Os ataques com arma de choque em Belém e a tragédia de Galdino Pataxó
Um vídeo que circula pelas redes sociais mostra o estudante Altemar Sarmento Filho atacando um homem em situação de rua em Belém, no Pará, com uma máquina de choques. Filmado a distância pelo colega Antônio Coelho, ele foge dando gargalhadas quando a vítima se assusta com a agressão. As imagens vêm causando repúdio e motivaram o afastamento de ambos da faculdade de Direito em que estudavam. De acordo com uma moradora da região onde aconteceu o ataque, jovens em carros de luxo já vinham agredindo a mesma vítima com bombinhas e jatos de extintor de incêndio.
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Há quase 30 anos, uma atitude parecida com essa terminou em desgraça, quando o indígena Galdino Pataxó, que dormia em um ponto de ônibus em Brasília, foi incendiado por jovens de famílias ricas. A vítima ficou com 95% do corpo queimado e morreu no hospital. Na época, um dos envolvidos disse, em depoimento à polícia, que era pra ter sido uma "brincadeira", mas que "pegou fogo demais".
Galdino Jesus dos Santos estava em Brasília com outros integrantes da etnia Pataxó Hã-Hã-Hãe para participar de reuniões com o governo federal sobre conflitos fundiários nas terras indígenas de seu povo, no Sul da Bahia. Na madrugada de 20 de abril de 1997, após participar de eventos do Dia do Índio, ele chegou na pensão onde estava hospedado, na Asa Sul, mas foi impedido de entrar. Sem outra opção, o agricultor de 44 anos, morador da Aldeia Caramuru Paraguaçu, adormeceu num ponto de ônibus a 20 metros do imóvel. Pouco depois, foi acordado com o corpo coberto por chamas.
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Naquela madrugada, cinco jovens de famílias ricas da capital federal acharam que seria engraçado atear fogo em uma pessoa que dormia na rua. Um dos criminosos era filho de um juiz federal. Outro, enteado de um ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Max Rogério Alves, Eron Chaves de Oliveira, Tomás Oliveira de Almeida, Antonio Novely e um menor de idade, todos de 17 a 19 anos, jogaram sobre Galdino um líquido inflamável e riscaram palitos de fósforo para gerar o fogo. Enquanto a vítima era engolida pelas labaredas, o grupo fugia num Chevrolet Monza.
Carteira de trabalho de Galdino Pataxó, morto por cinco jovens em Brasília
Arquivo/Agência O GLOBO
O menor envolvido era Gutemberg Nader de Almeida Júnior, que anos mais tarde se tornaria servidor da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Todos os envolvidos, aliás, tornaram-se funcionários de órgãos como o Senado Federal, o Tribunal de Justiça e o Departamento de Trânsito (Detran-DF).
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O indígena chegou a ser socorrido com vida. O advogado Evandro Castelo Branco Pertence, filho do então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Sepúlveda Pertence, estava saindo de uma festa de casamento por volta das 5h quando viu a bola de fogo humana a Avenida Asa Sul. Ele parou o carro e cobriu Galdino com seu paletó, auxiliado por outro homem, enquanto a vítima gritava pedindo ajuda. Depois, o advogado usou o extintor de incêndio de seu carro para extinguir as chamas. O pataxó de 44 anos foi levado, consciente, ao Hospital da Asa Norte. Mas morreu horas depois.
"Quando vi, pensei que a parada de ônibus estava pegando fogo. Não me conformo que alguém no mundo possa fazer isso", disse Pertence ao GLOBO.
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A vítima chegou ao pronto-socorro com 95% do corpo queimados. Ele ainda estava lúcido e lembrou que tinha batido na porta da pensão, mas disse que a responsável, chamada Vera Moretti, não o deixou entrar porque era muito tarde. Pouco após ser admitido no hospital, Galdino apresentou insuficiência respiratória e renal agudas e começou a expelir sangue pela urina (estágio terminal de uma pessoa queimada). Ele morreu momentos depois. Considerado um bom agricultor e também uma espécie de conciliador na aldeia onde morava, o líder indígena tinha mulher e era pai de três filhas.
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Roberto Stuckert Filho/Agência O GLOBO
"Ele era uma pessoa muito feliz. Gostava de trabalhar na roça. A gente nadava no rio, pegava traíra, piaba e acari. Mas hoje não dá mais peixe. Os brancos vêm da cidade pescar muito, e o rio ficou batido", descreveu o primo Tatuti Pataxó, de 22 anos, no dia seguinte. Ele e os demais indígenas tinham procurado o governo devido a um conflito com fazendeiros em suas terras originárias. O crime hediondo que vitimou Galdino deixou todos revoltados. "Cadê o governo? Cadê a Justiça? Que país é este? Além de matar na aldeia, agora matam na cidade?", protestou o cacique Tito Mowé.
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Os assassinos foram presos graças a uma testemunha que seguiu o carro dos rapazes até anotar a placa. Eles foram detidos cerca de duas horas depois. A polícia chegou primeiro na casa de Max, que dirigia o carro. Ele confessou o que tinha feito e conduziu os agentes até as residências dos cúmplices. Na delegacia, todos negaram a intenção de matar Galdino. Diziam que era "uma brincadeira". Naquela época, a Polícia Civil investigou a participação deles em episódios semelhantes. No ano enterior, dois moradores de rua haviam sido incendiados nas mesmas condições do indígena.
As investigações mostrariam que o grupo comprou dois litros de álcool num posto de combustível minutos antes do crime. Em entrevista ao GLOBO dois dias após o assassinato, Max Rogério contou que eles tinham feito um lanche e estavam rodando a cidade de automóvel, procurando o que fazer na madrugada de Brasília, quando viram um homem dormindo no ponto de ônibus e tiveram a "ideia" de atear fogo nele. O criminoso garantiu que não sabia que a vítima era indígena e que, portanto, o crime não tinha relação com o Dia do Índio, celebrado na véspera.
Cacique do povo Xavante no ponto de ônibus onde Galdino foi morto, em 1997
Sérgio Marques/Agência O GLOBO
"A gente pensou em dar um susto. Foi só isso, uma brincadeira. Pensamos que ele ia acordar, dar um pulo e sair correndo", contou Max Rogério, antes de explicar por que, então, nenhum deles prestou socorro quando viu que o indígena estava desesperado enquanto era engolido pelo fogo. "A gente ficou apavorado. Pensamos em voltar para acudir. Aí, chegou um carro, ninguém sabia o que fazer. Fomos embora. Era para ser uma brincadeira, só isso, mas acabou com a vida da gente".
O assassinato gerou comoção em diversas partes do país. Galdino foi morto após participar de eventos em celebração ao Dia do Índio na Fundação Nacional do Índio (Funai). Houve protestos em Brasília. Durante o funeral do indígena, os pataxós se pintaram para a guerra e exigiram justiça das autoridades. O então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, que estava em viagem oficial no Canadá, disse que o "episódio trágico ultrapassou todos os limites" e que "nós queremos ser um país diferente, mas não estamos cumprindo esse objetivo".
Como era menor, Gutemberg cumpriu medida sócio-educativa. Em 2001, um júri popular condenou os quatro maiores de idade por homicídio triplamente qualificado (motivo torpe, meio cruel e uso de recurso que impossibilitou defesa). Eles foram sentenciados a 14 anos de prisão. Em 2002, a 1ª Turma Criminal deu aval para que exercessem funções administrativas em órgãos públicos e voltassem para dormir no Complexo Penitenciário da Papuda. Depois, obtiveram permissão para cursar faculdades fora da cadeia. Até que, em 2004, os rapazes conquistaram direito a liberdade condicional.
