Os donos do crime: negócios de Rogério Andrade se espalham por mais de 6 mil pontos do bicho em 58 municípios do RJ
Rogério Costa de Andrade e Silva, de 63 anos, é, para muitos, o verdadeiro dono da contravenção moderna. Conhecido por impor medo só com o olhar, ele tem uma história de vida cercada de casos de vingança e disputas familiares sangrentas. Foi com essa postura que conseguiu dominar ou espalhar o jogo em 58 cidades. A informação consta em relatório do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Rio (MPRJ), que encontrou um pen drive, com um único arquivo de texto, criado em 20 de dezembro de 2023, apreendido numa das buscas feitas pela promotoria. Lá continha ainda 6.437 endereços de "comércio de rua", possivelmente, pontos de jogo do bicho e de máquinas de caça-níqueis.
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O bicheiro é sobrinho de Castor de Andrade, o "capo di tutti capi" — o chefão dos chefões do jogo do bicho —, que morreu em abril de 1997, vítima de infarto fulminante, sem deixar testamento sobre os negócios, contrariando a conhecida frase cunhada pela cúpula do bicho: "Vale o escrito".
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Paulinho Andrade, filho de Castor, queria comandar o jogo. Mas Rogério, que era sombra de Castor e tinha sua confiança, assumiu o jogo do bicho logo após a morte do tio. Genro de Castor, Fernando Iggnácio, ficou com o controle das máquinas caça-níqueis, que tinham sido introduzidas por ele na contravenção. Mas, a aparente calma, na verdade, escondia uma guerra travada pelo espólio do "capo di tutti capi". Em 1998, Paulinho foi assassinado na Barra da Tijuca, atualmente Zona Sudoeste, com o segurança Haroldo Alves Bernardo. Durante as investigações, Rogério foi apontado como mandante.
Réu pelo homicídio do primo, Rogério passou pelo crivo do júri popular por duas vezes. No primeiro, foi condenado a 19 anos e 10 meses, mas, recorreu da decisão e conseguiu anular o julgamento. Ao ser julgado pela segunda vez, foi absolvido.
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Em novembro de 2020, seu rival Fernando Iggnácio, que dividiu com ele cenas de guerra em Bangu, reduto do clã Andrade, foi assassinado num heliponto da Barra da Tijuca, quando chegou de helicóptero de sua casa, numa ilha de Angra dos Reis, na Costa Verde. Mais uma vez, as investigações apontaram o sobrinho de Castor como mandante.
Réu pelo homicídio de Iggnácio, Rogério se encontra preso no Presídio Federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Em Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), o bicheiro só recebe visita da mulher e dos filhos, além de seus advogados, por trás de um vidro. Todas as suas conversas são gravadas.
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Entre execuções e atentados, Rogério acabou construindo um exército de policiais para proteger sua família. No comando de seus negócios ilegais do lado de fora, segundo os investigadores, ele conta com pessoas de sua máxima confiança, apesar de alguns, como o presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel, Flávio da Silva Santos, o Flávio da Mocidade ou Flávio Pépé, também estar preso.
No início deste ano, a velha cúpula do bicho mandou um recado para Rogério, mesmo encarcerado em presídio federal: que ele desse atenção à Mocidade. O risco de rebaixamento era iminente. Para resolver a questão, Rogério, que é patrono da escola de samba, pôs o filho Gustavo Andrade à frente da agremiação. Com essa movimentação, a Mocidade foi mantida no grupo especial.
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Mesmo preso, o capo enfrenta o desafio de manter seus territórios. Com o assassinato do rival Fernando Iggnácio, surgiu uma nova frente de disputa: Marcos Paulo Moreira da Silva, o "Marquinhos Sem Cérebro", braço-direito de Iggnácio, assumiu o lugar do falecido patrão e, segundo a promotoria, passou a disputar negócios e território com Rogério em Bangu, na Zona Oeste do Rio. Ao contrário de Rogério, "Marquinhos Sem Cérebro" está preso no Rio. Por ser cabo da reserva da Marinha, ele está em presídio militar, na Ilha das Cobras. O regime não é tão rígido como o RDD.
Fora dos jogos de azar — que incluem apostas on-line e máquinas caça-níqueis —, Rogério tem duas empresas em seu nome ligadas a embarcações, uma de suas paixões: a Planet Boat e a Rai Holding. A diversificação dos negócios alcança até o restaurante de culinária portuguesa Gajos D'Ouro.
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