Nem todo conteúdo precisa passar pelo mesmo feed, disputar atenção a todo custo ou ser refém dos algoritmos.
Enquanto as grandes redes sociais incentivam o consumo acelerado, um fenômeno de “detox” têm surgido para quem se cansou desse modelo.
Especificamente na fotografia, algumas plataformas permitem que artistas criem de forma mais autêntica, com foco em construir relacionamentos.
Uma dessas redes é o “Substack”, que já ultrapassou a marca de 5 milhões de assinaturas pagas.
É um feed de conteúdo, onde os usuários podem encontrar textos, imagens e newsletters de diferentes autores.
Ao se interessar pelo trabalho de alguém, é possível assinar gratuitamente ou pagar pela assinatura, dependendo do modelo escolhido, e passar a receber as publicações diretamente no e-mail.
No caso dos fotógrafos, é possível escrever ensaios junto com fotografias, contar histórias sobre processos do trabalho, compartilhar notícias ou apenas acompanhar aqueles que já produzem conteúdo sobre o assunto.
Para o fotógrafo Renato Rocha Miranda, que é editor chefe de uma newsletter sobre fotografia chamada “A Obscura”, a sensação de produzir dessa forma é libertadora: “Existe outro caminho.
Creio que essa é a melhor mensagem da “A Obscura”.
Não depende de trends, de música, de vídeos curtos, de ganchos, likes, mas da relação sua com o mundo e não com um código que determina o que você pode ver ou de anúncios.”
Tela inicial "A obscura"
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A busca por “outro caminho”, porém, não se restringe às newsletters.
Em diferentes formatos, surgem propostas que tentam diminuir o excesso que se tornou característico das redes sociais.
É o caso do “Suaaave”, cujo logo é um emoji associado à ideia de relaxamento.
A plataforma limita as publicações dos usuários a apenas uma foto por dia.
Funciona como um diário virtual, resgatando a lógica do início das redes, em que as contas de conhecidos do usuário poderiam ter mais relevância do que o perfil de uma celebridade.
O criador do aplicativo, Téo Costela, explica em seu canal no YouTube que a ideia surgiu justamente da irritação com o cenário atual do mundo digital: “Quando eu entro no Instagram eu sou bombardeado por um monte de vídeo, por anúncios e gente aleatória que eu não conheço, só porque a foto teve muito like.
A última coisa que eu vejo são as fotos dos meus amigos.”
Feed Suaaave
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O feed é cronológico e não conta com um algoritmo de recomendação.
Na prática, as fotos não chegam aos usuários com base no que curtiram, comentaram ou no tempo que passaram visualizando determinada publicação.
Quanto ao financiamento da plataforma, Téo afirma que não pretende recorrer a anúncios e considera outras formas de monetização, como o financiamento coletivo.
Para quem busca um espaço para pesquisar e organizar referências, o Are.na é outra alternativa.
A plataforma funciona de forma semelhante ao Pinterest, com conteúdos organizados em blocos que podem ser compartilhados com colaboradores de todo o mundo ou mantidos privados.
A diferença está na variedade de formatos que podem compor esses blocos.
Além de imagens, é possível reunir textos, PDFs e links, transformando a plataforma em uma espécie de junção de referências.
Blocos Are.na
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A ideia do Are.na é permitir que as pessoas postem e organizem sem se sentirem pressionadas a impressionar.
Essa tendência é resultado da percepção que o problema que as redes sociais tradicionais geram está na própria dinâmica de passar de um post para outro.
O ritmo do feed pode fazer com que um momento que deveria ser de lazer se torne uma sensação de fadiga.
Foi o que aconteceu com Juliana Rocha, que sentia uma pressão em acompanhar o que os outros postavam, além da comparação constante e desnecessária.
Quando encontrou redes que invertem a lógica, como o Substack, aumentou a vontade de participar de comunidades mais profundas: “Acaba sendo instinto você se sentir mais confortável em um ambiente em que a troca é tranquila e voltada para uma conexão com base no conforto da exposição do outro.
A sensação do substack é de afastamento das redes sociais porque você não sente a pressão de ser perfeito, de julgar ou de se retrair.
Seja como escritor ou como leitor, você escreve com tranquilidade em busca de gerar conexão, escolhe o que lê e se conecta.”
Tarcisio Torres Silva, doutor em Artes Visuais e professor-pesquisador da Escola de Linguagem e Comunicação da PUC-Campinas, explica que a velocidade é o principal fator para o sentimento de recusa que vem crescendo entre os mais jovens.
Recorrer a outros serviços menos contaminados, para ele, pode ser uma forma de buscar ambientes mais saudáveis e conexões efetivas entre as pessoas.
O pesquisador relata que o ponto interessante dessas plataformas é como elas trabalham melhor a intenção de quem está do outro lado da tela.
O interesse prévio pelo conteúdo pode fazer com que o consumo aconteça de maneira mais deliberada: “Na newsletter, por exemplo, há um interesse específico por aquele conteúdo e o consumo se dá de forma mais intencional, com reserva de tempo para isso.
Dedica tempo para compreender o sentido daquele conjunto de imagens e permite-se ser conduzido por elas.
Não importa em qual dispositivo o conteúdo é acessado, desde que haja intenção e interesse em consumi-lo.
É a leitura atenta que estimula a cognição, provoca reflexão e estimula o processo de aprendizado.”
