Uma menina ainda nem tinha nascido quando sua mãe, grávida, visitou pela primeira vez o Museu do Pontal.
Anos depois, com a filha nos braços, a mulher voltou ao espaço e contou a Lucas Van de Beuque, diretor executivo da instituição, que tinha um sonho: ver a criança brincando no gramado dali.
A história ficou na memória do neto do artista plástico francês Jacques Van de Beuque (1922-2000), fundador do museu, porque traduz uma ideia que o Pontal tenta construir há 50 anos — e que ganhou força nos últimos cinco, desde que saiu do antigo endereço no Recreio para a nova sede na Barra: deixar de ser apenas um lugar para visita e virar um lugar de frequência.
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Fundado em 1976, o Museu do Pontal comemora as duas datas redondas com uma programação que tem um pouco de tudo o que passou a fazer parte de sua rotina.
No próximo fim de semana, dias 29 e 30, mais de 20 atrações gratuitas ocuparão o espaço, com ciranda, forró, capoeira, folia de reis, bate-bola, bumba meu boi, circo, cinema, dança e atividades para crianças.
As maiores atrações da festa serão artistas que já passaram pelo local.
A principal será Lia de Itamaracá, que fará show no sábado, às 20h15.
Siba, Mestre Solano & Noites do Norte, Zé Bezerra & Trio Pernambucano, Aturiá e Trio Forrozão também se apresentarão.
Também no sábado, às 15h30, será aberta a exposição “Véio — A escuta do sertão”, reunindo obras do escultor sergipano Cícero Alves dos Santos.
Segundo a curadoria, essa será a maior retrospectiva já realizada sobre o artista, que trabalha sobretudo com troncos, raízes e galhos.
Durante a pesquisa para a montagem, foram identificadas mais de 650 obras de Véio distribuídas em cerca de 50 coleções públicas e privadas, das quais 300, produzidas ao longo de 60 anos, estarão na mostra.
Cícero Alves dos Santos, mais conhecido como Véio, tem seu trabalho marcado pelas esculturas em madeira
Lucas Van de Beuque
De certa forma, é uma volta às origens do próprio museu: Jacques Van de Beuquejá havia incorporado trabalhos do artista à sua coleção antes mesmo de pensar em criar a instituição.
Foi assim, aliás, que essa história começou: com um imigrante europeu encantado pela produção artística brasileira criando uma coleção pessoal com nomes de sua preferência.
Hoje, essa coleção inicial se transformou num acervo com dez mil obras de aproximadamente 300 artistas de 23 estados brasileiros.
Faltam peças de Acre, Amapá, Tocantins e Rio Grande do Sul.
Por enquanto.
— Nosso objetivo é realmente ter artistas de todos os estados, para termos esse encontro de Brasis completo no Pontal — revela Angela Mascelani, diretora e curadora do Pontal.
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Segundo ela, faz parte da proposta do museu ser um espaço de oportunidade para descoberta de talentos fora do mainstream.
Para isso, a equipe sai literalmente a campo.
Um caso recente foi a exposição do trabalho de Roxinha, apelido com o qual Maria José Lisboa da Cruz, ex-gari que se assumiu artista plástica após criar os sete filhos, assina suas obras.
Seu trabalho foi descoberto por Lucas quando ele visitou a Ilha do Ferro, em Alagoas, em 2022, em busca de material para o museu.
Formada em Belas Artes, Ângela, viúva de Guilherme Van de Beuque, filho do fundador Jacques, e mãe de Lucas, chegou ao Pontal nos anos 1990.
Já tinha pesquisado cultura popular em seu trabalho de conclusão de curso.
Mais tarde, tornou-se antropóloga, com mestrado e doutorado, e passou a aprofundar a pesquisa sobre os artistas populares.
Ela conta, que quando começou a trabalhar no local, a ideia era torná-lo referência de educação e arte brasileira:
— Durante muito tempo, esses artistas não estavam na história.
Quando apareciam, é como se fosse por um acaso, como se alguém tivesse simplesmente tido uma grande ideia.
Mas existem processos criativos, investimento, trabalho.
Aqui nos dedicamos a mostrar isso.
Arraiá do Museu do Pontal: festa já é tradição na Barra da Tijuca
Divulgação
Lucas, nascido em 1979, cresceu nesse ambiente, circulando pela antiga sede do museu quando ela ainda ficava numa casa da família, na Estrada do Pontal 3.295, no Recreio.
Adulto, estudou Cinema e virou fotógrafo, e, enquanto trabalhava no Jornal do Brasil, arrumava tempo para registrar as obras do Pontal para catalogação — cerca de oito mil peças naquele momento, das quais registrou ao menos a metade.
Foi Lucas quem levou a ideia de organizar festas de exaltação à cultura popular brasileira ao museu, no começo dos anos 2000.
A sede no Recreio tinha uma área externa que não era tão grande como a da atual, mas que servia muito bem para a proposta naquele momento.
Após a morte de seu pai, em 2004, Lucas mudou sua relação com a instituição, entrou na diretoria executiva e ajudou o ambiente familiar a se tornar uma instituição de pesquisa, educação e cultura, que hoje conta com 60 profissionais.
Também acompanhou a saga da mudança de endereço.
Mudança de endereço
Entrada da antiga sede do Museu do Pontal, no Recreio
Ana Branco/Agência O Globo
Em 2010, a sede original do museu, com ar bucólico e vizinha ao Maciço da Pedra Branca, passou a sofrer com alagamentos frequentes devido ao avanço de grandes construções que elevaram o terreno do entorno com aterros, deixando-a em um nível mais baixo do que o das ruas e transformando-a em um receptáculo de águas da chuva.
Depois de anos de disputas, um acordo entre a prefeitura, a construtora responsável pelas obras no entorno e a direção do museu definiu a transferência da sede da instituição para o atual endereço, na Avenida Célia Ribeiro da Silva Mendes 3.300, na Barra.
A agonia ainda perdurou por muito tempo.
A casa ficaria pronta em 2017, mas o acordo financeiro para realizar o projeto não foi cumprido, e a obra sofreu atraso.
Mais tarde, foi viabilizada com a ajuda de empresas e pessoas físicas e finalmente inaugurada em 2021.
— Não foi uma mudança fácil, por vários motivos emocionais, contratuais e profissionais.
Mas nesse novo endereço o Pontal virou de vez um museu praça.
Um lugar onde as pessoas de todas as idades podem passar o dia — reflete Lucas.
A antiga sede do museu passou uma década sendo assolada por sucessivos alagamentos, até ser trocada pela da Barra
Gabriel Monteiro / Agencia O Globo
— Acontece que aquela casa (a do Recreio) era um museu para o público, mas para a gente era um porto seguro.
Nela, temos recordações de encontros nossos, comemorações, risadas, acolhimento.
Era o ponto de encontro da família.
Dar esse adeus foi difícil — completa Ângela.
Com mais de dois mil metros quadrados, o novo prédio, com vista para a Pedra da Gávea, é inspirado no modernismo brasileiro.
O projeto é dos Arquitetos Associados, responsáveis por algumas galerias de Inhotim, em Minas Gerais.
Os jardins, com diferentes espécies de plantas nativas do Brasil, são assinados pelo Escritório Burle Marx e foram concebidos de forma a acolher diferentes formas de lazer.
Na área externa há um espaço reservado para a fogueira da festa junina, evento realizado há quatro anos na nova sede e que já se tornou tradição na Zona Sudoeste.
Passos futuros
Os jardins do Museu do Pontal recebem uma série de eventos para crianças e adultos
Divulgação/Ratão Diniz
A aposta funcionou.
O Pontal recebe cerca de cem mil visitantes por ano, já realizou mais de dez festivais, que reuniram aproximadamente 80 mil pessoas, e ainda promoveu mais de mil espetáculos e oficinas de múltiplas artes.
Consolidados a reputação e o público, a instituição parte para o que chama de uma fase dois para a sede da Barra.
A prioridade é ampliar a reserva técnica, diante do crescimento do acervo e da chegada contínua de novas coleções, além de criar outros espaços para programação.
Em certo momento desta entrevista, Lucas afirma que o Museu do Pontal foi desenhado tendo como inspiração o Centro Cultural do Banco do Brasil, o popular CCBB.
Será, então, que pode-se esperar que entre estes novos espaços estejam cinema e teatro? Indagados, os diretores desconversam.
Mas há outros planos já definidos.
Em 2023, o Museu do Pontal realizou o "Festival Pará", que celebrou a região amazônica
Divulgação/Ratão Diniz
Ângela revela que o Pontal vai ampliar o foco nas questões contemporâneas, para ser reconhecido também como um espaço de cidadania.
— Nós entendemos o museu como um espaço de exercício da cidadania e da democracia.
A Barra está mudando, virando um espaço multicultural, com bairros populosos em seu entorno.
É importante trazer esse público das zonas Sudoeste e Oeste, para termos um local de troca de diferentes artes — explica.
Também há uma pretensão de ampliar a rede de artistas, movimento já iniciado.
Atualmente, o Pontal tem mais de duas mil obras que não faziam parte da coleção original de Jacques.
São aquisições feitas diretamente com os criadores, que levaram a instituição, inclusive, a incorporar linguagens antes pouco presentes, como a pintura.
Manter essa estrutura sempre de forma gratuita para a população demanda uma grande operação.
A família diz que, diferentemente do que muitos visitantes pensam, não é multimilionária.
O museu depende de patrocinadores, apoiadores, contribuições voluntárias e editais, explicam os diretores.
— Todo ano temos que buscar recursos.
É como fazer um grande filme por vez, mas o museu não pode parar de funcionar, porque tem uma estrutura permanente — observa Lucas.
Lançamento de livro
Ainda para este ano, está previsto o lançamento de um livro sobre os cinco anos da nova sede e os 50 anos de história da instituição.
Para financiar a publicação, o museu está recebendo doações que podem ser feitas pelo Pix 03.360.608/0001-15 (CNPJ).
Toda doação é importante, dizem, e aquelas a partir de R$ 100 ganharão recompensas.
Terá o nome publicado no site quem doar entre R$ 100 e R$ 350, e quem doar entre R$ 350 e R$ 500 também levará uma camisa customizada do museu.
Já doações entre R$ 700 e mil reais recebem ainda um livro.
Até R$ 10 mil, serão diferentes recompensas, dependendo do valor da doação.
A busca por recursos definirá o tamanho dos próximos passos.
Os dirigentes já trabalham na programação de 2027, mas dizem que ainda é preciso verificar quais terão viabilidade financeira.
