por causa da sucessão de crises econômicas marcadas por um ciclo de desemprego e hiperinflação que teve início durante o período autoritário. Os versos do compositor caíram nas graças de uma juventude imersa num clima de desilusão com o futuro. A música "Que país é esse?" virou um clássico do Legião e continua muito atual. Vários outros sucessos. como "Será", "Ainda é Cedo" e "Geração Coca-Cola" conquistaram um público cada vez mais amplo e que enxergava no Renato uma espécie de messias do rock brasileiro.
O Legião Urbana pertencia à geração de Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e Titãs, mas o quarteto formado em Brasília se destacava pelo tamanho de seu público e chegou a colocar 50 mil pessoas no estádio Mané Garrincha. Foi um show caótico marcado por falhas de segurança. A banda interrompeu a apresentação depois que um fã invadiu o palco e agarrou o Renato. Revoltado, o público deu início a um quebra-quebra, e houve confronto com policiais acionados pra conter a multidão. Em 1990, o Renato estava numa clínica tratando de dependência química quando soube que tinha sido contaminado pelo vírus HIV, mas preferiu não falar sobre o diagnóstico publicamente. A banda reduziu a frequência de shows, e o cantor acabou caindo numa depressão profunda que serviu de argamassa para o disco "Equilíbrio distante", segundo trabalho solo do compositor, lançado em meados de 1995. Renato Russo durante show do Legião Urbana no Rio em 1994 Domingos Peixoto/Agência O GLOBO "Estou do meio para o fim de uma depressão, e a terapia é trabalhar", disse ele ao GLOBO. "Me esforço para sair, me alimentar bem, tomar sol, fazer exercício. Ficava sentindo coisas, era muito desagradável. Fiquei catatônico, sem querer sair da cama, tinha ataques de pânico e de ansiedade. Abusei muito do meu organismo. Durante muito tempo, fui levado a acreditar que o romântico era se autodestruir".
Em setembro do ano seguinte, o Legião lançou o disco "Tempestade", sem fazer shows e nem dar entrevistas. Àquela altura, a saúde do Renato já estava muito comprometida. Recluso no apartamento onde morava, na Rua Nascimento Silva, em Ipanema, no Rio, o líder do Legião recebeu uma romaria de amigos e familiares. O jornalista Geraldo Vieira esteve com o compositor 40 dias antes da morte dele. "Renato disse que precisava mergulhar nele próprio, antes que a morte batesse à porta". Renato Manfredni Junior morreu às 1h15 da madrugada de 11 de outubro de 1996, devido a uma série de complicações geradas pela Aids, como pneumonia e infecção urinária. Ele estava com 45kg de peso. O corpo do músico foi cremado, e as cinzas, jogadas no Sítio Roberto Burle Marx, em Barra de Guaratiba, na Zona Oeste do Rio. Ele deixou um filho, Giuliano Manfredini, na época com 7 anos.
O Globo