Os três R necessários para a melhora: reconhecer, reformular e reformar
“Perguntou-lhe Natanael: De Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e vê.” (Jo 1.46)
Reciclar, reduzir e reutilizar são expressões afeitas à política de sustentabilidade. Apontam para um novo modo de viver no mundo. Elas nos convidam a rever hábitos, escolhas e prioridades.
Mas quero propor uma reflexão igualmente “ecológica”, no sentido mais amplo da palavra: aquilo que diz respeito à vida como um todo — à pessoa, às relações e à família.
E, para isso, convido você a pensar em três movimentos essenciais:
Reconhecer
Quando a vida não flui bem — seja no campo emocional, relacional ou espiritual — a tendência é perguntar: o que preciso fazer para melhorar?
Mas talvez a pergunta mais honesta seja outra: o que estou fazendo que tem impedido essa melhora?
Reconhecer é um ato de coragem. É olhar sem maquiagem para os “nós” que se formam dentro de nós e entre nós. Há de se identificar padrões repetidos, silêncios ensurdecedores, palavras destrutivas, expectativas alienadas.
Assim como uma obstrução na artéria compromete o fluxo do sangue e coloca em risco a vida. Igualmente, pequenos bloqueios na vida afetiva ou familiar podem comprometer seriamente a alegria, espontaneidade e promover danos irreparáveis, gerando rupturas profundas.
Um bom diagnóstico não liberta da escravidão do medo imaginativo: esclarece e orienta.
Como afirma o teólogo Miroslav Volf: “A verdade não é apenas algo que dizemos; é um espaço onde aprendemos a viver de forma reconciliada.”
Reconhecer, portanto, é abrir espaço para essa verdade que liberta e reorganiza.
Reformular
Uma vez identificadas as causas, surge um novo desafio: o que fazer com isso?
Reformular é o passo da decisão. É quando deixamos de apenas entender e começamos a redesenhar caminhos.
Às vezes, isso envolve ajustes simples: mudar a forma de se comunicar, rever prioridades, reorganizar o tempo. Outras vezes, exige decisões mais profundas: reposicionar valores, rever vínculos, buscar ajuda.
Reformular não é negar a história — é dar a ela uma nova direção. Nesse ponto, a psicologia nos ajuda a compreender que não estamos condenados à repetição. Como lembra Carl Rogers: “O curioso paradoxo é que, quando me aceito como sou, então posso mudar.”
Ou seja, a mudança real ocorre quando temos coragem de olhar no espelho, sem subterfúgios, e buscar sobretudo conciliação mesmo.
Reformar
Reconhecer e reformular são fundamentais, mas insuficientes sem o terceiro passo: agir.
Reformar é colocar a mão na massa!
Após admitir a existência e presença de um dragão em nossa vida e família, que solapa a desejada qualidade de vida, é urgente movimentar-se, realizar, partir para ação efetiva e irreversível.
Hábitos, relacionamentos, reorganização, escolhas novas, abandono de caminhos destrutivos, são algumas das ações que urgem e que devem se impor.
Dar um basta! ainda que essas muitas obras temporariamente possam gerar incômodos: poeira, móveis deslocados, rotina alterada. Não é agradável — mas é necessário.
O segredo está em não perder de vista o propósito, pois quem tem pelo o que viver resiste a qualquer como.
Diga a si mesmo tantas vezes forem necessárias: “ bem vindo o processo“.
Por isso, talvez seja hora de mudar a pergunta.
Em vez de: “o que preciso fazer para minha vida ou minha família melhorar?”
Experimente:
“o que temos feito — ou deixado de fazer — que tem impedido essa melhora?”
A resposta a essa pergunta pode ser o início de um caminho mais verdadeiro, mais saudável e, sobretudo, mais vivo.
