'Os remédios têm papel contra a obesidade, mas com preços abusivos. Queremos que laboratórios públicos dominem a tecnologia', diz Padilha
O Brasil, um país acima do peso, aguarda com ansiedade a expiração este mês da patente da “alma” das canetas emagrecedoras, a semaglutida transcutânea (Ozempic/Wegovy), o que, se espera, levará a drogas menos caras. O Ministério da Saúde avalia formas de ampliar o acesso aos medicamentos, mas o ministro Alexandre Padilha enfatiza que isso é só parte das políticas públicas necessárias para enfrentar a epidemia de obesidade.
O ministério trabalha com três eixos. O primeiro é a política de prevenção na estratégia “Viva Mais Brasil”; o segundo, a produção nacional e domínio de tecnologia desses remédios; e o terceiro, a implantação da semaglutida no SUS.
Alexandre Padilha revela que o ministério estuda formas de implantar no SUS programas com semaglutida (princípio ativo das canetas), para grupos específicos de pacientes.
Segundo ele, o Grupo Hospitalar Conceição, sediado em Porto Alegre e vinculado ao Ministério da Saúde, elabora um protocolo para um tipo restrito de paciente ter acesso aos medicamentos baseados em semaglutida pelo SUS. Não há nada definido, mas o ministro antecipa que seriam pacientes com obesidade avançada, comorbidades e que estão, por exemplo, na fila para a cirurgia bariátrica.
-- Estamos começando a avaliar um protocolo específico para a semaglutida no Rio Grande do Sul _ diz ele.
Outro exemplo de grupo de paciente que seria potencialmente elegível para ser tratado no SUS com as drogas baseadas em semaglutida são aqueles que já recebem orientação clínica e psicológica preparatória para bariátrica e os que sofrem de doenças graves relacionadas à obesidade. Atualmente, nenhum medicamento para controle de peso _ com ou sem semaglutida _ está disponível no SUS.
Outra estratégia do governo federal em curso é o estímulo à produção nacional dessa nova classe de remédios. Isso é feito por meio de um edital da Anvisa específico para a produção de peptídeos sintéticos. O edital dá prioridade de registro para a liraglutida e a semaglutida, ambas para controle do peso e da diabetes.
Segundo Alexandre Padilha, o Ministério da Saúde quer que o Brasil domine a tecnologia de produção de peptídeos (a grosso modo, pequenas proteínas), que são a base das canetas para emagrecer.
É consenso entre especialistas ser inviável para o sistema público de qualquer país proporcionar amplo acesso a canetas e similares. O motivo é simples. O excesso de peso virou regra e não exceção. E o custo desses remédios é elevadíssimo.
O percentual da população brasileira adulta com excesso de peso cresceu de 42,6% em 2006 para 62,6%, em 2024, segundo o Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico, o Vigitel.
Já a obesidade (IMC maior que 30), passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024. Por trás do problema está, sobretudo, a alimentação com base em ultraprocessados.
-- Os medicamentos podem ter um papel no enfrentamento da obesidade. Mas os preços são abusivos. É um desafio em todo o mundo. Queremos que laboratórios públicos e empresas nacionais dominem essa tecnologia, uma plataforma não somente para remédios contra a obesidade, mas também para doenças como, por exemplo, câncer. Estamos facilitando o caminho para que empresas produzam aqui liraglutida e semaglutida. Quanto mais empresas, maior a concorrência e menor o preço -- diz Alexandre Padilha.
Já há 14 empresas com pedidos em análise pela Anvisa. E, de acordo com o ministro, três empresas brasileiras assinaram parcerias com empresas indianas para a produção de peptídeos sintéticos.
-- Acredito que vamos conseguir derrubar os preços e tornar esses remédios mais acessíveis _ diz o ministro.
Mas o ministro destaca ser fundamental encarar a obesidade como problema de saúde pública grave e não como questão estética.
-- É preciso uma resposta integrada a um problema complexo e associado a doenças cardiovasculares e câncer, por exemplo. Não se trata só de acesso a medicamentos. _ afirma o ministro.
Ele salienta que é preciso, sobretudo, prevenir a obesidade, evitar que as pessoas ganhem peso em excesso e isso é feito com políticas integradas, não se resume a remédios.
O ministro sublinha a prioridade da estratégia “Viva Mais Brasil”. Ela foi lançada pelo Ministério da Saúde em janeiro, com um investimento de R$ 340 milhões e foco na promoção da alimentação saudável e da atividade física, por meio da atenção primária.
-- Nesse sentido, a taxação de bebidas açucaradas e a redução de impostos da cesta básica saudável é importantíssima. Assim como banir ultraprocessados da alimentação escolar. As cidades que fizeram isso viram cair o número de crianças e jovens obesos _ enfatiza Alexandre Padilha.
A estratégia do Ministério da Saúde repassará aos municípios recursos para investir em academias da saúde, vinculadas à atenção primária.
-- O Rio de Janeiro tem uma experiência consolidada nesse sentido e bons resultados na redução da necessidade de drogas para diabetes, por exemplo -- finaliza Padilha.
