Os donos do crime: braço direito de Rogério Andrade tatuou no peito o rosto do chefe como sinal de lealdade

Os donos do crime: braço direito de Rogério Andrade tatuou no peito o rosto do chefe como sinal de lealdade

 

Fonte: Bandeira



Flávio da Silva Santos, o Flávio da Mocidade, braço direito do bicheiro Rogério Andrade, tem o rosto do chefe tatuado no peito. Vinicius Drumond — filho de Luizinho Drumond, falecido banqueiro da antiga cúpula da contravenção — é acusado de mandar matar um ex-gerente que devia obediência ao pai e passou para o lado de um ex-aliado: o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho. Pelo crime, Vinicius figura em inquérito da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC).

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A tatuagem e o envolvimento em um assassinato são sinais inequívocos de lealdade, característica da velha geração do jogo do bicho que Rogério, Adilsinho e Vinicius tentaram suplantar com a fundação de uma “nova cúpula”. Em 2021, conversas de Adilsinho com um interlocutor, interceptadas pela Polícia Federal, já demonstravam o desejo de mudança. O grupo ganhou, entre funcionários, o apelido de “Santíssima Trindade”.


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A aliança, porém, não durou. Vinicius rompeu a tríade ao se considerar traído por Adilsinho. Com a prisão de Rogério, em outubro de 2024, pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pela Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI) do MPRJ, a base se esfacelou. Levado para um presídio federal, ele era o fiel da balança e o cérebro da chamada “nova cúpula”. Para complicar, com o assassinato do rival Fernando Iggnácio — homicídio atribuído a Rogério —, surgiu outra ameaça: Marcos Paulo Moreira da Silva, o “Marquinhos Sem Cérebro”, braço-direito de Iggnácio, assumiu o lugar do patrão e, segundo a promotoria, passou a disputar negócios e território com Rogério em Bangu, na Zona Oeste do Rio, berço da família Andrade.

O terceiro capítulo de “Os donos do crime” é dedicado a Rogério Andrade e Adilsinho, capos do jogo do bicho que, segundo as polícias Federal e Civil e o MPRJ, atuam em diversos negócios ilegais para além da jogatina. A série de reportagens mostra quem são os criminosos que aterrorizam o Rio à frente da violência do tráfico, das milícias, dos bandos de matadores de aluguel e do jogo do bicho.

Além dos jogos de azar — que incluem apostas on-line e máquinas caça-níqueis —, Rogério tem duas empresas em seu nome ligadas a embarcações, uma de suas paixões: a Planet Boat e a Rai Holding. A variedade de negócios alcança até o restaurante de culinária portuguesa Gajos D’Ouro. O bicheiro é herdeiro do lendário Castor de Andrade, que morreu de infarto em abril de 1997, e patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel. O presidente da escola é Flávio Santos, que carrega o nome da agremiação como apelido e a imagem do chefe na pele.

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Máfia do cigarro

Adilsinho, por sua vez, é apontado pela PF como chefe da máfia de cigarros contrabandeados, com fábricas montadas em fundos de quintal. A corporação estourou três unidades clandestinas, nas quais imigrantes paraguaios eram submetidos a condições análogas à escravidão. Os negócios se expandiram tanto que há registros de atuação em dez estados. A base do bicheiro fica em Caxias, reduto do falecido pai, que pertencia ao segundo escalão da contravenção.

Lealdade de funcionário do bicho a Rogério Andrade

Editoria Arte

Adilsinho foi preso em 26 de fevereiro deste ano pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco/RJ) — composta por agentes da PF e da Polícia Civil, com apoio do Ministério Público Federal. Na ocasião, o superintendente da PF, Fábio Galvão, o definiu como “o mais sanguinário dos capos do jogo do bicho”. As delegacias de homicídios do Rio investigam mais de uma dezena de assassinatos em que ele é suspeito de ser o mandante.

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Atualmente, Adilsinho tem três mandados de prisão só pela DHC. Um deles firmou sua aliança com Rogério: o suposto comando da morte de Marco Antônio Figueiredo Martins, o Marquinho Catiri, em 2022, que tocava os negócios de Bernardo Bello, rival do sobrinho de Castor. Há outro caso em investigação, no qual Adilsinho teria atentado contra a vida do ex-aliado Vinicius Drumond, na Barra da Tijuca, no ano passado.

Domínio em 58 cidades

As dimensões do império de Rogério apareceram em um dos elementos apreendidos pela investigação do Gaeco: um pen drive com um único arquivo de texto, criado em 20 de dezembro de 2023, listava 6.437 pontos de “comércios de rua” — identificados por nome, endereço completo e telefone do responsável — espalhados por 58 municípios, ou mais da metade do estado.

Para a coordenadora do Gaeco, promotora Letícia Emile, manter os chefes dessas organizações em presídios federais é essencial para dificultar que toquem os negócios à distância.

— As prisões são importantes e necessárias, sobretudo em presídios de segurança máxima, onde o tráfego de informação e contatos é mais controlado. No entanto, não são suficientes para impedir a perpetuação dos crimes das organizações. Há que se atingir o dinheiro — observa a promotora.

O antropólogo Rômulo Labronici, pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos da UFF e autor do livro “Para todos vale o escrito”, estuda a fundo a cúpula do bicho e põe em dúvida novas alianças formais, sobretudo porque ainda estão vivos os veteranos Aniz Abraão David, o Anísio, e Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães.

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— A cúpula tradicional é mais do que uma aliança de contraventores: tornou-se a base de sustentação institucional do bicho. É nela que se administram conflitos, se regula a distribuição territorial de pontos e caça-níqueis e até se transmitem heranças — explica. — Por se tratar de uma contravenção penal, são os mecanismos da cúpula que garantem, por exemplo, que um banqueiro passe seus pontos para filhos após a morte. Não é uma aliança informal, mas um processo institucionalizado, com documentos autenticados em cartório para legitimar o banqueiro num território.

A defesa de Rogério não se manifestou. O advogado Ricardo Braga, que defende Adilsinho, diz que as imagens da prisão de Adilson esvaziam a narrativa de periculosidade atribuída ao empresário. O defensor afirma ainda que "Adilson nega qualquer envolvimento com organização criminosa, homicídios ou com o comércio irregular de cigarros e reitera sua plena confiança no Poder Judiciário, certo de que sua inocência será comprovada."

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