Os depoimentos mais emocionantes sobre Preta Gil em documentário: 'Penso nela o tempo todo', diz Gilberto Gil
Emoção do início ao fim.
Preta – Eu Não Ando Só acompanha os últimos anos de vida de Preta Gil por meio de imagens registradas pela própria cantora e por pessoas próximas durante o tratamento contra o câncer de intestino.
Com um olhar íntimo e sensível, o documentário revela a rede de afeto, cuidado e apoio que a acompanhou ao longo dessa jornada, destacando a força dos laços construídos por ela dentro e fora dos palcos.
Preta Gil morreu aos 50 anos, no dia 20 de julho de 2025, em Nova York, em decorrência das complicações de um tumor maligno no intestino.
Ela estava nos Estados Unidos fazendo um tratamento experimental contra a doença, que tratava desde janeiro de 2023.
O filme reúne depoimentos de pessoas que fizeram parte da história da artista, como Carolina Dieckmmann, Ivete Sangalo, Regina Casé, Ju de Paula, Marina Morena, Sol de Maria, Francisco Gil, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gominho e Ana Carolina, formando uma rede de apoio presente até os últimos dias de sua vida.
Com 1h40 de duração, o documentário começa a partir da notícia do diagnóstico de câncer da artista, em janeiro de 2023.
Com a descoberta da doença, Preta pediu ajuda aos amigos para fazer um filme, que mostra até o dia de sua morte.
"Não dá para passar por tudo o que estou passando e não registrar para um bem maior.
Para ajudar pessoas, para abrir debates.
E não tem roteiro", explica a cantora no documentário.
Veja os depoimentos mais emocionantes:
Francisco Gil (filho)
"Lembro da gente passar o Réveillon, provavelmente 2022 para 2023, mas foi um Réveillon em que a gente fez show junto e a gente combinou de logo depois fazer uma viagem junto.
A gente foi para Angra: eu, ela, a Sol.
Ela conseguiu curtir a viagem, ela estava muito mal, começou a ficar mal.
E aí você via ela forçando a barra porque estava lá com a gente, porque a gente estava amarradão.
Mas teve uma hora que ele ficou muito mal e precisou ir para o hospital."
Sol de Maria (neta)
"Minhas amigas chegaram assim para mim: 'Sol, a sua avó está doente?'.
Falei: 'Não'.
E elas falaram: 'Eu acho que está, porque eu vi no jornal, aguma coisa assim.' 'Não está não'.
Aí eu perguntei para a minha avó e ela falou sim.
Aí ela perguntou se eu queria saber mais sobre o que estavam dizendo e eu falei que não queria.
Eu não sabia o que era câncer direito.
Eu falei: 'tá, deve ser uma virose, uma coisa assim'.
Eu era muito nova, eu tinha 7 anos.
Eu achava que a vovó estava com febre."
Regina Casé
"No começo foi bem assim: 'Não, nao vai ser nada.
Todo mundo hoje em dia se trata e ela vai ficar bem'.
É curioso porque eu sou muito amiga do Gil e da Sandra.
Evidentemente, eu conheci eles antes, mas durante toda, sei lá, a infãncia já, mas a adolescência da Preta até ela morrer eu fui, sou e me sinto muito mais amiga da Preta do que do Gil ou da Sandra.
E não acho isso só porque a gente gosta das mesmas músicas...
Eu acho que manteve esse tempo todo e foi reconhecendo durante a vida dela...
Eu não posso falar da Preta porque instantaneamente eu choro...
Eu sinto falta dela todo dia.
A gente foi reconhecendo essa afinidade e percebendo a extensão dessa afinidade principalmente porque a gente tinha muitas afinidades em lugares de dor, de carências afetivas, de compulsões por comidas ou por bolsas.
É impressionante como ela não perdeu o humor em nenhum momento.
Ela não perdeu a libido.
Essa sabedoria da Preta ancestral.
Porque a Preta era muito jovem, muito safada, muito gostosa, mas era uma preta velha.
Assim como era uma índia velha (risos)."
Carolina Dieckmmann
"A doença da Preta tem um agravante muito grande, que eu nem consigo te dizer o tamanho, que foi vir junto com o fim do casamento do jeito que foi.
Eu acho que naquele momento foi uma porrada maior do que o câncer.
Você toma uma porrada de alguém que você não espera, alguém que você dorme."
Gominho
"Era o ex-marido traindo e ela fazendo químio.
Falei: 'Não, gente, não tem condição.
Vou para lá'.
A gente já foi com a condição de estar como sempre esteve com ela.
Por isso que eu saí de Salvador para ficar com ela na epoca da químio, porque quando eu vim, Rodrigo não estava presente, todo mundo vivendo as suas vidas .
E aí eu vendo ele não presente e conhecendo ela, eu não pensei duas vezes.
Eu conheço a Preta: ela não suportava estar sozinha.
Não tinha essa coisa para ela: 'meu momento sozinha'.
Tinha uma época que ela queria fazer terapia com a gente junto no quarto.
E a gente: 'Não, ridícula' (risos)."
Ivete Sangalo
"Ela queria estar sempre arrumadinha.
Ela podia estar de fio pelo corpo todo...
Eu já vi Preta que não tinha lugar para colocar fio e era uma mala de pijama.
Era o pijama de coração, o pijama do gato, o pijama do sorvete.
Em um lugar, em uma situação onde beirava a loucura.
E ela não perdeu a sanidade em nenhum momento.
Ela tinha um contato lúcido com ela mesma: 'Eu estou existindo, eu existo, então deixa eu existir'.[...] O seguinte: quando a gente vai fazer essas coisas, é uma coisa boba minha, mas entra em um lugar artístico, uma situação artística.
O que eu tenho para falar dela não tem nada disso, então me sinto um pouco estranha.
Éramos bestas e o documentário requer uma certa poesia sobre isso que eu não consigo enxergar assim.
Quando a gente falava umas coisas inteligentes, ela falava: ‘Você é inteligente, viu?'"
Gilberto Gil
"Caetano um dia me disse assim: 'Você já viu Preta cantar?' Talvez em casa sim'.
'Mas ela tem uma coisa'.
'Preta tem um negócio qualquer, preste atenção.' [...] Ela resulta como uma figurinha, como uma florzinha que brota naquele jardim.
Ela trabalhou com esses elementos todos para formar uma entidade própria com a qual ela se comunicava com o mundo.
Ela se tornou uma neotropicalista, uma pós-tropicalista, uma trans-tropicalista.
Ela tinha a força tropicalista, sim.
[...] Quando ela morreu, quando ela teve que ir embora, o mundo disse: 'Puxa, vida, minha menina foi embora'.
Tenho muita saudade dela.
Penso nela o tempo todo.
Tem um retratinho dela ao meu lado, assim, ela com quatro, três, quatro anos de idade, e esse retrato fica na minha escrivaninha o tempo todo.
Todo dia eu passo e olho.
Toda vez que sento para escrever alguma coisa, para fazer alguma coisa, olho para aquele retrato.
Preta é aquilo, é aquela foto dela ali na minha escrivaninha, com aquela carinha, aquele narizinho, aquilo, quatro anos de idade, cinco anos de idade.
É isso.
Bebezinho, Pretinha."
Caetano Veloso
"É gozado porque ela fazia um vibrato assim longo, né? Não era nem do meu gosto, mas nela eu adorava (risos).
Achava que ela ia cantar, que ela devia cantar, cheguei a dizer a Gil que ele estimulasse.
Eu ficava insistindo com Gil um pouco.
Eu era meio tiete da Preta (risos)."
Moreno Veloso
"Nosso pais eram famosos, mas não eram metidos.
Ela era metida (risos).
Uma coisa doida.
Mas ela já era famosa, lá dentro dela, o tempo todo.
Tudo que ela fazia, fazia sucesso.
E assim foi até o fim, em qualquer coisa, qualquer festa, qualquer trabalho, fazia sucesso.
[...] No meio de tudo isso, ela descolou um namorado da pesada (risos).
No meio do Carnaval da Bahia, um baiano muito bom.
Essa era a minha prima.
Nessa situação aí ela descolou um namorado.
Incrível.
O Kanalha...
Um cara incrível."
Danrlei Orrico, O Kanalha
"A gente se conheceu, ela foi no show do Kanalha na Bahia, em um verão da Bahia.
Tudo aconteceu muito rápido e naturalmente.
Minhas últimas felicidades, de poder ficar feliz de verdade, era de fazer ela comer: 'Ai, obrigado, meu Deus'.
Eu ficava tão feliz, tão feliz, tão feliz.
Preta, Ave Maria.
Fez 50 ali, mas era danada demais, demais, demais.
Ela era quente.
Em se tratando do assunto amava, amava, amava uma sacanagenzinha, uma coisinha (risos).
Aqui é Obaluaê e Oxum.
Preta era de Oxum e a gente ficava sempre trazendo boas manifestações de fé para que Obaluaê pudesse cuidar das enfermidades, das feridas dela.
Sempre deixava os dois juntinhos."
