Os tanques dos navios-plataforma escondem um dos trabalhos mais perigosos da manutenção; agora drones podem inspecionar o aço sem colocar pessoas lá dentro

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Dentro de um navio-plataforma, algumas das estruturas mais importantes ficam longe dos olhos de quem trabalha no convés. Os enormes tanques usados para armazenar petróleo são cercados por chapas, vigas, soldas e espaços de difícil acesso, onde uma inspeção pode exigir escadas, andaimes e procedimentos rigorosos de segurança.

Agora, empresas que atendem FPSOs em Gana e Angola encomendaram drones capazes de percorrer esses ambientes e examinar o aço a distância, sem exigir a presença de trabalhadores junto a cada ponto inspecionado. Os novos pedidos foram divulgados em 27 de outubro de 2026 pela norte-americana Beam Global.

Eles envolvem equipamentos Scout 137 e software de análise da norueguesa ScoutDI, destinados a duas empresas independentes de inspeção: uma sediada em Gana e outra que atua em Angola. A previsão é que os sistemas sejam enviados até o final deste ano.

Os compradores, a quantidade de unidades e os valores das encomendas não foram revelados. Um FPSO é uma unidade flutuante que recebe petróleo de poços submarinos, processa a produção, armazena óleo e o transfere para navios aliviadores.

Esse conjunto opera por anos em ambiente marítimo, submetido a vibrações, esforço estrutural, umidade e corrosão. Seus tanques precisam ser examinados para detectar desgaste, falhas de pintura, trincas e problemas em soldas antes que eles afetem a integridade da embarcação.

O acesso costuma ser complicado. Há compartimentos altos, passagens estreitas, travessas metálicas e regiões que não podem ser observadas facilmente a partir do piso.

Dependendo da inspeção, equipes precisam montar andaimes ou executar trabalho por cordas para chegar às superfícies. Também existe o risco atmosférico de um espaço fechado: deficiência de oxigênio, vapores inflamáveis e resíduos de produtos armazenados exigem avaliação, monitoramento e autorização antes de qualquer entrada.

É justamente esse cenário que a tecnologia tenta modificar. Em lugar de levar um trabalhador até cada solda elevada, um piloto conduz um pequeno drone pelas estruturas.

A máquina registra fotografias e vídeos de perto, enquanto um profissional de inspeção acompanha os resultados e decide quais pontos precisam de medição adicional ou intervenção. A necessidade de entrar no tanque pode ser reduzida ou, em determinadas inspeções, eliminada.

O Scout 137 é um equipamento compacto desenvolvido para voar onde o sinal de GPS não chega. Sua característica mais incomum é o cabo fino que o conecta a uma estação de apoio.

Por ele passam energia e dados, dispensando uma bateria de voo no equipamento e permitindo missões prolongadas enquanto a alimentação elétrica permanecer disponível. O termo usado pela fabricante é tempo de voo ilimitado, mas a operação real ainda depende da atenção dos pilotos, do planejamento da rota e das condições de segurança.

A vantagem prática é não precisar interromper repetidamente o trabalho para substituir baterias, sobretudo quando a equipe está examinando dezenas de metros de vigas e chapas. Na geração atual, o Scout 137 utiliza câmera de resolução 4K, iluminação própria para ambientes escuros e um sensor LiDAR que mede distâncias com laser.

O sistema monta um mapa tridimensional do interior do tanque e ajuda o piloto a acompanhar onde o drone está, mesmo fora da linha direta de visão. As imagens de cada ponto ficam associadas à posição em que foram captadas.

Esse mapa também faz diferença depois do voo. Se um inspetor encontrar corrosão perto de uma solda, ele pode localizar o ponto na representação digital do tanque e registrar a ocorrência para uma revisão futura.

Na plataforma Scout Portal, os dados podem ser consultados por engenheiros que estão em terra, sem exigir o deslocamento de toda a equipe até a unidade offshore. Além das inspeções visuais, a linha Scout 137 dispõe de um acessório de medição ultrassônica de espessura, chamado UTM.

O módulo permite aproximar uma sonda da parede metálica para verificar quanto aço permanece naquele ponto. Essa informação ajuda a investigar perdas de espessura associadas à corrosão e pode complementar os registros fotográficos.

O processo exige contato adequado com a superfície. Na configuração apresentada pela fabricante, uma ferramenta prepara o ponto de medição, aplica um gel de acoplamento e encosta a sonda no aço.

O ultrassom permite calcular a espessura a partir do sinal refletido no material. O resultado é registrado com a localização no mapa 3D, oferecendo uma referência para acompanhamento posterior.

O módulo de ultrassom é um equipamento adicional, e seu uso depende da configuração escolhida para a missão. O anúncio das novas encomendas afirma que a tecnologia Scout 137 pode combinar imagens em 4K, LiDAR e medições ultrassônicas, mas não especifica quais acessórios foram comprados por cada cliente africano.

Também não há informação de que os drones já tenham realizado essas inspeções em Gana ou Angola. O interesse para o setor offshore brasileiro vai além de uma tecnologia apresentada no exterior.

Em fevereiro de 2024, a ScoutDI divulgou um caso realizado pela TDBR em um FPSO que operava na costa do Brasil. O trabalho envolveu a inspeção visual de nove travessas do convés interno de um tanque, em uma atividade considerada urgente para o retorno da unidade à operação.

Segundo o relato técnico publicado pela fabricante, uma equipe de duas pessoas concluiu a verificação em menos de duas horas. Um inspetor da sociedade classificadora acompanhou o serviço e aceitou o resultado da inspeção no próprio local.

O nome da unidade não foi divulgado naquele estudo, por isso não há base para identificá-la como pertencente a uma operadora específica. O caso é anterior às encomendas africanas e demonstra uma aplicação já documentada, não uma entrega de outubro de 2026.

Também mostra que o ganho de segurança está ligado à tarefa executada: o drone examinou estruturas altas e de acesso difícil, reduzindo a necessidade de trabalho humano em altura, enquanto a equipe de inspeção continuou responsável pela avaliação técnica. Na Noruega, a IKM Testing empregou o Scout 137 durante a construção do FPSO Johan Castberg para registrar o estado de revestimentos e estruturas soldadas sob o convés dos tanques de carga.

O estudo, divulgado em 2024, descreve um espaço com milhares de metros quadrados de superfície a documentar e locais situados a dezenas de metros do piso. A campanha acumulou 22 horas de inspeção remota.

Pilotos trabalharam em turnos e o drone alcançou áreas elevadas sem a montagem de andaimes em pontos onde a instalação poderia prejudicar a pintura recém-aplicada. Os dados passaram a integrar a documentação inicial de condição da unidade, útil como referência para futuras inspeções.

A equipe operava a partir do piso do tanque nesse caso específico. Por isso, a experiência não deve ser apresentada como se ninguém tivesse entrado no compartimento.

O benefício efetivamente documentado foi evitar que trabalhadores precisassem escalar estruturas altas para observar todos os pontos da inspeção. As encomendas anunciadas em outubro envolvem duas empresas prestadoras de serviços, e não a aquisição direta de drones por uma operadora de petróleo identificada.

Gana e Angola possuem campos offshore atendidos por FPSOs, mas o comunicado não relaciona os novos equipamentos a uma embarcação, campo ou cliente final específico. A previsão de envio no quarto trimestre indica uma etapa comercial, não a conclusão de campanhas de inspeção.

A ScoutDI informou ter ultrapassado 7 mil voos de inspeção registrados em diferentes segmentos industriais. A Beam Global, que em outubro havia assinado um acordo para comprar a fabricante norueguesa, apresentou os pedidos africanos como parte da expansão do negócio.

A aquisição ainda dependia de condições para sua conclusão na data do anúncio, e não deve ser tratada como negócio já encerrado. No Brasil, as exigências para entrada em espaços confinados são tratadas pela NR-33, norma que prevê identificação dos riscos, medidas de prevenção, capacitação e autorização adequada.

A utilização de um drone não elimina essas obrigações quando pessoas precisam entrar. Também não substitui limpeza, preparação de superfícies, ensaios complementares ou reparos que exijam a intervenção de profissionais especializados.

O que pode mudar é a quantidade de exposição necessária para obter os primeiros dados. Imagens de soldas, mapas tridimensionais e medições localizadas podem orientar decisões antes de enviar trabalhadores aos pontos mais difíceis.

Essa combinação de robótica e inspeção técnica tende a ganhar espaço onde o custo de parada é elevado e cada acesso ao tanque precisa ser cuidadosamente planejado. Por enquanto, a notícia concreta é a chegada de novos pedidos à ScoutDI para atender o offshore de Gana e Angola.

Quando as unidades forem entregues e entrarem em serviço, será possível medir o resultado operacional dessas contratações. Você acha que drones desse tipo vão transformar a rotina das equipes embarcadas? Conte sua opinião nos comentários e compartilhe a reportagem.

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